[#Review] Tina – Respeito e a perseverança sobre a crueldade da realidade

Tina – Respeito, de Fefê Torquato,
eleva o nível das Graphic MSP!

Mais uma Graphic MSP chegou às bancas e lojas brasileiras e, assim como aconteceu com Jeremias – Pele, outra obra relevante para nossos tempos acaba de ser publicada. Tina – Respeito trata não apenas da necessidade de haver respeito igualitário entre gêneros em qualquer situação, mas também da coragem e perseverança para enfrentar a crueldade da sociedade, ainda hierarquizada pelo secular sistema patriarcal.

Nesta história, de Fefê Torquato, a catarinense aplica a protagonista a situações cotidianas o tempo todo, algumas pelas quais ela certamente passa aqui no mundo real apenas por ser mulher. Tina é uma jornalista e consegue emprego em uma importante redação do país. Saiu da casa dos pais, está vivendo por conta. Contudo, como acontece na maioria das empresas, ela logo percebe que, para manter sua carreira, deverá fazer silêncio e vista grossa para os abusos que ela e suas colegas sofrem.

Os medos e questões que Fefê Torquato inserem na personagem são mundanos e universais, aumentados sob a lente do sofrimento diário de ser questionada, pelo simples fato de ser mulher. Quando ela começa a oferecer resistência às situações descabidas a que é colocada por seus superiores, quando abre suas asas e busca a merecida liberdade, vemos o que a personagem realmente tem potencial para fazer: buscar Respeito, com “R” maiúsculo mesmo.

Capa de Tine - Respeito por Fefê Torquato.
Capa de Tine – Respeito por Fefê Torquato.

Para mim, a cena mais emblemática (e nostálgica) não foi o clímax da HQ, mas sim um momento em que Tina, Pipa e Rolo se encontram para comer. Antes que Rolo chegue, as duas fazem seus pedidos e o garçom, típico homem escroto, fala que “as mulheres têm que comer mesmo, que homem gosta de mulher com curvas”, ao que Pipa responde de forma irônica e arrebatadora: “Moço, sua opinião está no cardápio? Não lembro de tê-la visto”. E Tina confirma que não, a opinião não está no cardápio. É uma forma fantástica de lidar com este tipo de cara – você derruba o sujeito sem ser mal-educado e passando uma mensagem clara: “Não faça isso de novo. Consegue entender que está errado?”.

Falando no trio de amigos, Fefê não apenas trouxe estes amados personagens em dos melhores momentos da HQ como também fez das novas amizades de Tina um retrato na nossa sociedade. São mulheres resolvidas, gente que lutou para buscar seu lugar ao sol e que não pretende parar. São negras, héteros, homossexuais e todo tipo de pessoa, tratadas com a naturalidade que merecem: a igualdade de ser humano. Outro momento interessantíssimo do quadrinho reforça isto, que é quando Tina visita a casa de sua nova amiga Kátia. Discute-se sexualidade, o papel do feminino imposto pelo masculino, o medo de andar sozinha nas ruas etc. É um retrato do dia a dia feminino, especialmente nas cidades grandes.

 

Artisticamente a HQ é muito bonita. O traço e o jogo de cores da autora parecem ser influenciados por animações recentes, como She-Ra e Carmen Sandiego. É notável também a influência de Noelle Stevenson, quadrinista e cartunista conhecida por seu trabalho em Lumberjanes.

Tina – Respeito, com o perdão do trocadilho, deixa a marca Graphic MSP ainda mais respeitosa em nosso meio, mantendo alto nível artístico e de relevância. Fefê Torquato acaba de colocar seu nome entre os melhores de sua geração e mal podemos esperar por seus novos trabalhos.,

PS: Os easter-eggs com a versão original da Tina e o disco Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, ficaram maravilhosos!


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Tina – Respeito
Roteiro e Arte: Fefê Torquato
Páginas: 96
Publicação: Panini (Agosto/Setembro de 2019)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): R$ 31,90 / (dura) R$ 41,90

Jornalista recém-formada, Tina finalmente realiza o sonho de trabalhar em uma redação. Ela só não esperava que seu maior desafio fosse ser pessoal, e não profissional. Em Respeito, Fefê Torquato usa a clássica personagem de Mauricio de Sousa para expor um problema que mulheres enfrentam dia a dia, e precisa acabar: o assédio.

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