Comicmania XIV (RJ) – Considerações


Postado em 03/08/2011, por Vlad 'Focus'
Em: Destaque , Matérias


Neste final de semana (dias 30 e 31 de julho de 2011) ocorreu o retorno da lendária Comicmania, evento de quadrinhos que era presença marcada no Rio de Janeiro nos anos 1990 até o início do novo milênio. A 14ª edição da convenção de histórias em quadrinhos ocorreu no clube Orfeão Português, no bairro do Maracanã, não apenas com o intuito de entreter o público como também de fazer com que os eventos de quadrinhos retornassem com força total ao cenário carioca. A equipe do Multiverso DC esteve presente no evento e nesta matéria você poderá conferir nossas impressões.

Sábado (por Gustavo ‘Antimonitor’)

Cheguei na Comicmania algumas horas depois do início do evento (que se deu às 10 horas da manhã) devido ao trânsito, mas não perdi quase nada. Logo que entrasse, o participante ganhava como brinde um card holográfico do Darth Maul. O clube, até para as proporções de um evento com tanta história, não era muito grande, mas acabou sendo perfeito para a realização da décima quarta edição. A primeira palestra que ocorreu logo após minha chegada foi a do mitológico Luis Batman, um fã assíduo da série do Homem Morcego de 1966 (aquela do Adam West) e que desfila pelas ruas fantasiado de Cavaleiro das Trevas. Antes de contar mais sobre sua vida, foi exibido a entrevista de Luis no programa de Jô Soares, que você também pode ver abaixo:

A palestra do Batman brasileiro surpreendeu muita gente, pois ele mostrou saber muito da mitologia do Morcego, não apenas nos quadrinhos, mas também em outras mídias. Após uma rápida entrevista, Luis mostrou seu lado ator encenando Bruce Lee e Rock Balboa, com direito a golpes contra o ar e cuspidelas, o que levou a galera ao delírio.

Quadrinhos...

...e mais quadrinhos!

Após a palestra do Batman foi exibido o piloto do seriado cancelado da Mulher Maravilha, que mesmo em inglês e sem legendas prendeu a atenção do pessoal presente. No piloto, a Maravilhosa aparece com e sem calça comprida. Tirando a parte dela estar envolvida com uma empresa, o episódio ficou bem interessante.

Quadrinhos, brinquedos...

...action figures, camisetas...

...e pôsteres (clique para ampliar)

A Impacto Quadrinhos marcou presença com os artistas Carlos Rafael, Guilherme Raffid e outros. Além do portfólio deles, havia também um escultor que estava modelando e exibindo sua técnica. O evento contava com a venda de quadrinhos e colecionáveis em geral, e havia também a possibilidade de se deleitar jogando de graça Marvel Versus Capcom 3 e Mortal Kombat 9 num Playstation 3 trazido pelo Grupo Seven (escola de computação gráfica) e matar a fome na cantina. Por falar em venda de quadrinhos, a Crossover Colecionáveis, loja do meu amigo Alexandre, trouxe bastantes coisas interessantes e raras por ótimos preços, sem falar nos brinquedos, DVDs e camisetas. John Calvet, organizador do evento, também trouxe diversas caixas de quadrinhos para vender. A cada caixa revirada era uma surpresa. Revistas nacionais e importadas raras por preços baixíssimos. Além das revistas, também tinham vários pôsteres da DC Comics, tanto coloridos quanto preto e branco.

Portfólio dos artistas da Impacto Quadrinhos (clique para ampliar)

Outras palestras que interessaram a galera foram a de P.H,  da lendária Top TV, que exibiu um vídeo especial contando a trajetória da Top TV até a Crash TV, sua mais nova investida na Internet, além de gravar um vídeo para exibir em seu site, o Tujaviu.com. Outra palestra legal foi a de Jorge Ventura, autor do Livro “Soc! Pow! Crash! – 40 Anos da Série Batman da TV”. Grande conhecedor da série de Adam West e Burt Ward, o autor, que tinha o nome de cada envolvido no seriado na ponta da língua, contou como desenvolveu essa paixão pela série, além de responder a dúvidas do público, revelar curiosidades e levantar polêmicas, como as das consequências do humor camp de Batman em outros seriados da década de 1960 e se o seriado faria sucesso atualmente.

Eddy Barrows, o artista exclusivo da DC Comics que era a grande estrela do evento, chegou um pouco mais tarde do que o esperado, mas a demora foi recompensada por Eddy, que super atencioso e paciente, ao lado da família, atendeu cada fã, inclusive eu, distribuindo autógrafos, apertos de mãos, desenhos e vendendo revistas importadas que tiveram sua participação, além de seu skeetchbook, que foi bastante disputado.

Eddy Barrows (créditos da foto: Impacto Quadrinhos)

A palestra de Eddy foi sensacional, durando cerca de 4 horas e dando uma verdadeira lição de vida ao público. Após a palestra deixei o local bem feliz, com diversas HQs e um desenho gigante autografado por Barrows.

