[Watchmen] Analisando a obra que virou filme – bem a fundo


Postado em 09/03/2009, por Morcelli
Em: Destaque , Review


Tive chance de assistir à última sessão da data de estréia do filme Watchmen, na sexta-feira, e ontem à tarde mais uma vez, e é hora de falar, de forma mais pessoal, sobre o que foi a experiência de ver a maior obra do gênero quadrinhos adaptada por alguém que se diz fã da obra, o “visionário” diretor de 300 e Madrugada dos Mortos, Zack Snyder. Devo lembrar a todos que estão lendo de que, se você ainda não viu o filme, prepare-se para spoilers.

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O pessoal do Melhores do Mundo criou uma expressão pra esses filmes bacanudos com cenas encomendadas pro público em geral chamada “massa véio”. Sinceramente, ela cabe em vários momentos do filme, que definitivamente não foi feito para os fãs da obra e do autor Alan Moore. Pelo menos não em sua totalidade, focando mais em espectadores leigos que têm acompanhado a evolução do cinema das Hqs desde o início dos anos 2000.

Visualmente o filme é fantástico, mesmo com um outro defeito nos movimentos do Dr. Manhattan, os efeitos especiais são bastante críveis e, em alguns momentos, arrasadores. Tenho certeza de que muito disso valeu-se da consultoria prestada pelo co-criador e desenhista da série Dave Gibbons, que ajudou o máximo que pôde na construção do filme. O cerne principal da história foi mantido sim, mesmo a ordem narrativa dos eventos, com pouquíssimas coisas mudadas. É claro que muito do questionamento político, da grande conspiração e tudo mais ficaram menores pra poder caber num filme tão grande, mas dá pra perceber o máximo possível tentou ser colocado na película pelo diretor e sua equipe. Vou separar por tópico o que acho mais legal comentar das impressões que fiquei após ter visto a obra duas vezes nas telonas.

Coisas bacanas:
As atuações de Jefferey Dean Morgan (Edward Blakde/Comediante), Jackie Earle Haley (Walter Kovacs/Rorschac) e Billy Crudup (Dr. Jon Osterman / Dr. Manhattan) ficaram fantásticas, sem exagero. Os três captaram muito bem o espírito de seus personagens e o fizeram muito bem durante toda a película. Parabéns aos três e ao diretor, que soube colocá-los de forma pontual em seu trabalho. O Coruja também ficou muito bom, mas com alguns probleminhas que serão citados no próximo tópico.

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Acredito que o maior trunfo do Comediante foi ter sido mais sádico que o original em alguns momentos, conseguindo passar o lado sombrio da humanidade em todos os períodos de tempo em que o personagem é mostrado. Já Rorschac é o mesmo “paranóico-lunático-cruel” da HQ, com o passado triste que tantas pessoas de poucas condições passaram. Vê-lo em movimento com uma voz monótona e amarga também deu muitos créditos à produção.

O Dr. Manhattan é algo totalmente a parte. A história de como Jon Osterman se tornou o super-homem da América é maravilhosa e convence qualquer pessoa que tenha visto o filme. E quando digo qualquer você pode até incluir Alan Moore nisso =D

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Com pouquíssimas alterações quanto ao original (o relógio esquecido não era dele), a cena de seu surgimento é maravilhosa e irretocável. Mesmo. Assistam e comprovem. Outra cena maravilhosa dele é a grande homenagem a Apocalipse… Now! feita durante a guerra do Vietnã. O Dr. Enfrenta vietcongues como se fossem simples insetos ao som da grande Cavalgada das Valquírias de Wagner. Homenagem mais que pontual e emocionante de se ver.

A Trilha Sonora também conseguiu captar o sentimento que o filme passa de um jeito emocionante. Ouvir Bob Dylan e The Times They Are A-Changing enquanto somos apresentados a todo o início da era dos vigilantes até sua queda foi, no mínimo, eletrizante. O cinema inteiro, nas duas sessões que presenciei, ficou num silêncio vidrado olhando para a tela sem piscar. Eu inclusive =D

Problemas:
watchmen-filme-foto-08Falta de profundidade da Espectral de Malin Akerman. A moça não consegue mostrar a frustração e amargura da vida que a personagem da HQ possui, muito menos seus momentos de maior drama e sofrimento. Faltou o cigarro na boca, aquele instrumento usado pela personagem para aliviar a dor de uma vida de caminhos errantes; faltou mais drama na sua frustração de manter uma vida em casal com alguém tão frio e distante dela.

