[#Entrevista] A malvadeza do Carniça Quadrinhos

É sempre um prazer imenso conversar com gente querida e talentosa. É o caso do pessoal do Carniça Quadrinhos, que está pertinho de lançar sua próxima graphic novel: Canil. Conversamos com Rodrigo Ramos, que já colaborou para o Terra Zero, e seu amigo e parceiro Marcel Bartholo para falarmos de quadrinhos de terror, a fundação do Carniça Quadrinhos e o que vem por aí.


Primeiramente, o que os levaram a fazer quadrinhos de terror, mais especificamente?

Rodrigo: Eu sou fã de filmes de terror desde moleque, mas nunca curti muito HQs de terror até descobrir a Vertigo, lá nos anos 90. Aquilo ali mudou minha percepção de quadrinhos e suas possibilidades. Com o tempo me tornei crítico e pesquisador do gênero nas HQs, escrevendo sobre quadrinhos pro Boca do Inferno por quase dez anos e foi onde conheci muita gente do meio, incluindo o Marcel, e isso acabou sendo um caminho quase que lógico entre o fã e o autor.

Marcel: Bom, eu sempre gostei de filmes e livros de terror e ficção… Monstros sempre me fascinaram. Quando comecei a minha vida profissional com o desenho, basicamente fazendo ilustrações fofas para livros infantis e didáticos, ou caricaturas, não conseguia pôr em prática exatamente tudo que eu gostava de desenhar, daí quando pude finalmente me dedicar aos quadrinhos autorais foi uma escolha natural o terror. Insubstituível, minha primeira HQ, é justamente fruto de vários anos jogando RPG e a vindoura parceria com Rodrigo veio para consolidar esse caminho criativo.

Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo do Carniça Quadrinhos na CCXP 2018.
Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo do Carniça Quadrinhos na CCXP 2018.

Carniça mostrou uma voz poderosa no novo terror nacional em quadrinhos. Como a obra surgiu?

Rodrigo: A HQ surgiu como uma ideia pra uma coletânea. O objetivo era trazer o Edgar Allan Poe para o Brasil, traduzindo seus principais temas para uma linguagem totalmente brasileira. Peguei todo aquele clima de pesar, saudade e arrependimento que permeia a obra do Poe e percebi que se encaixava perfeitamente na lenda do corpo-seco, um cara que era tão ruim que quando morreu nem o céu nem o inferno quiseram saber dele, sendo condenado a vagar pelo mundo como uma espécie de zumbi.

Eu havia ficado próximo do Marcel através do Boca e sempre conversávamos sobre quadrinhos, cinema e horror em geral. Resolvi mostrar minha ideia pra ele e ele se ofereceu pra trabalharmos juntos. A HQ acabou não entrando na coletânea e lançamos de maneira independente, com uma boa recepção do público. Ali o nosso trabalho já mostrava todas as características que optamos por manter nas nossas próximas parcerias, uma pegada bastante regional, misturando lendas brasileiras, problemas brasileiros e uma pitada de crítica social, sempre presente nas boas histórias de horror.

Marcel: Como Rodrigo já disse, Carniça nasceu de forma muito natural… Eu gostei da ideia, Rodrigo gostava do meu trabalho anterior em Insubstituível e resolvemos juntar as forças. Gosto muito do resultado, pude experimentar alguns caminhos novos para mim e sinto que conseguimos colocar muita força em tão poucas páginas!

Capa de Carniça por Marcel Bartholo.
Capa de Carniça por Marcel Bartholo.

Em seguida tivemos Lama, novamente feito por vocês dois. Houve alguma influência de Carniça nele?

