Camilo Solano mistura quadrinhos, deficiência e música em Semilunar

O quadrinista Camilo Solano é um dos jovens talentos dos quadrinhos que vem se destacando. O artista que tem uma identidade artística poderosa e no mês de novembro ele lança sua nova HQ chamado Semilunar, obra que foi capitaneada pelo ProAC no ano de 2017 e que será lançada pela Balão Editorial.

Semilunar foi uma HQ que demorou dois anos para ser produzida. Solano cria uma história que mescla abordagens e formas de colorização e finalização para marcar as diferentes passagens da história.

A história de Semilunar conta a história de Maria, uma menina que sofre de disfemia, também conhecido como gagueira. Entretanto, a protagonista consegue domar seus problemas cantando e recitando poesias. Esse é o ponto de partida para iniciar um conto que vai acompanhar a protagonista em sua difícil jornada de adolescente para viver de música em uma condição tão delicada, além de lidar com a mãe da garota, que projeta na filha seus desejos e frustrações.

Outro ponto interessante na produção de Solano é a composição de músicas e animações que seriam a continuação da Semilunar. O artista já lançou a primeira de quatro faixas, chamada Agridoce, que você pode escutar após a a entrevista que o Terra Zero fez com Camilo Solano para comentar a produção da sua HQ, falar sobre os obstáculos da produção e música.


Terra Zero: Camilo, você demorou dois anos para fazer Semilunar, uma produção demorada e também tortuosa muitas vezes. Como está o coração, vendo a edição impressa de sua nova HQ?

Camilo Solano: É incrível ver o livro pronto finalmente. E sim, realmente foi um caminho tortuoso mesmo. Até porque, quando eu criei a história, lá em 2015, eu tava em uma fase muito difícil, pois estava com uma tendinite muito forte que me impossibilitou de desenhar por um tempo. Foi assim que nasceu Semilunar, mas não conseguia desenhar a ideia. Então foi muito frustrante e dolorido no começo, tanto que, em algumas vezes, eu fazia os esboços das ideias com a mão esquerda. Mas tudo foi melhorando, no mesmo ano consegui o ProAC e tudo caminhou razoavelmente bem.

Maria, protagonista da HQ, sofre de gagueira e quer se tornar musicista. De onde veio essa inspiração para a história?

Veio bem dessa época da tendinite, que foi um momento que me senti silenciado por mim mesmo. Aquela vontade de fazer e não conseguir. Assim nasceu a ideia da gagueira. Uma pessoa com o desejo de se expressar, mas sem condições de fazer aquilo no momento. Era como estava me sentindo. E a minha paixão pela música, ao inserir essa questão na história, foi também um ótimo pretexto para eu exercer a prática da composição, que é uma coisa que faço há bastante tempo. E como superar esse tipo de coisa? Uma pessoa que é gaga mas quer cantar? Procurei buscar todas essas respostas na HQ.

Semilunar é uma narrativa que mistura poesia, música e muita delicadeza na história. Acredito que misturar tantas paixões em uma mesmo gibi fazem sua cabeça viajar, ao mesmo ponto que você precisa do dobro de cuidado para não sair muito fora da caixa. Como balancear tudo isso?
Essa parte de balancear tudo, eu tive uma imensa ajuda do meu editor Guilherme Kroll. Ele está desde o começo comigo nisso. Quando escrevi o primeiro esboço, mandei pra ele, marcamos um encontro e fomos discutindo tudo que fazia sentido para a história. Foi ótimo ter ele nesses momentos. Mas também eu sempre busquei trazer um pouco de música para os meus quadrinhos, mesmo que de maneira sutil. Acho que essa HQ é a mais assumidamente uma história rítmica. E foi muito rica a continuidade que consegui trazer para Semilunar. Pois foram feitas animações que vou postando no YouTube que são as composições que a personagem faz na história para responder pequenas questões do dia-dia, como agradecer ou mesmo constatar um momento que ela está sentindo. Já postei uma. Semana que vem sai outra.
Você compôs quatro músicas para Semilunar. Como foi o processo de criação dessas músicas, transformando em animação e dando mais vida para essa HQ? Podemos esperar um álbum inteiro de Maria em breve?
Então, como disse anteriormente, essas composições são uma “continuação” da história. Mas não é uma continuação propriamente dita, pois você não precisa ver os vídeos para entender a HQ, mas eu procurei uma maneira de fazer o gibi continuar fora dele. Continuar fora do papel, sabe? Eu acho que é um exercício interessante experimentar diferentes linguagens que acabam agregando a história. A composição delas foi natural. Primeiro pensando na poesia e depois transformando-as em melodias singelas porém melancólicas. Procurei tentar fazer canções simples mas carregadas, sabe?

Em certo ponto a história de Maria mira o lado dos pais, que projetam seus desejos e frustrações no filhos. Você entende isso como uma caraterística natural da sociedade ou ela está cada vez mais latente, dado o fato de, hoje, alguns pais literalmente treinarem seus filhos para serem perfeitos e, em contrapartida, não sabendo lidar com as derrotas pessoais?

Eu acho que (na história), a mãe deposita sim suas inseguranças pessoais na sua filha, mas de uma forma completamente inconsciente. E é a mãe dela que a ajuda a “domar” a gagueira. As relações são muito mais complexas, e é sempre muito difícil lidar com derrotas pessoais, sim. Se é uma característica natural, eu não sei dizer, mas existem muitos casos assim, com certeza.

Na CCXP, você faz o lançamento de Semilunar. Vai levar mais algum dos seu trabalhos autorais? Venda seu peixe e diga o que os leitores do TZ deveriam corre na sua mesa para pegar.

Vou levar Semilunar na CCXP 2017 e também levarei Bandida que lancei com meu irmão Aldo Solano na CCXP Tour em Recife. Levarei os últimos exemplares que restam de Solzinho. E também levarei exemplares de Desengano, que é a HQ que tem prefác… Ah… É isso aí. Valeu demais pela entrevista. Leitores do TZ, o que pegar na minha mesa? TUDO!! E ainda bate um superpapo maneiro comigo! Hehe!,

2 Comentários

Clique para comentar

2 × 4 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com