[#Review] Adágio estreia promissor novo universo de Felipe Cagno

Felipe Cagno está estabelecendo seu nome como um dos grandes pilares do quadrinho independente no Brasil. Já faz alguns anos que ele financia seus projetos na plataforma de financiamento coletivo Catarse, lançando diversos quadrinhos aqui e no exterior, como os volumes 321: Fast Comics e a série The Few and the Cursed. O autor também participa de diversos eventos pelo país – e fora dele – para levar seu trabalho à maior quantidade possível de leitores.

Adágio é seu novo lançamento. Cagno levou a HQ para ser comercializada no Artists’ Alley da CCXP 2018, deixando claro que o quadrinho foi contemplado no edital de História em Quadrinhos do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura de São Paulo (o segundo projeto de sua carreira a conseguir tal feito) e que ele é uma parceria com a editora Avec, que fará a distribuição.

Adágio é um pouco diferente dos projetos mais recentes do autor, muito voltados para o velho oeste. Desta vez estamos no futuro, no ano de 2067, em que um aplicativo chamado Adágio permite que os sonhos das pessoas sejam compartilhados ao vivo com espectadores como única forma de entretenimento. Não há mais séries de TV, filmes ou coisas do tipo. Os sonhos são tudo, dominando o mercado em um cenário de fácil compreensão para quem cresceu/cresce com o advento das redes sociais. Há pontuações, disputas e até drogas que permitem injetar determinados atributos aos sonhos das pessoas.

Capa de Adágio por Sara Prado, Natália Marques e Brao.
Capa de Adágio por Sara Prado, Natália Marques e Brão.

Nada disso impede que haja outros avanços tecnológicos, que lembram diversos filmes de ficção científica, como Blade Runner e sua sequência. Mas o mais importante é o aspecto Black Mirror que a história como um todo possui. O texto de Cagno elenca diversos pontos interessantíssimos sobre um possível futuro para a humanidade, como a ética do compartilhamento da maior intimidade (o que ela sonha à noite) até o que ela faz para ficar no topo de sonhadores mais populares.

Cagno também aproveita para questionar o que acontece quando pesadelos são compartilhados e quanto custa para a mente humana dividir tanto de sua vida com outrem. Kaya Muniz, a personagem principal, fica tão obcecada em conseguir ter sonhos lúcidos para transmiti-los que aceita usar uma droga recém-descoberta. Contudo, o que ela obtém são pesadelos lúdicos, criando um novo gênero no Adágio: o terror. Isso muda todo o escopo do que o Adágio oferece para seus usuários e provoca frenesi na sociedade.

Kaya é uma personagem muito relatável e que pode representar qualquer um de nós. Suas ambições são críveis dentro do mundo que a HQ apresenta, bem como seus pesadelos são tão assustadores quanto as piores coisas que já sonhamos. A trajetória que a personagem percorre é digna de um filme de terror com sci-fi, uma combinação perigosa mas que deu certo nas mãos talentosas de Cagno.

Como pontos negativos, Adágio tem alguns diálogos corridos e sem pontuação adequada. Não estão necessariamente errados, só carecem de um pouco mais de cuidado no uso de vírgulas e pontos. Além disso, a arte das cenas lúcidas parece corrida às vezes, tirando um pouco da fluidez de movimento entre um quadro e outro.

Por outro lado, com exceção desses pequenos momentos citados acima, a arte como um todo é muito bonita. Sara Prado e Natália Marques formam um ótimo time. Trabalham afinadas com o autor. Destaque também para as cenas de sonhos e pesadelos, desenhadas com maestria por Brão. Suas páginas poderiam estar em uma história do Sandman, para se ter uma ideia.

Cagno está colhendo os frutos do que vem plantando nos últimos anos. Adágio é um lançamento competente e reflexivo na medida certa para nossos tempos. Com esta HQ o autor prova que pode explorar novos gêneros e criar outros universos. Aliás, Adágio é uma história fechada, mas que deixa muita terra para ser arada no futuro.

Atualmente Adágio está em pré-venda no Catarse. Confiram abaixo uma prévia da HQ e seus respectivos detalhes logo abaixo.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Adágio
Roteiro: Felipe Cagno
Arte: Sara Prado, Brão
Cores: Natália Marques
Páginas: 112
Publicação: Proac/Avec (distribuidora)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): A ser definido em fevereiro de 2019 – R$ 35,00 ou mais no Catarse

Em 2067 um aplicativo/rede social chamado Adágio permite que os usuários postem seus sonhos online – ao vivo ou gravados.

É o fim do entretenimento produzido como conhecemos hoje. Não existem mais filmes, séries de TV ou vídeos online, agora as pessoas assistem apenas os sonhos umas das outras…

Quando a jovem Kaya Muniz experimenta uma droga sintética e faz uma live do seu primeiro pesadelo lúcido, ela cria um novo gênero dentro do aplicativo – o terror.

A tão desejada fama vem em uma enxurrada de curtidas e compartilhamentos, mas quando se escolhe ter pesadelos toda noite, qual é o impacto emocional e mental?

Qual é o preço a se pagar?

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