Domingo (por Vlad ‘Focus’)

A primeira atração do domingo foi a exibição de um fan-film brasileiro do Capitão Marvel, com a presença de Valter Santos, o “ator” que interpreta o personagem título. O filme é completamente tosco, mas incrivelmente engraçado, a começar pelo black power e óculos escuros usado pelo Capitão. Uma das coisas que Valter contou, e que é nítido no filme, é que a primeira parte, onde o Dr. Silvana tenta destruir a cidade ameaçada por um robô gigante, estava no roteiro, porém depois disso eles decidiram ignorar o roteiro e começar a interagir com as pessoas na rua. Isso gerou situações hilárias, como as partes em que ele entra num bar e quando as crianças estranham aquele colante ridículo. Quem ainda não assistiu essa obra prima da tosquisse nacional pode ver o vídeo aí embaixo. Mas a entrevista não ficou apenas no vídeo, ela se estendeu até a história do próprio Capitão Marvel dos quadrinhos e, apesar de não  estar envolvido com nada da indústria de HQs, Valter sabia bastante sobre o personagem e rendeu um bate-papo interessante. Ele está prometendo o segundo filme do Capitão pro final do ano, dessa vez com um pouco mais de recursos (mas nem tanto!).

Valter Santos, o Capitão Marvel brasileiro

Depois disso fui ver a exposição de fotolitos, que estava muito boa, com fotolitos originais de revistas americanas da DC Comics dos anos 60, principalmente. Coisas como World’s Finest, Swamp Thing, Batman Family, entre outros. Confira abaixo as fotos de alguns deles (e clique para ampliar).

A segunda palestra do dia foi a de Ibraim Roberson, desenhista da Marvel Comics agenciado pela Impacto Studios. Ele contou um pouco de sua história, dizendo que começou postando desenhos em fóruns na internet e conseguiu pegar alguns trabalhos de roteiristas iniciantes que também estavam tentando entrar no mercado, até fechar contrato com Klebs Júnior, da Impacto. Uma coisa interessante que ele destacou foi que, postando desenhos nos fóruns, ele percebeu que a sua arte era muito comum e, para se destacar na multidão, começou a fazer os volumes dos desenhos com tons de cinza, utilizando várias técnicas diferentes pra isso. Assim, ele conseguia um efeito bonito mesmo em trabalhos sem colorização, e esse é um estilo que Ibraim carrega até hoje. Essa técnica, inclusive, foi o que fez com que ele conseguisse seu primeiro trabalho grande, numa HQ de zumbis para a editora Avatar (“O Guia de Sobrevivência a Zumbis – Ataques Registrados, de 2009). Depois desse trabalho, a Marvel o chamou para substituir um desenhista que atrasou e ele foi pegando outros trabalhos e crescendo dentro da editora (X-Men Origins: Gambit, Dark X-Men, etc.). A palestra foi muito produtiva para quem desenha e sonha em viver de quadrinhos, o que gerou bastante interesse nos ouvintes, e muitas perguntas sobre prazos, estilos, rotina de trabalho, uso de referências, entrada no mercado, etc. Ibraim ainda respondeu uma pergunta que muita gente faz, mas poucos profissionais tem coragem de responder, sobre quanto ganha um desenhista que trabalha para a Marvel e a DC. Segundo ele, esse valor varia de 130 a 400 dólares por página.

Ibraim Roberson

Amostra do desenho de Ibraim Roberson (clique para ampliar)

Depois da palestra, Ibraim Roberson e Eddy Barrows ficaram desenhando e autografando, e eu pude conversar com eles e com outros artistas que estavam lá, como o independente Denis Mello.

Ibraim Roberson desenhando

Eddy Barrows desenhando

Saldo final

O saldo final do evento é bastante positivo, apesar de alguns problemas. A Comicmania ficou mais de 10 anos parada, então é normal que nem tudo seja perfeito na sua volta, mas o Rio de Janeiro estava precisando de um evento desse nível, pois ultimamente a cidade estava entregue aos otakus.

Aqui vale uma comparação com a Rio Comicon de 2010, evento muito mais badalado mas que sofreu várias críticas do público. A primeira comparação é a do local, e nessa a Comicon ganha fácil. A Estação Leopoldina é um lugar grande, bonito e com estrutura para receber eventos, ao contrário do modesto Orfeão Português. Outra vantagem da Comicon foram as exposições, bem montadas e explicadas. A Comicmania tinha uma exposição muito interessante de fotolitos antigos, mas não soube destacá-la, ficando escondida e sem explicação nenhuma. Porém, tirando essas duas questões de estrutura, no resto a Comicmania mandou muito bem.

A Rio Comicon pecou muito por falta de convidados populares. Milo Manara e Kevin O’Neill são desenhistas importantes, sem dúvida, mas a Comicmania trouxe Eddy Barrows, que é um desenhista superstar hoje na DC, que tem desenhado simplesmente o maior herói do mundo, o Superman. O problema é que muitas vezes nós, brasileiros, não damos valor pelo fato dele não ser estrangeiro. Mas a prova da popularidade de Eddy foi a sua palestra, que contagiou quem estava assistindo e durou aproximadamente 4 horas, com intensa participação do público.

