[#Review] Nós vimos: Coringa, de Todd Phillips [sem spoilers]

Longe de ser a melhor adaptação de quadrinhos da história, e ainda mais distante de ser o completo desastre que muitos torcem para que seja, apenas pelo prazer de apedrejar a Warner Bros., Coringa está em algum lugar entre a distância destes dois polos. Isto porque o filme de Todd Phillips, estrelado por Joaquin Phoenix, sequer adapta quadrinhos propriamente ditos. Ele se apropria de conceitos mínimos que formam imagem e comportamento do Palhaço para construir um drama “scorsesiano” que remete diretamente aos melhores momentos de Taxi Driver – Motorista de Táxi (1976) e Rei da Comédia (1982).

Tamanha influência ajuda muito na montagem do filme, que coloca o espectador logo de cara na Gotham City de 1981, retratada no filme com a mesma cara de Nova York nesta época. Uma metrópole suja, jogada aos ratos e com uma série de crises públicas que estão gerando greves gerais. Neste cenário apavorante, Arthur Fleck (Phoenix) busca uma carreira de comediante, enquanto sustenta um subemprego como palhaço em situações bem difíceis – e com um salário minúsculo. Ao ser abusado de diversas formas por rir em momentos inadequados e tentar levar alguma alegria, ele começa a entrar em um processo de transformação de personalidade que vimos no trailer: a criação do Coringa. Seu ato, sua persona de comediante profissional. Vimos tudo isso nos trailers, ainda que os eventos aconteçam de forma diferente no filme.

Pôster de Coringa, exaltando o filme com recortes jornalísticos.
Pôster de Coringa, exaltando o filme com recortes jornalísticos.

Os primeiros atos de Arthur como palhaço provocam reações em Gotham que refletem nosso mundo profundamente. E é aí que o filme fica realmente interessante.

Coringa lida com diversos temas sociopolíticos, como os efeitos da violência urbana, de doenças mentais e assassinatos em massa nos Estados Unidos, assim como a chamada comunidade “incel”. Para os não familiarizados, “incel” é uma abreviação para o termo, em português, “celibato involuntário”. Esta subcultura online surgiu de um conjunto de comportamentos masculinos motivados por ressentimento, misantropia, autopiedade, vitimismo, supremacia do sexo masculino e misoginia. Segundo a Wikipédia em inglês, pelo menos quatro assassinatos em massa nos Estados Unidos ocorreram por homens relacionados, de alguma forma, à comunidade, resultando em cerca de 45 mortes.

Os temas que Phillips escolheu são muito importantes para o presente, e a forma como ele abordou cada um está sujeita a ser debatida por pessoas de todas as vertentes políticas. E, composto por tudo isto, Coringa é bad vibes; gera incomodo, asco e indigestão, tanto pelas escolhas violentas de um homem sem salvação, que abraçou a psicopatia como a emancipação de seu espírito agressivo, como pela degeneração absoluta do poder, representada, principalmente, por Thomas Wayne. Suas falas sobre a cidade e a população nos remetem diretamente às visões de nosso presidente e governadores como os de São Paulo e Rio de Janeiro.

"Com esse bafo aí num vai ter emprego, seu Coringa, taokey?"
“Com esse bafo aí num vai ter emprego, seu Coringa, taokey?”

O desprezo de Wayne pelas classes mais baixas é nítido em suas afirmações. Elas servem de lenha para a fogueira da suja guerra de classes que começa a se estabelecer em Gotham após o surgimento do Coringa, que ainda tenta visitá-lo pessoalmente em uma sessao de Tempos Modernos, de Chaplin (não poderia ser mais irônico). Fleck, cuja personalidade foi construída por décadas de desgraça e infelicidade, vivendo com uma mãe de comportamento duvidoso e mistérios traumatizantes sobre seu passado, acaba servindo à guerra da mesma forma que o milionário, mesmo que acredite estar em outro lado dela. Mesmo que seja motivado por coisas completamente diferentes – e que ele sequer entende, de fato. Não há heróis aqui, mas o Coringa é mais visceral, violento e asqueroso. Ainda que a interpretação maiúscula de Phoenix nos mostre um palhaço empático, ele é um monstro. Um psicopata. Qualquer semelhança com Tropa de Elite e o Capitão Nascimento não deve ser mera coincidência. Caso seja, não pode passar em branco pelo público. A mensagem é importante demais e precisa ser compreendida corretamente.

Após a transformação de Fleck em Coringa causar agressões a todo o sistema, o protagonista mostra que pode parecer um “herói” para a sociedade perdida de uma cidade em chamas, mas não passa de um agente maníaco do caos, um que transmite a desordem de sua mente, necessitada constantemente de aprovação. O que parecia ser um ataque contra o establishment revela-se uma desordem sem precedentes, em uma cidade que não tem mais nada a perder: a não ser a fé do povo. E, quando o povo está sem fé, fica suscetível a seguir os líderes mentirosos e populistas. Os mais baratos e baixos seres humanos. Isto fica claro em Coringa, ainda que a mensagem fique maquiada pelo humor sádico e dramaticidade quase caricata das cenas alucinantes que a atuação impecável de Phoenix gera.

Estabelecido o Coringa como tudo menos um herói para esta trama, é impossível não comentar os problemas do filme. A narrativa intrincada e as forçadas de barra para que ele tivesse “cara de filme da DC” (entenda-se: referências ao Batman que não servem de nada) diminuem a qualidade da experiência. O mesmo vale para os trailers, que parecem ter sido feito pelo mesmo pessoal responsável pelos trailers de Batman vs Superman – A Origem da Justiça. Com exceção da discussão proposta pelo longa, que não está clara nos dois trailers divulgados, o restante está lá. Até o final se torna previsível. Alguém na Warner precisa muito rever como vende seus filmes, ou as reviravoltas deles não terão nenhuma surpresa.

Há também alguns pequenos furos de roteiro que vão incomodar os mais atentos. Detalhes que indicam que, ao contrário do que estão vendendo, o filme do Coringa foi adaptado de alguma ideia que já estava engavetada no estúdio, e que acabou não tendo todas as pontas fechadas.

Coringa é um grande filme. É uma experiência difícil e incomoda, especialmente pelo momento em que vivemos. Mas suas falhas precisam sim ser apontadas, para que fique claro que Coringa, como filme, é, acima de tudo um experimento novo da DC/Warner para trabalhar suas propriedades em outras mídias de formas independentes e criativas. Por enquanto, o saldo é positivo.

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