DC: Ciclo Eterno para Leitores com Lembranças

A frase da semana passada no grupo de Padrinhos do Terra Zero no Telegram foi: “tá foda ler gibis da DC”. Tá, houve outras frases legais, mas como fui o autor desta quero alguns biscoitos pra mim, usando uma gíria de xóvens. E a real é que está foda mesmo, na falta de um termo obsceno que seja tão claro quanto este.

Vamos fazer uma retrospectiva bem rápida? Desde que Dan DiDio entrou para a DC no começo da década passada, seu trabalho foi comandas uma série de mudanças drásticas tanto na cronologia ficcional da editora como em sua participação no mercado. É verdade que algumas de suas iniciativas ajudaram a DC a tomar a liderança da indústria, o que fez até com que a concorrência visse um aumento de vendas em seus produtos, graças ao interesse e curiosidade de pessoas que normalmente não frequentam comic-shops, mas ficaram sabendo de coisas como Novos 52 e DC Renascimento.

Isso dito, DiDio é uma pessoa controversa, com um currículo de escolhas que se provaram equivocadas, mas nas quais ele continua insistindo. Desde sua chegada, em 2002, até agora, tivemos o seguinte ciclo:

Extra! Extra! Dan DiDio é o Mal Eterno da DC?
Extra! Extra! Dan DiDio é o Mal Eterno da DC?
  • 2004: Volta de herói da Era de Prata (Hal Jordan)
  • 2005: Uma Crise
  • 2005/2006: Asa Noturna é posto de lado e vira “vilão” por um período
  • 2006/2007: Uma HQ semanal (52)
  • 2007/2008: Uma nova HQ semanal (Contagem Regressiva)
  • 2008/2009: Outra Crise (Crise Final, com tentativa de reboot total, barrado por Paul Levitz)
  • 2007/2010: Superman teve um filho aprendemos a gostar, cresceu rápido e virou um problema
  • 2008: Asa Noturna volta [1]
  • 2008/2009: Volta de herói da Era de Prata (Barry Allen)
  • 2009: Influência de DiDio sobre os altos cargos, tirando Levitz da jogada e assumindo um posto mais alto
  • 200x/2010: Sucateamento e encerramento da WildStorm
  • 2009/2010: Outra HQ semanal (Trindade)
  • 2009: Mês dos Vilões
  • 2011: Uma Crise com outro nome (Flashpoint)
  • 2011: Reboot geral: Novos 52
  • 2012: Outra Crise com outro nome (Trinity War)
  • 2012: Novas HQs de Watchmen (Before Watchmen)
  • 2013: Outro Mês dos Vilões
  • 2013/2014: Asa Noturna vira vilao (de novo). “Morre”. Volta. Vira agente secreto
  • 2014/2015: Superman tem sua identidade revelada
  • 2016: Reboot parcial: DC Renascimento
  • 2016: Asa Noturna volta [2]
  • 2017/2019: Novas HQs de Watchmen (Doomsday Clock)
  • 2016/2019: Superman tem um filho (agora biológico), que cresceu rápido e virou um problema
  • 2018: Com saída de Diane Nelson e Geoff Johns, influencia de DiDio o deixa a cargo de toda a DC, abaixo apenas da presidência
  • 200x/2019: Sucateamento e encerramento da Vertigo
  • 2019: Ano dos Vilões
  • 2019: Superman terá sua identidade revelada (de novo)
  • 2019: Asa Noturna se tornou… qualquer coisa que ele seja hoje

Como vocês podem ver, DiDio colocou em prática quase todas as ideias que teve até agora – e nem citamos as idas e vindas de Wally West, provavelmente a maior controvérsia na carreira de DiDio dentro da editora. Quando o entrevistamos em 2015, na CCXP, tivemos a confirmação de algo que já desconfiávamos: ele é muito apaixonado pelo que faz, é verdade. Dan DiDio AMA a DC, seus quadrinhos e seus personagens. Contudo, suas decisões editoriais e mercadológicas não condizem mais com o período que estamos vivendo, a necessidade do leitor e as essências de alguns personagens.

Screen de nosso papo com DiDio na CCXP 2015.
Screen de nosso papo com DiDio na CCXP 2015.

É natural que convivamos com períodos cíclicos quando falamos de universos ficcionais cuja produção é industrial e precisa, obrigatoriamente, estar sempre alinhada. Já falamos em alguns ComicPods que os ciclos são supernaturais em gibis de super-heróis, e não há problema nenhum e continuar acompanhando todos eles até você não querer mais. O problema dos últimos anos é que estamos diante de ciclos promovidos por uma pessoa e subalternos próximos a ele, que acabam aceitando trabalhar com as mesmas ideias dos últimos anos – sejam eles profissionais novos ou antigos na casa.

Há gibis bons saindo? Sim, claro. Sempre há. No Brasil temos a nova fase do Lanterna Verde Hal Jordan, comandada por Grant Morrison e Liam Sharp, além da divertidíssima Shazam!, de Geoff Johns, o ótimo encontro entre DC e Hanna-Barbera e o superespecial Mulher-Maravilha/Liga da Justiça Dark.

Lá fora o Aquaman de Kelly Sue DeConnick e do brasileiro Robson Rocha continua indo bem, assim como alguns dos spin-offs do Sandman original que acabaram de chegar no Brasil e o Exterminador de Christopher Priest.

DC e Hanna-Barbera na arte de Ariel Olivetti.
DC e Hanna-Barbera na arte de Ariel Olivetti.

O problema é que o high-profile da editora não está legal e os ciclos que citamos aqui atrapalham muito. O fã de quadrinhos quer consumir quadrinhos. Bons quadrinhos. E se a DC – ou DiDio – não se reinventar, ela ficará fadada a estar para sempre no segundo lugar e ter gente insatisfeita com seus produtos. Todo ciclo vicioso tem um fim, por bem ou por mal. Como será o fim deste?

PS 1: Sobre o final da WildStorm, há um texto no Terra Zero que publiquei em 2010, quando o selo já estava praticamente morto – o que foi oficializado no ano seguinte, quando os Novos 52 uniram os universos

PS 2: Em uma das nossas lives, que acontecem semanalmente no canal do YouTube do ComicPod, falamos sobre o recente encerramento da linha Vertigo também, com a participação do editor Fernando “Oggh” Denardin

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