[#Joker] Sobre Coringa, Incels e o medo das pessoas

Coringa: vamos falar sobre as polêmicas do filme. E atenção: há spoilers neste artigo!

Agora que Coringa estreou podemos falar abertamente sobre alguns elementos que tem causado controvérsia entre o público e a crítica. O principal deles é uma suposta glorificação do vilao e da cultura incel, infelizmente muito popular na internet. Já adianto aqui que não devo ter visto o mesmo filme que estas pessoas, pois apesar da presença de elementos incel, não senti que o protagonista é glorificado. Ao contrário, ele é resultado de uma sociedade suja, que favorece ricos e oprime pessoas como ele, mas que não o inocenta de suas ações mais vis.

Quando Arthur Fleck finalmente começa a se vingar da sociedade que lhe fez mal desde criança, cria-se a impressão de que ele está apenas fazendo justiça em nome de todos aqueles que sofrem bullying, que são excluídos da maioria por sua natureza incomum. Não é verdade. Não há momentos em Coringa sem o personagem de Joaquin Phoenix aparecer. E, em muitos momentos, a narrativa acontece sob seu ponto de vista dos eventos. Quando finalmente notamos a diferença entre a realidade e o que acontece apenas dentro da cabeça do protagonista, somos arrebatados pela situação trágica do sujeito.

Joaquin Phoenix arrebenta como Coringa em filme homônimo.
Joaquin Phoenix arrebenta como Coringa em filme homônimo.

Coringa mostra uma Gotham City que muitas pessoas conhecem em países colonizados. Como o Brasil. Quando assistimos a um filme que retrata uma cidade em que diversos serviços públicos estão de greve, em que a saúde básica e outras necessidades da sociedade são negligenciadas apenas para que a burguesia fique ainda mais rica e se divirta vendo o vagabundo de Tempos Modernos (uma metáfora muito bem aplicada no filme, aliás), é inevitável relacionar estes eventos à nossa própria realidade. Contudo, apesar de tudo isso colaborar para Arthur Fleck abrir suas asas e revelar-se um monstro, apoiar-se nos revezes da vida dele para justificar suas ações no terceiro ato, como o assassinato de Murray, da psicóloga e do sorriso final, feito com o sangue da barbárie.

Fleck já sofria de diversos problemas antes, vivendo uma relação bizarra com a mãe, que assemelha-se muito à de Norman Bates, do filme Psicose, que, mais tarde no filme, descobrimos ter sido ainda mais problemática, com abusos da parte dela e de ex-namorados violentos.

Note se a devida atenção não for prestada no que acontece na mente de Arthur Fleck, fica muito fácil assumir sua violência e brutalidade como uma justificativa pobre à opressão do governo e da sociedade. Não é o caso. É mostrado no filme que Fleck sempre foi problemático e, já adulto, suas escolhas são apenas suas. Ninguém puxou o gatilho por ele. Podemos comprovar isto com as próprias cenas do filme. E sobre a ovação generalizada do público no terceiro ator, não se enganem: a mensagem do filme não é a glorificação de um vilao, mas sim o aplauso geral a um líder populista que se coloca fora do establishment. Em português claro? É a galera que elegeu o Bolsonaro.

O homem que abre os braços e se contorcer como se estivesse alçando o primeiro voo de sua vida se fez matando pessoas. Isto é repetido quando Fleck entra no palco do programa de Murray. É possível que ele quisesse se matar ali também, uma teoria que tem circulado bastante entre quem já viu o filme. Mas fosse ele, Murray ou algum dos convidados, era certo que alguém ia morrer. Isso sem contar a relação psicótica dele com a personagem Sophie Dumond. O espectador é surpreendido quando nota que todos os encontros deles foram fantasias da cabeça dele, que ela tem tanto medo de Arthur Fleck quanto qualquer um de nós.

Pôster de Coringa, exaltando o filme com recortes jornalísticos.
Pôster de Coringa, exaltando o filme com recortes jornalísticos.

É verdade que o desprezo dele pelas mulheres, mostrado principalmente com a mãe depois de algumas verdades serem reveladas, nos causa ainda mais asco que outros de seus assassinatos. Então sim, podemos – e devemos – falar de misoginia e feminicídio, mas cultura incel? Não se aplica. Basta ver a definição do termo e sua origem para notar que as acoes do Coringa possuem outros motivadores (https://pt.wikipedia.org/wiki/Incel).

Naturalmente, temos muito medo de pessoas como ele, assim como tememos pelo futuro da sociedade atual, que não esconde mais seus preconceitos e fecha-se cada vez mais em comunidades de ódio a determinados grupos. O Coringa, porém, representa ódio a muita coisa, causando-o inclusive na gente, por suas atitudes e pelo sistema em que ele é obrigado a viver. Nunca vimos um Thomas Wayne tao escroto e tao próximo da realidade de um milionário com nome feito em uma cidade. Poderíamos chamá-lo de Thomas Dória, se quiséssemos. Isso se aplica.

Apesar de tudo que vem acontecendo, o filme conseguiu uma coisa importante: gerar debate. Podemos debater as acoes deste homem perdido e errado, bem como sua criação deplorável e as acoes podres da política e da sociedade. Um sistema fodido pode gerar um ciclo infinito de violência. Uma pessoa malcuidada a vida toda pode se tornar uma aberração. Mas não se enganem: entre possibilidades e acoes, responsável e doente é aquele que puxa o gatilho e toma prazer na coisa.

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