Jonah Hex: Está na hora do lado Confederado partir

Há algumas semanas o CBR publicou uma matéria interessantíssima sobre o pistoleiro Jonah Hex. Um dos meus personagens favoritos da DC, como os leitores mais antigos do Terra Zero devem saber. Afinal, através dos anos publiquei um bocado de matérias e resenhas sobre HQs dele por aqui. Mas desta vez não se trata de celebrar suas grandes histórias ou os grandes homens que lhe deram vida (John Albano e Tony DeZuñiga). Desta vez vamos falar de uma simbologia que ele carrega desde sempre e que chegou a hora de mudar.

Estamos novamente encarando uma discussão recorrente e importante, ainda que mais contundente, com o lado vitimado sendo mais participativo e conseguindo resultados concretos em alguns lugares. Monumentos e estátuas homenageando pessoas, símbolos e grupos que apoiaram segregações raciais, espalharam intolerância e propagaram a devastação de povos indígenas estão sendo questionados e até derrubados em alguns lugares. E o oposto também está acontecendo. No início do mês um monumento do abolicionista Frederick Douglass foi destruída em um parque em Ohio, de forma a sequer ter como ser restaurada. Já no dia 16, a estátua da ativista negra Jen Reid, colocada em Bristol (Reino Unido), a fim de substituir a do mercador de escravos Edward Colson, foi removida pouco mais de 24 horas depois de ter sido erigida.

Jonah Hex por Darwyn Cooke.
Jonah Hex por Darwyn Cooke.

Em uma época em que o mundo confronta o legado da escravidão e da intolerância, em especial os Estados Unidos, com sua Guerra Civil e os Confederados, a iconografia deste grupo está sendo mais e mais rejeitada. Mesmo, muitas vezes nós mesmos fazemos vista grossa para isso – como fã de rock e heavy metal em geral, “finjo” que não vejo que o líder da banda Iced Earth, uma das minhas favoritas, comumente se apresenta com uma bandana da bandeira confederada. Aliás, apenas esclarecendo melhor esta história de Confederação, aqui vai um esclarecimento, retirado da Wikipédia:

A Confederação (The Confederacy, em inglês) foi uma união política, formada em 4 de fevereiro de 1861, que nasceu com sete estados do Sul dos Estados Unidos (Carolina do Sul, Alabama, Mississippi, Geórgia, Flórida, Texas e Louisiana), agrários e escravistas, após o abolicionista Abraham Lincoln ter vencido as eleições presidenciais de 1860. Jefferson Davis foi escolhido como o primeiro Presidente dos Estados Confederados da América no dia seguinte, e foi o único a presidir a Confederação até ser capturado pela União, em 10 de abril de 1865 um dia após a rendição incondicional das tropas confederadas em Appomattox.

Com isso esclarecido, voltemos ao tema central do texto: Jonah Hex.

O pistoleiro anda meio sumido das HQs nos últimos anos, mas tem muita importância na história da DC como um todo. Afinal, histórias de “bang-bang” são uma tradição típica da literatura norte-americana, e Hex foi uma das últimas criações daquele país nesta cultura (apesar de seus quase 50 anos de idade). E Hex tem um defeito que precisa ser corrigido: o uniforme de Confederado que veste desde sempre.

Se olharmos para seu passado e a época de sua criação, há uma explicação para isso. Quando Albano e DeZuñiga deram vida ao personagem em All-Star Western #10 (1972), Hex foi vendido como escravo para os Apache e criado para se tornar guerreiro, caçador e atirador da tribo ameríndia. Ao abandonar a cavalaria norte-americana, Hex entrou para o Exército Confederado no início da Guerra Civil, mas o tratamento do grupo aos escravos o incomodava. Sendo assim, quando o presidente Abraham Lincoln proclamou a Emancipação, libertando os escravos dos estados Confederados, Hex se rendeu ao Exército da União. No entanto, o pistoleiro continuou vestindo o uniforme de Confederado pelo restante de sua vida, como uma lembrança de seus erros e das vidas que a escolha custou.

O surgimento de Jonah Hex em All-Star Western #10. Arte de Tony DeZuñiga.
O surgimento de Jonah Hex em All-Star Western #10. Arte de Tony DeZuñiga.

Veja, isso fez sentido em algum momento. Cinquenta anos atrás fazia sentido – era interessante situar o personagem em um momento da História e utilizar aquela vestimenta fixamente a fim de justificar constantemente seu antepassado trágico. Em pleno 2020 não faz mais sentido. Levando-se em conta que ele anda meio sumido dos gibis, uma nova origem que o mostrasse abandonando o uniforme após sua rendição o prepararia para os novos tempos, mesmo que suas aventuras continuassem se passando em pleno final do século 19.

Aliás, isso poderia até ter acontecido na época em que ele foi criado, mas cinco décadas na cultura pop fazem muita diferença – e Hex sempre foi um personagem interessante, verdade seja dita. Isso porque Hex, em sua trajetória nos quadrinhos, deixou os Confederados quando se deu conta da barbárie escravocrata daqueles Estados. O personagem sequer é o que se chama de “Lost Causer”, Confederados derrotados e seus simpatizantes, grupos que tentaram reverter a História a fim de colocar uma cara heroica aos derrotados da Guerra Civil Americana. Então por que mantê-lo assim até hoje? Suas cicatrizes já carregam toda a tragédia necessária, assim como sua história de vida. E isso já basta.

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