[#ArtigoDeConvidado] Você entendeu errado!

A propagação do conservadorismo nas histórias em quadrinhos voltou a ser alvo de discussões, nesta quinta-feira (07), após o portal TAB, do UOL, publicar uma matéria sobre a consolidação do gênero “quadrinhos de direita” como um nicho no Brasil.

Embora controversa (a matéria cita apenas duas obras como exemplo desta tendência, Doutrinador e Destro – e se equivoca ao não informar que o autor desta última também é Luciano Cunha, de Doutrinador, sob um pseudônimo), o texto tem seu mérito ao destacar que, de fato, uma parcela dos leitores brasileiros não entende a mensagem.

Quadrinhos de super-heróis são essencialmente progressistas. Um gênero criado por editoras e sindicatos menores que, impactados pelas incertezas de um período marcado pela repressão cultural da Lei Seca e pela instabilidade de uma economia em recuperação, encontraram no formato uma alternativa de sobrevivência.

Um mercado que, por muitos anos, foi a única alternativa de trabalho para classes menos favorecidas da sociedade americana, como os filhos de imigrantes judeus, italianos e latinos, que viam na prancheta uma oportunidade de vida melhor.

Action Comics #1 - Superman tira uma mulher inocente do corredor da morte ao encarar um governador corrupto. Arte de Joe Shuster.
Action Comics #1 – Superman tira uma mulher inocente do corredor da morte ao encarar um governador corrupto. Arte de Joe Shuster.

Talvez, o melhor exemplo para estas relações esteja no surgimento dos primeiros heróis, na forma como eles foram idealizados por seus criadores, bem como seu impacto ao longo das décadas na sociedade.

Seja com o primeiro (e maior de todos), o Superman. Um paladino criado para ser o protetor da classe operária, uma figura com ideais muito mais próximos do marxismo do que do american way of life de Roosevelt. Passando pelos beatniks de Stan Lee, Jack Kirby e Steve Dikto, aos hippies de Gerry Conway e Jim Starlin – que se tornaram símbolos para as lutas dos movimentos sociais –, até o período mais sombrio do final da guerra fria; a história mostra que apesar da subversão destas obras pelos meios de massa, relacionando-as aos mais diversos objetivos, do ponto de vista ideológico, a mensagem dos quadrinhos é clara e enraizada ao desejo de transformação social.

Para entender melhor esta visão é preciso compreender que histórias em quadrinhos, assim como qualquer outro produto cultural, possuem camadas. De modo que compreensão total de uma obra só poderá ser alcançada por meio da interpretação daquilo que está além da superfície.

Inclusive, esta era a visão defendida por Umberto Eco nos estudos de Apocalípticos e Integrados – uma obra seminal para a compreensão da semiótica e da forma como a arte se relaciona aos meios de comunicação de massa. Nela, Eco dedicou um capítulo inteiro às histórias de super-heróis, precisamente na figura do Superman, para compreender que a complexidade das histórias em quadrinhos se baseia na complexidade de um sistema de relações, em que cada nível, em escala diversa, reproduz limites e contradições dos demais.

Em outras palavras, ao consumir um produto cultural, seja ele uma revista em quadrinhos, um filme, ou livro, esperando não encontrar ideologias, ou mesmo uma mensagem além da capa, é consumi-lo de maneira rasa.

Deste modo, se você lê títulos como o Justiceiro, Watchmen, ou mesmo O Cavaleiro das Trevas e não considera o contexto histórico destas publicações, você entendeu errado.

Se você espera que uma história dos X-Men não vá falar de igualdade, de aceitação e de empoderamento, você entendeu errado.

Martin Luther King e Malcom X, líderes dos movimentos civis dos anos 1960, inspiraram a criação dos personagens Professor Xavier e Magneto.
Martin Luther King e Malcom X, líderes dos movimentos civis dos anos 1960, inspiraram a criação dos personagens Professor Xavier e Magneto.

Se você se incomoda com um beijo gay nas capas de uma revista e disfarça seu preconceito sob argumentos que não condizem com a sociedade, você entendeu errado.

Escrever um quadrinho conservador é produzir uma obra que não condiz com a essência do formato.

Entender os propósitos da ferramenta em que você está trabalha é basilar para a construção de boas histórias. Exige dedicação, estudo e comprometimento. Exige um aprofundamento que vai além da primeira camada. E isto, infelizmente, é algo que já não espero desta gente.

Quadrinhos são um símbolo de contravenção, resistência e afronta ao establishment do conservadorismo. Um formato democrático que sempre dará espaço para que os desajustados, as minorias e os excluídos possam ser ouvidos.

Promover histórias como as referidas pela reportagem como “nicho”, ou aceitar as expressões de ódio do Comic Gate como “movimento”, é o mesmo que jogar fora oitenta e cinco anos de história.

Aos poucos, o mercado americano entende e se movimenta para diminuir os danos causados pelo ódio. E nós? Até que ponto deixaremos chegar?

Errata: atualizamos o artigo em seu terceiro parágrafo, que citava, equivocadamente, o Plano Marshall. Fora isso, o autor mantém suas opiniões. Agradecimentos ao curador do FIQ Afonso Andrade por nos apontar os equívocos.

Fábio Devito é jornalista, leitor de quadrinhos e aluno do programa de Mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO). Autor da pesquisa Jornalismo em Quadrinhos – Subvertendo a Objetividade com Arte Sequencial. Sigam-no no Twitter @devitoidc

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