Rodrigo: Uma das características do nosso trabalho juntos é tentar sempre fazer algo novo a cada quadrinho. Carniça era uma narrativa mais curta e crua, então em Lama optamos por fazer um roteiro um pouco mais longo, com mais personagens e uma história com mais páginas. E eu também queria falar muita coisa em Lama. Tem muita coisa que estava entalada na garganta nessa HQ. Mas acho que a principal influência de Carniça em Lama é a evolução do trabalho. Os feedbacks e a nossa própria visão do primeiro, certamente move o segundo para outra direção. Isso é fundamental no trabalho de qualquer um. Entender os pontos de melhoria e trabalhá-los, ao mesmo tempo em que entende o que deu certo e tenta potencializar isso. Além de uma referência clara ao nosso símbolo, o urubu, que faz uma ponta e acabou gerando um elemento em comum no nosso universo. Sempre que um urubu aparecer em uma obra do Carniça Quadrinhos, é mau sinal.

Marcel: Os desenhos de Lama seguem um caminho diferente, o álbum foi feito na sequencia do meu trabalho em O Santo Sangue, do roteirista Laudo Ferreira, trabalho onde eu busquei uma estilização de personagens ainda mais exagerada. Lama se tornou uma experiência muito importante para mim… Fazer toda a arte em lápis, nanquim e marcadores de tons de cinzas, era algo cru, orgânico e de certa forma vulnerável… Achei pertinente para a história. A estilização dos personagens me ajuda a deixar o terror mais expressivo. É uma história triste… praticamente um funeral. Alguns meses depois do seu lançamento a Realidade veio e nos deu um golpe terrível… repetindo o inimaginável em Brumadinho. Isso mexeu demais comigo, e tenho certeza que com Rodrigo também.

Capa de Lama por Marcel Bartholo.
Capa de Lama por Marcel Bartholo.

Com muitos outros autores e artistas, vocês fazem parte da antologia de terror VHS, recentemente financiada no Catarse. Aliás, Rodrigo, você e Fernando Barone capitanearam a iniciativa. Como ela aconteceu, e qual a diferença, para vocês, entre participar de uma antologia e fazerem seus próprios quadrinhos?

Rodrigo: Há algum tempo eu e mais alguns quadrinistas de horror tivemos essa ideia de criar uma espécie de coletivo para publicar histórias em uma grande antologia que traria histórias inéditas e seria uma oportunidade de todo mundo trabalhar junto. Durante a CCXP 2018, nós conversamos bastante sobre isso e a ideia acabou tomando a forma da VHS. O Barone se ofereceu para trazer sua experiência como editor pro projeto e a coletânea foi tomando forma.

Começamos com alguns convites, depois um pequeno edital chamando a galera pra fazer parte e o projeto culminou em uma campanha de sucesso no Catarse, em que arrecadamos 145% do valor, batendo todas as metas estendidas. Acho que a diferença principal, pra mim que nem sou tão experiente nos quadrinhos assim, é o tema. Quando estou criando um projeto mais pessoal, isso acaba abrindo demais as possibilidades, que quase sempre gera alguma dificuldade. Quando temos um tema definido para uma coletânea, que no caso da VHS era homenagear o cinema de horror dos anos 80 e 90, a criação é muito mais tranquila. É um job onde temos prazo pra entrega, número de páginas e um tema definidos.

Marcel: VHS foi um grande prazer. Eu basicamente só havia pedido para fazer uma história com menos de 20 páginas e trabalhar com outro roteirista que não fosse o Rodrigo (risos). Era importante que a HQ gerasse novas duplas criativas. A dinâmica foi bem tranquila e o material ficou muito legal! Fiquei muito feliz com o sucesso da campanha de financiamento coletivo. O roteiro que ilustrei é do escritor Hedjan Costa, craque dos contos de terror, fazendo sua estreia nos quadrinhos.

Capa de VHS por Dudu Torres.
Capa de VHS por Dudu Torres.

Vocês diriam que seus trabalhos formam um universo, ainda que com personagens e histórias ligados apenas indiretamente? Existe um “Carniçaverso”?

