LGBT. LGBTT. LGBTA. LGBTQA+. Queer.

Uma única identidade coletiva que significam múltiplas coisas em uma só. Sexualidade, ou orientação sexual, a sua atração e pulso por outro ou outrem que preenchem o seu ser com novo significado e oportunidades de apreciação da existência. Identidade de gênero, expressão de gênero, o seu semblante da faceta da sociedade dos “o que são as pessoas” ocupando um espectro infinito delimitado nas bordas de “masculino” e “feminino” ou então a sua resposta abjeta de “nenhuma das alternativas acima”

Quem você ama. Quem você é. Simples, porém errado.

Ser lésbica, ser bi, ser gay, ser trans, ser assexual, ser queer é muito mais complexo e perturbador do que isso tudo que eu botei nas palavras acima. É basicamente ser um super-herói mas tem superpoderes proibidos. Uma percepção quase cósmica de tudo o que existe, uma visão alienígena, distante, disfarçada. Isso, é claro, para os que conseguem ter uma identidade secreta. Ou os que querem ter uma.

The Pride - Arte de Luciano Vecchio.
The Pride – Arte de Luciano Vecchio.

Na metade da década de 10 o escritor galego Joe Glass criou o projeto de um gibi de super-heróis composto somente de protagonistas LGBT, para preencher um vazio que ele percebia na mídia. The Pride, nome do gibi e da equipe, foi financiado por kickstarter e com artes de diversos artistas ganhou certa fama, o suficiente pra receber uma nova leva de impressões, e anos depois, uma segunda temporada.

No início de 2020 li a segunda temporada de The Pride (“temporadas” é o modelo de quadrinhos do Reino Unido, diferente do tradicional americano, que é por mensais). O gibi contava a história de um grupo de super-heróis LGBT unidos parcialmente pela cota que cada um representa, e parcialmente porque eles calham de ser uns dos maiores superseres daquele planeta. Juntos eles enfrentam plots pouco convincentes de super-heróis e preconceitos reais com um roteiro mais leve, sem pesar pra violência social gráfica, com uma arte não muito distinta de qualquer coisa da Image nos anos 2000.

Em um dos momentos mais interessantes da história, Wolf, o análogo da equipe para o Batman, tem uma conversa com sua falsa namorada, uma lésbica que, como ele, vive no armário para manter uma persona que seja publicamente aceita. Wolf é abertamente gay, já Brian Wilde vive no armário. A pretensa namorada indaga Brian o porquê do uso de uma beard se ele é um bilionário dono de uma das maiores corporações do mundo. Ele se recusa a aceitar a pergunta e projeta nela o desgosto que sente pela sua própria identidade. A verdade, que fica óbvia mais a frente na história, é que Wolf pode ser gay. Wolf é um totem, uma máscara, um herói que não paga contas e que pode fazer o que quiser. Mas Brian não se sente poderoso sem a máscara… Sem ela ele se sente vulnerável. É frustrantemente realista e uma dor que nós podemos nos encontrar. Ou, pelo menos, eu pude.

The Pride - Arte de Luciano Vecchio.
The Pride – Arte de Luciano Vecchio.

Quando o Felipe me abordou perguntando se eu queria fazer um texto sobre a super população LGBT dos quadrinhos americanos, sobre esse cenário hoje em dia, eu não podia dizer não. Como anda Alters, de Paul Jenkins e Leila Leiz, O GIBI com super-heroína trans de 2016, e Constantine, como vai a vida amorosa do Bruxo Bissexual, e o casal Wiccano e Hulking, como vai o “felizes pra sempre” deles depois da profecia cumprida e uma prefeitura endoidecida? A verdade é que enquanto todas essas dúvidas permeiam minha mente, eu não consigo focar em nenhuma delas.

A única coisa que eu consigo focar é em uma ardência formigante que se espalha por todo meu corpo. Eu acordo e ela está lá, eu almoço, e a comida não desce, ela não existe, dentro de mim eu não sinto nada, o gosto do café, do chá, é tudo manchado pelo gosto de outra coisa. Vergonha. Medo.

Eu sempre soube o que era mas eu tinha ódio de mim mesma demais pra por pra fora, desse mundo sombrio e regido por regras tão estranhas pra mim mas ao mesmo tempo tão familiares.

