Crivella, a treta toda da Bienal e a Cruzada das Crianças

É inevitável: precisamos falar de Marcelo Crivella, Vingadores e o futuro.

Tomando uma cerveja com uma amiga semanas atrás, falava de como, em 2019, parece pairar sobre nós uma “energia negativa”. Testemunhamos, não necessariamente nesta ordem, a morte do jornalista Ricardo Boechat, do músico Andre Matos, o desmatamento pecaminoso da Amazônia e uma guerra entre as chamadas pós-verdades e mentiras descaradas que muitas vezes estão ligadas aos egos e interesses das “celebridades” que as espalham. É o famoso “tá foda!”.

Em meio a este furacão de loucuras, fomos atingidos com um golpe bem dado no último final de semana: Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, lançou um vídeo em sua conta oficial no Twitter pedindo, no português claro, um boicote à Vingadores – A Cruzada das Crianças. Nele, há uma cena em que dois jovens super-heróis gays se beijam. O boicote, segundo ele, foi motivado por motivos religiosos e morais, e a conclamação de Crivella, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, foi para que a população não comprasse o gibi na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Mas o tiro saiu pela culatra.

Capa de Cruzada das Crianças, da Salvat, o gibi que incomodou Crivella.
Capa de Cruzada das Crianças, da Salvat, o gibi que incomodou Crivella.

O público começou a comprar a HQ desesperadamente. E tirou aquele sarro do prefeito nas redes sociais – inclusive este que vos falar. Crivella, como um típico bully autoritário, mandou fiscais para checarem – e, se necessário, confiscarem – material LGBTQ+ na feira. O bicho pegou.

Enquanto a Gestapo de meia-tigela executava a ação, pedindo para que vendedores cobrissem o material com saco preto e um aviso de +18 com a desculpa de “material pornográfico”, o youtuber Felipe Neto comprou a briga e adquiriu mais de 14 mil exemplares de gibis e livros de temática LGBTQ+ para serem distribuídos gratuitamente na feira. E quer mais? Um telejornal da Rede Globo fez uma matéria no sábado listando coisas que o prefeito carica deveria realmente se preocupar. Quem diria?

O que Crivella fez foi dar mais sustento à política atual brasileira, que também tem sua própria cruzada: a de eliminar o pensamento livre, censurar obras de arte, impedir que as pessoas tenham contato com pluralidade cultural, etc. Pense bem: é isto que você quer? Veja que não estamos questionando fé aqui. Nem tem por quê. A questão é a guerra cultural, a opressão do ignorante sobre os famintos pelo conhecimento.

Arte de Jim Cheung.
Arte de Jim Cheung.

Desta vez deu certo, no fim. Felipe Neto fez uma coisa impressionante, independente de ser como ele é – particularmente, não tenho lá muita simpatia pelo sujeito, mas foi uma atitude e tanto. Será que se cada um de nós fizer um pedacinho não conseguimos mudar alguma coisa? Não estou falando de arrumar treta gratuitamente, mas sim de fazer exemplo para que os intolerantes sejam quebrados apenas com argumentação.

Esses dias, meu chefe estava me falando sobre comunicação não violenta. No começo fiquei pensando sobre a necessidade daquilo. A gente que gosta demais de super-heróis, às vezes esquece que não se resolve tudo na porrada ou na gritaria. Ok, quando o velho da Virgínia vira e fala que os Beatles são uma farsa satanista, dá muita vontade de enchê-lo de porrada. Mas, diabos, é só um velho estúpido falando merda. Ele vai bater as botas em breve. Nossa preocupação tem que ser com quem está aqui, com poder na mão ou não, disseminando o que existe de pior e mais retrógrado entre nós, para que possamos manter nossa própria cruzada de educar e mostrar as pessoas que não tem problema nenhum dois adolescentes de mesmo sexo se beijarem. É só amor. E a vida segue.

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