Outra grande vantagem da Comicmania foi a venda de quadrinhos, coisa que deveria ser básica em qualquer evento de HQs. Na Comicon, o único lugar onde a pessoa poderia comprar quadrinhos (além dos independentes) era na Livraria da Travessa, que só tinha livros grandes, caros e (quase sempre) desconhecidos. A Comicmania, por outro lado, tinha quadrinhos novos e antigos, nacionais e importados e para todos os bolsos, desde formatinhos a Editora Abril por 1 real até encadernados e séries completas mais caros, além de derivados como bonecos e camisetas.

Há que se lamentar, porém, a total falta de apoio à Comicmania. John Calvet, organizador do evento, disse que tentou por diversas vezes que alguma editora patrocinasse de algum jeito, mas só ouviu respostas negativas. Da Panini não é preciso nem falar, não é de hoje que ela não se dispõe a participar de eventos. Mas o caso mais esdrúxulo, diz ele, foi o da editora Rocco, que lançou o livro “O Guia de Sobrevivência a Zumbis”, desenhado por Ibraim Roberson. A editora afirmou que não era de seu interesse divulgar e nem vender o livro no evento, e recusou mesmo quando John ofereceu a eles o sistema de consignação, onde eles não teriam despesa nenhuma pelos livros que não fossem vendidos.

Espera um pouco, deixa ver se eu entendi. O artista do livro que esta editora lançou daria uma palestra onde falaria do livro. Certamente algumas pessoas se interessariam e iriam querer comprar o livro, e a editora não teria gasto nenhum, pois emprestaria o material em sistema de consignação, e eles dizem que não é do interesse deles? Não é do interesse deles vender? Bom, talvez eles tenham lançado o livro porque estava sobrando dinheiro pra publicar, e eles queiram enfeitar a sede da editora com os exemplares impressos…

A Rocco perde com isso, mas não apenas ela. Se houvesse apoio, a estrutura poderia ser melhor, mais artistas poderiam ser convidados e quem ganharia seria o público. Boa vontade da organização deu pra perceber que existe, assim como do público, falta apenas as editoras se interessarem. Infelizmente, John Calvet disse que sem apoio dificilmente haverá uma 15ª edição. É uma pena.

Finalizo esta matéria agradecendo a todos que foram ao evento e com uma ilustração que Eddy Barrows fez especialmente para o Multiverso DC!

Desenho de Eddy Barrows para o Multiverso DC (clique para ampliar)


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Comentários

  1. “Pra Sempre, Wally West!” Até fiquei emocionado. =’)

  2. klayton doido varrido diz:

    “Orfeão Português, no bairro do Maracanã”

    Nao sabia e acabei nao indo.Foda,vou me jogar no rio podre

  3. Fabricio diz:

    Pô, comparar a Rio Comicon, um evento cheio de patrocinadores de peso com a Comicmania foi pegar pesado. A Rio Comicon apesar de toda grana envolvida já começou mal, um evento muito elitista. A Comicmania tem história e já trouxe artistas de peso pro Rio de Janeiro: Jim Lee, Greg Capullo, David Mazuchelli, Adam Hughes, Bill Sienkiewicz além de inúmeros talentos nacionais. Imagino o que o John Calvet faria no comando (e com os recursos) de uma Comicon da vida.
    Vacilo mesmo foi dos fãs cariocas que não soberam prestigiar.

  4. Vlad 'Focus' diz:

    Pois então, Fabrício, meu objetivo em comparar as duas foi exatamente para mostrar que, apesar de todo o investimento, a Rio Comicon foi muito mais elitista, deixando de lado os artistas mais populares.

  5. Ricar rio diz:

    Com direito à pôster do Jou Ventania

  6. Vinicius Arcanjo diz:

    Cara, que vacilo dessa editora Rocco!

    E sinceramente, e não me lembro de ter visto ou notado o nome dela antes… parece que isso é legal pra eles… vai saber…

  7. Vinicius Arcanjo diz:

    E parabéns pela cobertura! Vocês mandaram muito bem!

    É uma pena que este evento praticamente não tenha sido divulgado (se é que foi)!

    Eu gostaria muito de ter ido!

    Vocês podiam fazer posts ou até uma coluna divulgando estes eventos! Fica aí a sugestão!

  8. Muito obrigado pelas palavras gentis sobre o meu trabalho, hehe…
    Foi ótimo participar do evento.

    Quanto mais eventos de quadrinhos no Rio melhor.
    Torço para que todos eles corrijam seus problemas e melhorem a cada edição.

  9. Tytan diz:

    Eu não sabia disso… DAMN!

    Pertinho de casa… Teria ido, com certeza!

  10. Caralho, como eu não fiquei sabendo disso? :(

  11. monitor diz:

    Cara, o PH. Lembro dele do Top TV. Bons tempos. Se não me engano ele colaborou com a revista Herói. E esse Capitão Márvel? Muito hilário Valter. A cena que a criancinha cisma com o volume nas calças do Capitão Márvel é de morrer de rir. E o japa que não quis vender uma cerveja? kkkkk. Fan Film brasileiro, uma realidade rs.

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