[#CCXP2018] Review: Hugo Canuto e seus Contos dos Orixás

Quanto você conhece da cultura afro-brasileira? Ou até da cultura africana? Cruciais para a formação plural da sociedade brasileira, essas culturas passam em branco em nosso ensino – o trocadilho foi proposital. O quadrinista Hugo Canuto tomou a iniciativa de mudar isso. Pegou a cultura Yorubá como um todo e condensou parte dela em uma história inédita: seu quadrinho Contos dos Orixás, lançado na CCXP 2018.

Seu trabalho com os Orixás já chama a atenção desde 2017, quando começou a divulgar artes inspiradas no trabalho de Jack Kirby. Segundo o próprio autor:

Os Contos dos Orixás surgiram a partir de uma convergência de paixões. A primeira delas, pelo legado das civilizações africanas, como a Yorubá, que moldaram minha terra de origem, a Bahia, repletas de tradições ancestrais, representadas aqui pelas histórias dos Orixás, arquétipos milenares de força, coragem, sabedoria e beleza.

Da Nigéria à Argentina, passando por Cuba, Brasil e Benin, tais divindades se manifestam em várias partes do mundo, através de diferentes sistemas de crenças (Candomblé, Culto a Ifá, Santeria, Umbanda…) celebradas em livros, canções, pinturas ou monumentos, como verdadeiros símbolos da capacidade dos povos em transcender adversidades e produzir milagres de fé e beleza.

Arte promocional de Contos dos Orixás por Hugo Canuto.
Arte promocional de Contos dos Orixás por Hugo Canuto.

Também acrescento o encanto pela força narrativa das Histórias em Quadrinhos, linguagem global que reinterpreta os mitos nos dias atuais através da costura entre imagem e texto. Em 2016, reuni os dois mundos em uma homenagem ao “Rei” Jack Kirby – artista, escritor e criador de personagens icônicos cuja narrativa épica de composições dinâmicas, permeadas por paisagens cósmicas ainda hoje encanta gerações de leitores.

Canuto explicou que o projeto atrasou bastante porque a pesquisa gerou um material maior que o esperado. Planejada para ter 60 páginas, Contos dos Orixás virou uma graphic novel com o dobro do tamanho e mais gente envolvida no processo criativo. Recentemente, em suas redes sociais, o quadrinista divulgou os primeiros envios para quem apoiou sua campanha lá atrás. As coisas estão andando.

Isso dito, Contos dos Orixás apresenta uma história com muita influência super-heroica, o que torna fácil a compreensão para leitores desse estilo. Ou seja, levando-se em conta o tamanho do mercado que os super-heróis têm no Brasil, quase todo consumidor de quadrinhos no país terá facilidade com esta HQ. Enriqueça essa oferenda com os temperos baianos que Canuto coloca na história e o resultado é um prato de sabor único.

Capa de página de Contos dos Orixás em arte de Hugo Canuto.
Capa de página de Contos dos Orixás em arte de Hugo Canuto.

Canuto explica tudo muito bem enquanto conta a história, passando por Òrun e pelo axé. Não é um quadrinho sobre religião, ainda que ele seria impossível de existir sem conceitos como religiosidade e fé. E, apesar das particularidades dessas divindades, o autor constrói a história de forma tão universal que é impossível não compreender sua mitologia.

Há muita coisa em Contos dos Orixás. Protagonistas fortes (com destaque para Xangô), aventuras, discursos de fé e embates contra divindades malignas. Apesar das formas humanoides dos personagens, eles são muito superiores a qualquer um de nós. A história deixa isso claro. Portanto, o que se vê nas 120 páginas da HQ é o nascimento e fortalecimento de mundos além da nossa compreensão. Mundos como Nova Gênese e Apokolips.

É impossível não notar a quantidade absurda de influências do Quarto Mundo de Jack Kirby nesta HQ. Mas isso não é ruim. Pelo contrário: é ótimo. Canuto conseguiu combinar religiosidade afro-brasileira com a mitologia kirbyana com muita competência. O resultado é um quadrinho prazeroso de ler, que possui tanto nostalgia, para fãs do Rei, como novidade para quem está lendo tudo pela primeira vez.

O universo de Contos dos Orixás e riquíssimo e pode gerar continuações e spin-offs. Tudo dependerá de como a HQ for recebida pela crítica e pelo público e do desejo do autor.

Por fim, vale destacar dois pontos. O álbum é belíssimo e provavelmente o mais impressionante lançamento da CCXP 2018, mas ele possui alguns erros de português que podem incomodar. Um futuro lançamento precisa de atenção a esse detalhe. Em segundo lugar, Canuto não fez tudo sozinho e todo o pessoal que gerou esta grande HQ está devidamente creditado. Os créditos completos podem ser vistos na página de pré-venda do Catarse. Aliás, fãs que quiserem ter a HQ, podem clicar neste link e garantir sua unidade. A campanha ainda durará 9 dias.

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