Pôster de divulgação do filme Watchmen, de 2009.

[#Watchmen] A influência do 11 de setembro em Watchmen

A chegada da série de TV de Watchmen, cujo primeiro episódio foi exibido na noite de ontem pela HBO, automaticamente nos faz pensar no filme produzido 10 anos atrás, dirigido por Zack Snyder. Como sabemos, o diretor, com os roteiristas David Hayter e Alex Tse, optaram por mudar o final.

Para quem não se lembra, no filme, Ozymandias manobra a confiança do Dr. Manhattan, fazendo-lhe criar uma espécie “limpa” de reator nuclear, apenas para detoná-lo em diversas capitais mundiais, matando milhões de pessoas. Com o objetivo nobre de usar a tragédia para unir as pessoas e trazer alguma paz ao mundo, mas provando-se um genocida sem precedentes, Ozymandias faz, no filme, algo completamente diferente dos quadrinhos, transformando o Dr. Manhattan no culpado pela tragédia mundial, fazendo-o ir embora da Terra, a caminho de outra galáxia.

À época, Snyder disse que o filme ficaria mais “elegante” com este final. Mas não é exatamente o que Hayter tinha em mente quando alterou o final com Tse.

Arte divulgadora de Watchmen, o filme.
Arte divulgadora de Watchmen, o filme.

Em uma matéria esquecida do site de cultura pop io9, publicada perto do lançamento do filme, Hayter foi entrevistado e deu diversos detalhes sobre as escolhas dos responsáveis pelo filme. Especialmente sobre o final e o que realmente o influenciou. Confiram:

io9: Quando o final foi alterado e quem foi o responsável?

Hayter: Fui eu. Eu estava sozinho, Zack Snyder não estava envolvido. [Quando eu estava trabalhando no roteiro] toda a pressão estava focada em mim. “Seis personagens principais. Dá pra diminuir pra um? Dá pra cortar os flashbacks? Não gostamos de toda a história”. E eu ficava… [risos incrédulos]. O que eu sempre dizia era: “Sim, posso escrever esse filme, mas será diferente e vocês terão que me pagar de novo”. E eles não queriam fazer isso.

Eu entendi o final da HQ, [mas] existem algumas questões quando estamos falando cinema. Estou sempre ciente do fato de que, quando você está lidando com o estúdio e está pedindo a eles que paguem mais de 100 milhões de dólares, é algo grande. Você não pode simplesmente dizer: “Eu sou um artista e é isso aí”. Você nunca vai trabalhar. Esta não é uma maneira inteligente de fazer filmes.

O final do quadrinho mostra apenas pilhas de cadáveres, ensanguentados no meio da Times Square, pessoas penduradas nas janelas, abatimentos em grande escala. Fazer isso em uma história em quadrinhos e lançá-la em 1985 é diferente de fazer na vida real, em um filme, e ver todas essas pessoas brutalmente massacradas no meio da Times Square após 2001. Esta foi uma preocupação legítima, da qual eu compartilhei.

As pessoas mortas no fim de Watchmen.
As pessoas mortas no fim de Watchmen.

Se você está fazendo um filme com US$ 40 milhões, beleza – corpos por toda parte. E isso é bom, é um filme de nicho, apenas os fãs hardcore iriam vê-lo. Mas se você está fazendo isso em grande escala, acho que não… Eu entendi por que eles ficaram preocupados.

Então o estúdio tinha reservas quanto ao final, por causa do 11 de Setembro e porque as pessoas não estariam prontas para isso. Mas você não estava preocupado em mudar o final, como alguém que ama a graphic novel?

Bem, não, porque o que eu fiz, do jeito que eu me convenci – e eu realmente não sei como ficou, porque só vi uma parte do filme, sem todo os efeitos no final – mas o que eu fiz foi dizer: “E se todos eles fossem soprados como as sombras de Hiroshima, algo que já está na HQ?”

Então dá pra ver a morte em grande escala, você vê todas as partículas flutuando no ar, mas não é tão feio. É quase bonito, em sua própria forma. Esta destruição é feita de uma maneira artística, e também é alimentada pelos temas da HQ.

Eu gostaria de ter visto a lula. Eu adoraria ter visto exatamente do jeito que estava no quadrinho – mas também senti a mesma dor que todo mundo vivia aqui quando [o 11 de Setembro] ocorreu. Meus primeiros anos trabalhando [no roteiro] foram de 2000 a 2005 [e o 11 de Setembro ficou muito mais fresco na cabeça das pessoas neste período]. Portanto, não foram apenas os estúdios. Isso foi algo que eu fiz sem ter que ser pressionado.

A lula alienígena no final de Watchmen (HQ). Arte de Dave Gibbons.
A lula alienígena no final de Watchmen (HQ). Arte de Dave Gibbons.

Dave Gibbons, desenhista da HQ, também falou ao io9 na época:

Você desenhou esses painéis cheios de carnificina e ruas sangrentas, e eles não estão no filme. Como você se sentiu, como artista, por não conseguir ver a destruição real?

(…) Eu acho que as consequências da violência devem ser exibidas graficamente, apenas para mostrar que a violência é desagradável. Não é só um pouco de sangue, em que se coloca um curativo e você fica melhor. Sabe que eu não vi o corte final do filme, a versão que vi no final não estava terminada, então não sei exatamente o que teremos lá, mas minha lembrança foi: recebi um senso dessa destruição por atacado.

Suponho que você também tenha que dizer que, de certa forma, depois do 11 de Setembro, é uma área muito delicada. Então eu acho que isso pode modificar o final.


Levando-se em conta toda a violência que o filme tem naturalmente, muito antes do final, parece uma desculpa esfarrapada, a princípio. Porém, não estávamos lá quando as torres caíram e sequer podemos imaginar tamanho horror. Por outro lado, o pessoal envolvido, especialmente Hayter, deveria ter pensado em um final que não colocasse a responsabilidade toda nas costas do Dr. Manhattan. Afinal, apesar de ter se tornado um meta-humano (o único) de reconhecimento e ação mundial, ele ainda era visto como uma “arma americana”. Logo, era uma questão de tempo curtíssimo até que os dedos começassem a ser apontados para os Estados Unidos. Quando a ameaça vem de outro planeta, fica difícil apontar o dedo para um único governo.

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