HQ Nacional, Rancho e VHS: Trabalhando com gente talentosa

Este texto é pessoal. Agora que o Terra Zero está de volta, quero voltar a falar mais de perto com artistas nacionais e divulgar projetos e entrevistas por aqui, mas gostaria de contar um pouquinho da experiência que venho adquirindo desde o fim do ano passado.

Após anos falando de quadrinhos, resolvi fazer minhas próprias histórias. Ou melhor: fui convidado para fazê-las. Isto que foi o mais surpreendente para mim. Uma galera bacana, renomada e premiada das HQs Nacionais me convidando para fazer parte de projetos grandes, sendo que nunca tinha escrito um roteiro na vida. Estes projetos são Rancho do Corvo Dourado, uma paródia steampunk pós-apocalíptica do Sítio do Picapau Amarelo, e VHS, uma antologia de terror inspirada nos body horrors dos anos 1970/1980 que tanto fizeram nossa alegria quando íamos às locadoras.

De início foi difícil pensar em que tipo de histórias eu criaria. Mesmo com premissas claras para as duas antologias, esta era minha primeira vez criando uma narrativa dramática. Entendam que os textos que escrevo para a Terra Zero, sejam eles críticos ou simples relatos, também possuem narrativa. Eu gosto do formato “storytelling” para qualquer coisa que esteja compartilhando com outras pessoas. Mas criar diálogos e fazer com que eles contem a história é diferente.

Capa de Rancho do Corvo Dourado, por Juliano Sousa.
Capa de Rancho do Corvo Dourado, por Juliano Sousa.

De qualquer forma, comprei o desafio e tentei fazer meu melhor. Peguei inspiração em coisas como tokusatsus e os filmes A Nação do Medo (1994) e Círculo de Fogo (2013), para o Rancho, e Hellraiser e casos da vida real aqui de SP, para o VHS. Abaixo, comento um pouquinho mais sobre cada um – e, desde já, convido vocês para apoiarem, pois os projetos ficaram incríveis!

Rancho do Corvo Dourado

Nesta coletânea me junto aos talentos de Juliano Sousa, Cris Camargo, Larissa Palmieri, Beatrice Witt, Marcelo Grisa, Roberta Cirne, Pedro Ponzo, Sandro Andrade e muitos outros incríveis artistas para a criação de um Sítio do Picapau Amarelo como vocês nunca viram! Tomando como inspiração histórias steampunk e pós-apocalípticas, estamos desovando todas as nossas ideias em releituras inovadoras e divertidas de personagem amados do nosso folclore.

No meu caso foi até um pouco mais difícil, pois além de ser o novato da galera também precisei criar a história de encerramento da HQ. Como o talento incrível do Sandro se fez disponível pra gente, e seu desenho realista nos chamou a atenção por ser influenciado pelos grandes nome que trabalharam no Conan décadas atrás, decidimos acrescentar uma história. Minha segunda na antologia, já que estou com o Juliano em outra. Para mim, esta segunda foi a mais difícil, pois eu queria muito prestar algum tipo de homenagem ao Conan e seus incríveis criadores, mas me vi completamente paralisado em diversos momentos.

Apavorado pela pressão autoimposta. “Como criar uma história que justifique a trajetória do Cimério e arte incrível do Sandro?”. Com muito custo fui imaginando um cenário tao destruído que o que sobrasse para eu brincar fossem personagens determinados exclusivamente pelo pouco que lhes restou. O resto é violência, ação e o Sandro sendo foda. Mas não vou mentir: fiz várias escolhas que não funcionaram bem e, felizmente, tive excelentes editores na Cris e no Juliano para acertar diálogos e o ritmo da história. Tenho muito do que produzi com este quarteto, tanto quanto tenho da divertida história que produzi primeiramente, com o Juliano, em que o pessoal do Rancho se defende de uma invasão nazista com um robô da Emília movido a vapor \o/

Este projeto precisa muito da sua ajuda e garanto que vocês não vão se arrepender. Clique aqui para apoiá-lo!

VHS

VHS, como dizem em inglês, foi um “tipo diferente de monstro”. O grande camarada e talentoso escritor e designer Rodrigo Ramos me convidou no finzinho do ano passado para participar desta coletânea, capitaneada por ele e pelo Fernando Barone. A proposta era tao simples quanto complexa, se é que algo assim pode ser dito.

Em VHS, o objetivo de cada quadrinista ou dupla de quadrinistas é apresentar uma história que tenha alguma influência de body horror, não importando seu momento temporal ou como são os personagens.

Tive muita dificuldade de imaginar um cenário para a história. A parte do horror nem foi tao difícil, já que sou apaixonado por Hellraiser e os Cenobitas. O que deu trabalho foi pensar em algo que justificasse a existência da história e uso de demônios parecidos com eles. Foi então que algo inesperado me veio à mente.

Às vezes lembro de grandes casos brasileiros que geraram ampla cobertura da mídia, não importando se foram crimes monstruosos ou tragédias que não puderam ser evitadas. Quem acompanha a Newsletter dos Padrinhos do Terra Zero já me viu falando um bocado sobre pilotos de Fórmula 1 e a morte de Ayrton Senna, por exemplo. Seguindo esta tradição bizarra da minha mente, lembrei-me do caso Eloá, de 2008, em que a jovem, menor de idade, foi sequestrada pelo ex-namorado, Lindemberg Alves e, após dias no cativeiro, foi assassinada por ele, após uma das festas midiáticas mais asquerosas que já se viu no país.

Respeitando a família de Eloá e sua memória, fiz uma história que evocasse o sentimento de revolta da população na época, contra Alves, a mídia e o falecimento trágico de uma garota inocente. Mortes como a dela acontecem mais vezes do que imaginamos em nosso país, e não quis que elas continuassem incólumes. Não, não estou me pondo no papel de justiceiro. Só quis colocar alguns demônios pra fora e acho que consegui – ainda mais de ver as páginas espetaculares do Ricardo Carandes.

Capa de VHS por Dudu Torres.
Capa de VHS por Dudu Torres.

Tenho que dizer: nos dos projetos dei a sorte de trabalhar com gente boa demais, muito mais talentosa que eu. Aprendi muito e certamente aprenderei ainda mais com eles e com outras pessoas com quem pretendo trabalhar no futuro. Só tenho a agradecer todo mundo pela oportunidade dada, pela chance de colocar meu nomezinho lá embaixo junto com os grandes da atual cena nacional independente. E, claro, apoiem o VHS no Catarse agora, pois restam a apenas 10 dias do encerramento da campanha!

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