#ConscienciaNegra: Uma singela homenagem a Christopher Priest

A história está cheia de casos de grandes pessoas que estavam relutantes antes de produzirem os trabalhos de suas vidas. Com Christopher Priest não foi diferente. Se você acompanha o Terra Zero há algum tempo, já ouviu falar deste cara. Isso não é gratuito. Priest é um escritor com uma bibliografia pra lá de diversificada.

Neste ano, sua maior obra completa 20 anos. Curiosamente, foi também neste ano que o protagonista dela ganhou seu primeiro longa-metragem. Sim, estamos falando do Pantera Negra. Mas não é só isso. Essa história começa muito antes – mais exatamente em 1978, quando Priest tinha apenas 17 anos e era um estagiário na Marvel. Naquela época, o Pantera tinha sido criado há apenas 12 anos.

O Pantera Negra de Christopher Priest em arte de Patrick Zircher.
O Pantera Negra de Christopher Priest em arte de Patrick Zircher.

Priest, naqueles anos, usava o nome Jim Owsley – ele nascera James Christopher Owsley, mudando o nome para Christopher James Priest anos depois. Entrou para o grupo editorial da Marvel para cuidar de títulos como Crazy Magazine e revistas do Conan, onde trabalhou com Larry Hama. Em 1983, tornou-se o primeiro escritor negro da editora, trabalhando em uma minissérie do Falcão, além de se tornar, pouco tempo depois, editor das revistas do Homem-Aranha. Trabalhou também com Luke Cage e o Punho de Ferro nessa época, provando que um escritor negro tinha muito mais a acrescentar para os conflitos de Cage. Foi assim que começou a cimentar seu nome.

O passar dos anos lhe trouxe trabalhos nas duas majors em diversas revistas. Mas mais importante que isso, ele foi um dos responsáveis pelo estabelecimento do selo Milestone, na DC. A palavra “milestone” vem de “marco” mesmo, o que de fato esse selo foi. Um grupo de quadrinistas negros foi responsável por lançar, no início dos anos 1990, uma linha completa de revistas de super-heróis inéditos. Super-heróis negros, culturalmente desafiadores e inéditos. Algo como a indústria não tinha visto até então. E esse era só o início do que Priest faria naquela década.

O Pantera Negra de Christopher Priest em arte de Joe Quesada.
O Pantera Negra de Christopher Priest em arte de Joe Quesada.

Em 1998, quando a Marvel estava revivendo sua linha aos poucos com o selo Marvel Knights, Priest foi responsável por ficar com o Pantera Negra. Kevin Smith e Joe Quesada ficaram com o Demolidor; Grant Morrison e Jae Lee ficaram com o Quarteto Fantástico (em série limitada); etc. A editora estava à beira de falir e precisava rejuvenescer seus produtos para voltar a enfrentar as dificuldades do mercado e se tornar uma vitoriosa de vendas. Graças a diversas medidas, com destaque para o estabelecimento desse selo, a Marvel conseguiu. E o Pantera Negra de Christopher Priest foi importantíssimo para isso.

Pantera Negra não era exatamente o personagem mais relevante do mundo. Mas assim como Demolidor e outros, era perfeito para aquela estratégia da Marvel. E, Priest, perfeito para a proposta. Ainda que ele não quisesse ficar marcado como um “escritor negro que só escreve personagens negros”, aceitou o desafio e delineou uma série de ideias importantes para fazer de sua passagem, única.

Essa passagem durou de 1998 a 2003. Nela, T’’Challa age sob seu próprio conjunto de valores. É um super-herói que enxerga as coisas sob um prisma único e que é rei de uma nação soberana, Wakanda. Priest injetou uma profundidade inédita no personagem, algo que ele precisava há décadas. O autor não apenas enxergou uma forma de questionar o papel do Pantera Negra no Universo Marvel como herói e rei, como também inseriu nele seus próprios conflitos, a fim de enriquecer o material, o que acabou deixando um grande legado para os anos que vieram. Tanto que influenciaram a recente passagem do autor Ta-Nehisi Coates pelo herói. Essa coisa de haver uma nação africana poderosa, avançada e com suas próprias características ainda é uma ideia audaciosa e quebradora de barreiras. Não fosse por Priest, o filme do Pantera Negra, tão baseado no material dele, não seria como foi. Talvez nem existisse.

Em todas as edições que o autor escreveu, vemos diversos clichês de super-heróis, mas envelopados por um personagem que lida com questões raciais e a filosofia do que é ser negro. Dentro e fora de uma sociedade dominada por brancos. Tanto que muitas vezes, o oficial americano Everett K. Ross é quem “conta” a história. Ross é escolhido pelo governo para escoltar T’Challa em sua chegada aos Estados Unidos, e a verdade é que ele representa nós, leitores majoritariamente brancos, consumindo aquele material e vendo a América como ela é – e como T’Challa é.

Curiosamente, depois de tamanho sucesso nessa passagem, Priest se afastou dos quadrinhos. Por nada menos que dez anos! Durante sua vida, tornou-se pastor da Igreja Batista e já escreveu diversos ensaios e publicações sobre pensamentos cristãos progressistas. O novo sobrenome não veio à toa…

Ao voltar para os quadrinhos, por volta de 2014/2015, Priest trabalhou em diversas revistas, com destaque, para os fás da DC, para os títulos do Exterminador e da Liga da Justiça. A primeira está sendo publicada no Brasil de forma encadernada há algum tempo. Já a segunda, está prestes a chegar aqui. A segunda chegou aqui em agosto. No começo do ano, o autor colaborou para uma história de Black Panther Annual #1, que saiu junto com o filme, fechando um ciclo em sua carreira.

A volta de Christopher Priest em Black Panther Annual #1. Capa de Daniel Acuña.
A volta de Christopher Priest em Black Panther Annual #1. Capa de Daniel Acuña.

Priest ainda tem muita lenha pra queimar, mas, se resolver parar de novo, terá deixado um legado importantíssimo. Não só como escritor de quadrinhos, mas como uma mente que soube explorar a estrutura social desigual que vivemos através da arte que produz. Como o cara que fez o Pantera Negra ser relevante em uma época em que as pessoas questionam até a verdade e a luta pelo fim da desigualdade. Que seu trabalho seja celebrado e continue mudando a forma de pensar de muita gente por aí. Aconteceu entre 1998 e 2003 e pode acontecer de novo. A Marvel relançou tudo – e não deve tirar de catálogo tão cedo.

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