Rodrigo: A piada com o “Carniçaverso” começou quando optei por inserir uma pequena aparição do urubu em Lama como um sinal de mau agouro, resgatando um elemento importante de Carniça. Nossas histórias se passam em um Brasil fictício, sem um lugar ou tempo específico e isso gera uma estranha unidade entre elas, mesmo sendo tão diferentes em estilo e temas. Então, pouco antes de lançarmos Lama, criamos um selo, o Carniça Quadrinhos, para publicarmos nossos trabalhos em conjunto e isso acabou evidenciando ainda mais essa identidade. O Marcel e eu também aparecemos em ambas as histórias como easter-eggs e isso foi deixando tudo cada vez mais com essa cara de universo que acabamos chamando na brincadeira de “Carniçaverso”. E a ideia pegou!

Marcel: Existe sim. É o Brasil. De ontem, de hoje e de nunca mais… Nossa realidade é tão bizarra que precisamos desses nossos “contos de fadas” para digerir melhor e criticá-la.

O mais novo trabalho de vocês é uma série de cards colecionáveis. O que vocês podem falar sobre eles? Como seus fãs podem adquiri-los?

Rodrigo: Com a recepção positiva dos nossos dois quadrinhos, começamos a pensar em produtos diferenciados para expandirmos a marca Carniça Quadrinhos e, ao mesmo tempo, trazer coisas novas para nossos leitores. Durante uma dessas conversas sobre o que fazer, surgiu a ideia da coleção de cards que chamamos de Medo Raiz. Serão cinco cards que você pode adquirir individualmente por R$ 5,00 cada, ou você leva de brinde comprando algum dos nossos títulos. Cada um dos itens da coleção traz um micro conto meu envolvendo algum mito brasileiro, com a pegada do “Carniçaverso”, e uma ilustração inédita exclusiva do Marcel. Inicialmente serão cinco cards, mas já estudamos expandir a coleção variando os temas, caso tenha uma boa recepção. Começamos com a Cuca, uma das figuras folclóricas mais emblemáticas do nosso bestiário nacional, em uma versão que é a mais assustadora que você já viu!

Marcel: Medo Raiz está começando muito bem! A ideia é experimentar diferentes temas e séries, usar como um laboratório de ideias, e para quem gosta de colecionar é um prato cheio!

Capa de Canil por Marcel Bartholo.
Capa de Canil por Marcel Bartholo.

Por fim temos Canil, a nova HQ de vocês. Sem revelar spoilers, o que pode ser dita sobre ela?

Rodrigo: Canil fala de um sujeito, filho de um político importante, que foi preso por um crime que ele não se lembra de ter cometido e acaba sendo levado para um presídio decadente onde ele será tratado como um troféu e moeda de troca pelo diretor do local. Enquanto ele se adapta à vida atrás das grades, vamos aos poucos entendendo o que aconteceu de verdade com ele na noite em que ele foi preso.

É uma história sobre uma das minhas criaturas preferidas do nosso folclore e estamos usando uma abordagem bastante diferente da convencional e que meio que encerra uma trilogia conceitual, completa por Carniça e Lama, sobre a desumanização. Cada uma dessas histórias trata deste conceito através de uma parte do homem, e isso fica claro quando se vê as capas.

Em Carniça, a culpa e a saudade são representadas na capa pelo coração, em Lama, a loucura e a mente estão representadas na capa pelo crânio, e em Canil vamos abordar essa desumanização através do corpo e das ações, por isso a mão na capa. É uma viagem que foi tomando forma aos poucos e traz uma visão do horror do meu ponto de vista sobre coisas que eu queria falar faz tempo.

Acredito que Canil seja nosso melhor trabalho até agora. A história está bem violenta e pesada e a arte do Marcel trouxe um traço e cores diferentes para representar isso tudo com bastante precisão.

Marcel: Canil está sendo um baita desafio, estou fazendo ele todo na pintura digital, usando grafismos bem expressionistas, seguindo uma evolução do meu traço das HQs O Santo Sangue e A Necromante, mas devo confessar que estou ficando bem orgulhoso do resultado das páginas. Nós queríamos fazer uma história mais simples, e muito visceral… Esperamos que gostem. Será lançada primeiramente com venda online em meu site, http://www.marcelbartholo.com e ao longo do ano que vem faremos lançamentos presenciais e participação em feiras.

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