O mesmo aconteceu com o Coruja, mas não tão intensamente como aconteceu com a Espectral. O Coruja convence sim durante quase todo o filme, só podia ser um pouco mais dramático em seu desgosto pelos rumos que sua vida tomaram após ter sido obrigado a aposentar o capuz e a capa, bem como Laurie, mas por motivos distintos. O fato de ele ter ficando impotente na hora de transar com Laurie deixou uma impressão de que ele estava nervoso com a garota e “enferrujado” pra coisa, ao invés de ser alguém tão frustrado que nem consegue manter uma relação sexual, como originalmente acontece.

Ozymandias: terrivelmente mal interpretado por um ator nada preparado e quase totalmente descaracterizado durante todo o filme. Talvez esteja sendo um pouco injusto mas, analisando de forma fria, Adrian Veidt não convence ninguém de que quer o bem para o mundo e instaurar uma utopia “alexandriana” como na HQ original. Não se trata nem de reclamação de fã para algo mal adaptado, mas como espectador, colocando a HQ totalmente de lado, não dá pra botar fé no Ozymandias do filme, que mais pareceu um lunático e megalomaníaco por uma utopia distorcida do que alguém que tentou justificar os meios para atingir um final triunfante. Basicamente, ele dá na cara cedo demais que não é flor que se cheire, algo muito mais sutil na HQ. Pra completar, o emocionante “Eu Consegui!” do original ficou de fora, para total desilusão e descrédito deste Veidt.

O Final:
Aparentemente bem amarrado e conseguindo até trazer à tona muito do questionamento gerado na obra original, o final “elegante” de Zack Snyder possui um defeito que só sui perceber após ter assistido ao filme pela segunda vez. Há algo errado ali, mas que vi que passou despercebido por muita gente, dando uma estranha credibilidade à mudança.

watchmen-filme-foto-01O novo final consiste em jogar a culpa toda no Dr. Manhattan. Um plano do Ozymandias para colocar todas as noções lado a lado, independente de suas diferenças, constitui em colocar Jon como uma arma ameaçadora a todas as grandes potências econômicas e militares do mundo, colocando-as lado a lado contra esse inimigo comum. De fato, o final do filme, consistiu na busca pela paz do povo, como na HQ.

Entretanto, há algo errado nessa história toda. Como um país belicoso e frio como a Rússia (ainda URSS na história) simplesmente aceita o fato do Dr. Manhattan, supostamente em Marte, ter atacado todos os países, inclusive os EUA, sendo ele a principal arma do mundo ocidental? A Rússia que aprendemos a ver nos filmes e seriados – que é uma caricatura do ódio Americano por seus rivais e não deve ser levada em conta para comparações com o muno real – certamente não aceitaria tal argumento – aliás, se revoltaria ainda mais com um suposto cinismo da América de dizer que fora atacada da mesma forma por sua principal arma e iniciaria a guerra com ainda mais intensidade. Além disso, indiretamente, a América também é culpada por ter ostentado Manhattan como seu maior trunfo militar, trunfo que, em teoria, destruiu o mundo.

É óbvio que o final da HQ, por mais surrealista que seja, possui uma intensidade muito mais forte: um monstro de outra dimensão não tem como ser culpado. Não há CULPA, não há CAUSADOR, algo que o povo americano tende a não aceitar, por sua maneira “preto-no-branco” de ver o mundo. Não ter um culpado no filme, mesmo sem lula gigante (o que concordo que não convence ninguém numa tela de cinema), mostraria, afinal, muito mais do verdadeiro espírito da causa de Adrian Veidt.

O que acontece é que Snyder contou com os tempos de crise no mundo todo para apelar para esta parceria mundial contra um suposto deus em forma humana – o diretor tentou tocar na ferida das diferenças populacionais unindo todos em tempos tão difíceis. Portanto, colocando na balança, o final é eficaz sim, mas é suficiente para levantar desconfiança aos mais ligados.

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Enfim, Watchmen, como filme, é realmente muito bom. Excitante em vários momentos, fraco em outros, mas no geral conseguiu seu principal objetivo: ADAPTAR a obra máxima dos quadrinhos para as telonas. O público leigo pode vir a se interessar pela obra original, bem como os fãs podem se aquietarem e verem que o filme não foi tão maltratado assim no fim das contas. O levante final é um saldo positivo. Não tanto quanto poderia ser, mas ainda assim positivo.


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Comentários

  1. Camino diz:

    Muito bom Morcelli, acho que você analisou bem as questões como um fã da obra original mas mesmo assim levou em conta o fato de levar para o cinema ser uma limitação a obra. Acho que Snyder mudou o filme justamente para mostrar que ele não tentou fazer uma obra tão intensa quanto os quadrinhos.

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