[#Review] A jornada em Her Infernal Descent

Um vaso de flores. Uma planta. Para muitos, apenas uma peça de decoração, um adorno. Para outros, uma representatividade metafórica da responsabilidade, da saúde (física e mental), do carinho, do cuidado e do amor. Não é por coincidência que a dupla Lonnie Nadler e Zac Thompson e o artista Kyle Charles decidem iniciar a primeira página da primeira edição de Her Infernal Descent, da Aftershock Comics, dessa maneira.

Página de Her Infernal Descent #1, por Kyle Charles e Dee Cunniffe

Os roteiristas do arco final do gibi do Cable (2017-2018) trazem a esse trabalho autoral alguns temas já apresentados no título da Marvel, porém, com a liberdade que uma editora independente traz e, consequentemente, uma história inteiramente sua traz a culpa, a morte e a família deixam de ser apenas palavras pinceladas e se tornam os alicerces do quadrinho.

A história acompanha uma mulher que perdeu o marido e os filhos de uma forma trágica. Não sabemos se foi há muito ou pouco tempo. Uma perda pode significar uma vastidão de coisas. Como você se sentirá, vai depender de uma imensidão de fatores. Nada é certo, nada é errado. Mas, ao mesmo tempo, tudo é vazio. A casa, os atos, seu corpo, sua mente, a casa. Nossa protagonista, que fica inominada até a terceira edição, não sente a passagem de tempo propriamente. Ela sente que o chão, as paredes e o teto da residência a engolem aos poucos.

Página de Her Infernal Descent #1, por Kyle Charles e Dee Cunniffe

Ao longo da edição é sugerido que ela está de mudança, porém nada estabelece algo certo sobre isso. A protagonista empacota objetos e memórias de maneira necessária, mas sem vontade. Ela não quer abandonar tudo o que a envolve, mesmo que a esteja consumindo.

A virada na trama é algo repentino, mas não a ponto de ser desagradável. Antes disso parece que havia um eterno adiamento dos acontecimentos, em que afundávamos com a protagonista em seus pensamentos. Após a aparição do fantasma do poeta e pintor inglês William Blake é que a verdadeira jornada começa. E começa com uma oferta, a protagonista deve atravessar os nove círculos do inferno para encontrar e unir sua família novamente.

Página de Her Infernal Descent #1, por Kyle Charles e Dee Cunniffe

Ela, (não-tão) estranhamente, apresenta uma apatia à Blake e tudo o que está acontecendo. Em nenhum momento a protagonista questiona a real natureza de sua jornada ou tudo o que acontece durante ela. Até alcançar de fato os portões do primeiro círculo, o Limbo. Lá nossa protagonista precisa passar pela praia dos desamparados, almas anônimas sem lugar definitivo no inferno. Caronte, contra sua vontade inicial, leva ela e Blake ao lar de virtuosos pagãos, como Jimi Hendrix, Virginia Woolfe e Leonard Cohen. O limbo é onde o ego morre, onde Platão, Ovídio, Homero e Pitágoras se tornam insignificantes. Onde todo o castelo da ciência humana se torna apenas mais um obstáculo.

Após o limbo, tudo o que resta é o abismo e o vale dos ventos. Onde a luxúria domina e os pecados serão julgados pela eternidade. Talvez, uma forma de nossa protagonista encontrar sua família.

Nesta primeira edição nos é mostrado um lado poético da morte, não apenas pela companhia de Blake (que não deixa de rimar mesmo quando não consegue), mas pela estranha beleza que há em não existir. O desconhecido, o “para onde vamos?” é o que move a protagonista por sua jornada. É claro como Thompson, Nadler e Charles querem dizer abertamente que Her Infernal Descent é uma história sobre depressão, cada capítulo é nomeado de acordo com uma das comuns fases da doença, sendo o primeiro a Negação.

Página de Her Infernal Descent #1, por Kyle Charles e Dee Cunniffe

A arte de Kyle Charles e as cores de Dee Cunniffe nos conduzem de forma sublime e precisa. Normalmente transitando entre páginas com largos quadros, utilizados como planos de estabelecimento para contexto ou, em outros casos, planos de detalhe e páginas com grades de nove quadros, que ritmam a narrativa de uma forma mais similar à Watchmen do que à Mister Miracle, alternando sujeitos e usando da alternância como escolha consciente de seu efeito. As poucas páginas em splash são reservadas para momentos grandiosos e, por isso, extremamente impactantes.

A jornada da protagonista não é apenas a de reencontrar sua família, mas também de se reencontrar. Se reconhecer. Talvez ela tenha perdido tudo o que a fazia ela mesma, seu isolamento e solidão são uma consequência da desconexão que ela sente com o status de “ser”. Mas ela é. Ela precisa aprender a superar as dores, a culpa, e a conviver com elas. Sua jornada é mais comum do que se pensa, mas ao mesmo tempo é única. Mas ela precisa percorrer tudo isso para poder prosseguir.

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