Precisamos de um novo filme do Batman? A polêmica do CBR

The Batman está chegando, mas Matt Reeves tem uma nova história pra nos contar?

No último dia 14, Brandon Zachary, colaborador do CBR, publicou no site um artigo com o título “Seriously, We Don’t Need Another Batman Film”, em tradução livre, “Sério, não precisamos de outro filme do Batman”. É óbvio que o título provocativo ouriçou os ânimos da galera, e discussões acaloradas marcaram os milhares de compartilhamentos do texto em grupos de Facebook. Mas, fugindo da polêmica… Zachary não tem seus dois dedos de razão?

A argumentação de Zachary é simples, até simplória, e desconsidera alguns fatores corporativos importantes – ninguém em sã consciência acha que a Warner e a DC vão passar muito tempo sem explorar uma de suas marcas mais rentáveis. Mas o ponto principal de seu texto é que a DC precisa aprender a viver sem o morcegão se quiser construir um cardápio diverso e competitivo nos cinemas, e o sucesso do filme do outsider Aquaman é um poderoso argumento do repórter.

Eu, até certo ponto, concordo. Notícias recentes falam até em substituição do protagonista, devido à nebulosa relação entre Ben Affleck e o DCEU. Seria o terceiro ator a interpretar o personagem num período inferior a 10 anos. Ninguém sai ileso de tamanha saturação de imagem. Todos sabemos que Matt Reeves, o diretor e principal roteirista do projeto, é um sujeito competente. Mas ele teria algo realmente novo à acrescentar para o personagem? Algo completamente distinto do que Nolan e Snyder fizeram? Creio que sim, mas algum distanciamento histórico seria no mínimo prudente, do ponto de vista criativo.

Matt Reeves

Porém, precisamos considerar algo que apesar de não ser palpável ou objetivo, é determinante: o PODER intrínseco do personagem.

Batman é um dos mais fascinantes e icônicos personagens já concebidos em papel, desenho e texto. Possui um dos maiores e mais diversos elenco de apoio da nona arte, incluindo coadjuvantes, amantes, amigos, aliados ocasionais e vilões. Tem precedentes geográficos que o colocam seu passado desde o Brasil até à Ásia. Teve um cânone construído ao longo de oito décadas, por centenas e centenas de artistas de todos os cantos do mundo, com as mais diferentes visões sobre o personagem. É humanamente impossível que não exista um criador com uma visão particular, nova e rejuvenescida para o cruzado encapuzado em toda Hollywood – e até fora dela. Basta escolher as pessoas certas para o projeto.

Um bom exemplo? Homem Aranha, que divide com o Morcego de Gotham a responsabilidade de ser a maior grife de uma gigantesca editora de quadrinhos. Após três filmes no mínimo controversos terem sido lançados em sequência, a Sony cedeu e entregou o personagem aos cuidados do Marvel Studios. O resultado foi Homem Aranha: De Volta ao Lar, um filme que pegou o mesmíssimo personagem e apresentou um visão que, apesar de manter os preceitos básicos do Teioso, rejuvenesceu totalmente a franquia (confira a crítica de Pablo Sarmento aqui).

Batman na arte de Lee Weeks, em Batman #53. Diretos: DC Comics Warner Brothers.

Com um protagonista que trouxe novas e contemporâneas camadas para Peter Parker; um elenco de apoio absolutamente renovado e diverso, inclusive etnicamente; e uma reformulação madura e inovadora para um consagrada vilão, o Abutre; De Volta ao Lar mostrou que não há saturação que impeça realizadores apaixonados, competentes e dedicados de apresentar visões únicas de seus personagens favoritos. O fôlego que De Volta ao Lar deu ao personagem parece inclusive ter inspirado a própria Sony, que em Homem Aranha: No Aranhaverso, entregou uma das mais ambiciosas animações dos últimos anos (e para colaborar com minha tese, por favor esqueçam Venom, ok? Risos).

Por isso que minha opinião vai de encontro à de Zachary. Batman é grande demais para pensarmos que não há mais nada a ser dito sobre o personagem. Tudo o que precisamos é de uma equipe com uma boa ideia e a capacidade de executá-la, e um estúdio que tenha a capacidade de escolher o projeto certo e abraçá-lo, sem pensar em sua conexão com o resto do Universo, mas sim em fazê-lo ser qualificado por si só.

É claro que eu gostaria de ver mais filmes de personagens estreantes nas telonas, é óbvio que eu quero que as franquias de Aquaman e Shazam ganhem mais e mais sequências. Mas não dá pra fugir da realidade de que a DC teve e sempre terá como seu pilar a Trindade. Tudo sempre volta a eles.

Cartaz internacional de Homem Aranha: No Aranhaverso. Direitos: Marvel Entertainment e Sony Pictures.

Respondendo, então, objetivamente à pergunta do título: se for para vermos a mesma história sendo contada pela enésima vez, não, não precisamos. Mas se o resultado disso for um filme que rejuvenesça a franquia, trazendo novos elementos que conectem as pessoas novamente com esse personagem, sim, precisamos, e pra ontem. O Batman sempre esteve lá por nós, e nós estaremos lá por ele.

Batman na arte inconfundível de Alex Ross. Direitos: DC Comics e Warner Brothers.

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