[#ArtigoDeConvidado] Dennis O’Neil: O Legado das Diferenças

“Se tentas escrever como outros escreveram, não o faças” …

O trecho acima é tirado do poema “Então queres ser um escritor?”, do norte-americano Charles Bukowski, e representa muito bem o que foi Dennis O’Neil para o mercado de quadrinhos.

Dono de uma criatividade incomparável, o editor e roteirista – que infelizmente nos deixou na última quinta-feira (11), aos 81 anos -, entendeu como ninguém o potencial da mídia para explorar assuntos que iam além do tradicional maniqueísmo expressado pela DC nos anos 1960.

Uma das últimas fotografias de Dennis O'Neil.
O jovem Dennis O’Neil. Divulgação.

Fruto de experiências acumuladas em sua vida pregressa aos quadrinhos, seja cursando letras e filosofia na Universidade de Saint Louis, servindo à marinha nas crises dos mísseis de Cuba, ou mesmo como repórter de páginas polícias, as histórias de “Denny” transformaram ícones da cultura pop em mensageiros das reflexões e mudanças que pairavam a sociedade americana dos anos 1970.

Sob suas mãos, personagens como Batman, Superman e Lanterna Verde deixaram de lado as barreiras da fantasia para aproximar os leitores de uma realidade em que as aventuras retratavam temas profundos, como a desigualdade e as divergências políticas.

Neste aspecto, talvez o seu maior legado esteja no período em que, a convite do editor Julius Schwartz, comandou as revistas do Lanterna Verde, em histórias nas quais transformou a dinâmica de patrulheiro espacial para aproximar Hal Jordan aos problemas da Terra.

Hal Jordan e Oliver Queen encaram suas diferenças políticas em arte de Neal Adams.
Hal Jordan e Oliver Queen encaram suas diferenças políticas em arte de Neal Adams.

A fase – que até hoje é considerada um clássico –, tem início quando o Lanterna Verde, ao ver um homem sendo agredido por moradores de um gueto, interfere na situação. Sem saber que o agredido é, na verdade, o dono do prédio e que ele explora os inquilinos, defende o empresário mandando o agressor para a cadeia.

Ao invés de aplausos, é hostilizado pelas testemunhas e acaba sendo salvo pelo Arqueiro Verde, que mostra uma outra visão dos fatos para o herói, questionando a forma como vê o mundo.

Em seguida, os dois são abordados por um homem negro que protagoniza uma das minhas sequências favoritas dos quadrinhos e que serve como motivação para uma saga em que os heróis decidem viajar de caminhonete pelos Estados Unidos para compreenderem melhor os problemas da sociedade.

Assim, Denny O’Neil fez história. Por 12 edições, ao lado de Neal Adams, levantou assuntos polêmicos, transformou um negro em lanterna verde, debateu a apropriação de terras indígenas, o direito das mulheres, a violência doméstica, os perigos do fanatismo religioso e político, além do uso das drogas. A icônica história em que Ricardito é flagrado pelos heróis usando heroína não apenas marcou época, como também serviu para afrontar o Comics Code Authority, quebrando o tabu de que quadrinhos eram apenas para crianças.

Além disto, sob o antagonismo ideológico traçado entre o Arqueiro e o Lanterna Verde, Denny nos ensinou a importância do debate democrático e do respeito às diferenças.

Dennis O'Neil autografando um de seus trabalhos mais influentes. Divulgação.
Dennis O’Neil autografando um de seus trabalhos mais influentes. Divulgação.

Nas histórias, Oliver Queen é a personificação do democrata, enquanto a postura bélica e conservadora de Hal Jordan se enquadra perfeitamente no pensamento republicano. Entretanto, de maneira quase pedagógica, Dennis O’Neil nos mostra que as divergências entre os personagens não são um problema, pelo contrário, é aquilo que os motiva a seguir em frente e prosseguir fazendo a diferença.

Por trás de suas máscaras, Lanterna Verde e Arqueiro Verde nos ensinam que se canalizarmos nossos objetivos e desde que respeitados os limites democráticos, a união das diferenças acaba sendo uma força fundamental para a evolução do pensamento.

Em uma época na qual a sociedade tem se mostrado tão polarizada e tão intransigente, os quadrinhos escritos por Dennis O’Neil se tornam ainda mais contemporâneos, necessários e profundos. E, infelizmente, sua perda mais amarga.

Fábio Devito é jornalista, leitor de quadrinhos e aluno do programa de Mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO). Sigam-no no Twitter @binhodevito

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