Mesmo sabendo do que era, eu nunca tive coragem, até ler GREEN LANTERN 80TH ANNIVERSARY 100-PAGE SUPER SPECTACULAR #1. Tem muitas histórias bonitas dentro da edição. Legacy, de Ron Marz, me lembro em particular, mexeu comigo num contexto mais nerd. Algumas pin-ups lindas de artistas que adoro também, e é claro, uma história póstuma do amável Dennis O’Neil e outra de Charlotte Fullerton, viúva do grande Dwaynne McDuffie, gone too soon.

Nosso novo Alan Scott na bela história de James Tynion IV e Gary Frank.
Nosso novo Alan Scott na bela história de James Tynion IV e Gary Frank.

Mas a história que realmente destruiu minhas barreiras, retirou a máscara e carinhosamente acariciou meu rosto enquanto eu chorava foi Dark Things Cannot Stand The Light de James Tynion IV e Gary Frank. Nela um Alan Scott sofre com sua Síndrome do Sobrevivente por ser o único sobrevivente do acidente que lhe deu os poderes, e também, pelo segredo que ele esconde. Trocando mensagens subliminares com a mãe de uma das vítimas, uma nova faceta do personagem se mostra para nós. O filho fictício de Bill Finger enfrenta a mesma chaga que seu irmão biológico Fred Finger, um homem bissexual, enfrentou em vida. Alan Scott tem vergonha de sua sexualidade.

“Uma luz dentro de mim” dizia o filho da mulher. “É como uma luz que me queima, quanto mais eu guardo mais ela me queima, mas se eu soltar ela, ela vai queimar as pessoas ao meu redor.”

Nosso novo Alan Scott na bela história de James Tynion IV e Gary Frank.
Nosso novo Alan Scott na bela história de James Tynion IV e Gary Frank.

A verdade é que o mundo é cheio de trevas e desespero, de doenças e terrores, assassinos e ódio. E a vergonha, que nós sentimos, não é de nós mesmos por sermos quem somos, mas de vocês, por serem quem são. Foram vocês que aumentaram os casos de suicídio da população LGBT em duzentos e oitenta e quatro por cento de 2017 a 2020. Vocês nos prometeram que não merecemos felicidade, nos torturaram da infância até a velhice, nos empurrando roupas e palavras, nos proibindo nomes e paixões, nos tirando direitos e censurando espaços. E quando a última fagulha de esperança se esvai, vocês mudam o avatar das redes sociais de vocês.

Eu, levianamente achei que o número de assassinatos contra pessoas trans diminuiria em 2020, devido ao isolamento social e à pandemia do COVID-19. Eis minha triste surpresa quando descobri que ele já é maior no período equivalente ao de 2019…

É é por esses motivos que eu tive tanto medo de soltar a luz de dentro. Mas quer saber? Se existe alguma chance dela iluminar as trevas, que ela queime tudo ao meu redor. Eu tinha medo de me abrir e existir porque o mundo é setado em normas de A e B de Cima e Baixo de Positivo e Negativo e eu simplesmente não me encontro nesses extremos. O que eu estou tentando falar, de forma tão verborrágica, pedante e tortuosamente lenta, é que eu não sou uma mulher trans.

Eu sou uma pessoa Não-Binário.

Preparando-me pra escrever o texto que o Morcelli tinha conversado comigo eu li Marvel’s Voices, porque o autor daquele famoso pôster duplo com todos os heróis LGBT da Marvel e da DC escreveu uma historinha queer pra coletânea. É bem simplesinha, é quase que uma versão narrada do pôster, mas o interessante é que num dos painéis o que parece ser uma mutante drag (não, eu não conheço todos os personagens LGBT da face da Terra) e América Chaves seguram cartazes dizendo que eles são heróis, mas não são os primeiros, com fotos de Martha P. Johnson e de Silvia Rivera, heróis da vida real da causa LGBT. Ambas mulheres trans, negra e latina, respectivamente, são atribuídas como o rosto dos protestos contra a polícia que culminaram na Rebelião de Stonewall de 28 de Junho de 1970, catapultando nas Paradas LGBT de hoje em dia.

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