[#Review] Blue Note, Os Últimos Dias Da Lei Seca

Em 1920, logo após a Primeira Guerra e no auge do American Way of Life, que crescia economicamente com a exportação para uma Europa em reconstrução, os EUA sancionaram a chamada Lei Seca. O objetivo era reduzir os problemas com a criminalidade e manter a sociedade americana afastada de quaisquer distrações que pudessem diminuir este crescimento industrial e econômico. Apesar das boas intenções e da recepção positiva da sociedade nos primeiros anos da lei, aos poucos as autoridades caíram em descrença enquanto o crime organizado crescia com o contrabando de bebidas, dando origem a verdadeiros impérios da máfia, como o do lendário Al Capone. A situação se agravou, quando, após a queda da bolsa em 1929, americanos desolados, diante do cenário catastrófico que se avizinhava, só queriam algumas doses para esquecer a situação do país.

A migração da população rural e de pequenas cidades para os grandes centros em busca de mais oportunidades também favoreceu a popularização do jazz. A população se reunia nos speakeasies, grandes casas para o consumo de bebida ilegal e para que se mantivessem entretidos e por mais tempo no local, músicos eram contratados para animar o local e manter todos distraídos, aumentando as vendas e diminuindo as chances de confusão. Foi durante este período que ocorreram as primeiras gravações de músicos profissionais negros.

Capa de Blue Note, de Mariolle e Bourgouin.

Porém, o crescimento do crime organizado e a necessária retomada do crescimento econômico, fez com que opositores da lei no Congresso pressionassem o então presidente, Franklin Roosevelt, para que revogasse a Lei Seca, com a promessa de que a produção legalizada de bebidas geraria empregos e impostos para um país em necessidade. Roosevelt revogou a Lei Seca em 1933, após treze anos de um dos períodos mais conturbados dos EUA. E é exatamente durante o último mês da lei que se passa a HQ Blue Note, obra-prima de Mathieu Mariolle e Mikaël Bourgouin que acaba de chegar às livrarias pelo selo Gold Edition da Mythos Editora.

Contada sob dois pontos-de-vista diferentes, Blue Note começa com Jack Doyle um famoso lutador de boxe aposentado que é levado a retornar ao ringue por seu antigo empresário. Porém, os tempos são outros e isso acaba o levando ao submundo do crime organizado de Nova Iorque. Logo em seguida, somos apresentados a R.J., um jovem músico de jazz que vai para a cidade grande atrás de inspiração e do sonho de tocar para grandes públicos. Seu talento faz com que acabe tocando no maior clube da cidade, comandado por um dos maiores mafiosos de Nova York. Ambas as histórias se cruzam, tecendo um panorama completo dos últimos dias da Lei Seca e do crime organizado que comandava os EUA no período.

Publicada originalmente na França pela Dargaud, Blue Note talvez seja uma das melhores HQs a retratar este período da história americana. Mariolle escreve personagens reais, com dilemas e problemas convincentes em ambientes tão realistas que é como se ele realmente tivesse vivido naquela época. Os pequenos detalhes do roteiro constróem seus personagens rapidamente. Em apenas uma página você consegue entender as motivações que levam os personagens pelo caminho que história toma. Logo nas primeiras páginas vemos Jack Doyle sentado em um sofá velho em meio à sucata e mato. Ele obviamente não quer estar ali. Depois, vemos R.J. em um bar barulhento, onde ninguém ali se importa com a música que está tocando. Tudo descrito em poucos quadros de maneira milimétrica. A maneira como isso é feito faz com que o leitor logo se afeiçoe a eles, tornando a leitura envolvente. Você torce por eles e quer saber se tudo vai acabar bem.

Página 8 de Blue Note, de Mariolle e Bourgouin.

A ideia de dividir o a história em duas partes fica mais interessante ainda quando avaliamos o título da HQ. Na música, as “blue notes” são notas musicais inicialmente utilizadas no blues e que se inspiravam nas canções entoadas durante o trabalho pelos escravos. Estas notas, geralmente tocadas mais baixo do que se espera dentro da escala, conferem um caráter de lamento à música.  Este recurso aos poucos acabou sendo levado para o jazz, que é o tema principal da história. Blue Note ainda reflete através do roteiro e da arte, o lamento do trabalho de um boxeador decadente e um jovem e ambicioso músico do interior perdido no caos da cidade grande.

O prazer da leitura se torna ainda maior pelo trabalho de Bourgouin na arte do gibi. Seus estilo casa perfeitamente com o período retratado na HQ e consegue transmitir toda a efervescência da Nova Iorque dos anos 30, com sua arquitetura opulenta, seus carros barulhentos e suas ruas apinhadas de pessoas dos mais variados estilos. Seus quadros mais abertos permitem que o leitor passeie pelos detalhes, conhecendo o local e o período através dos pequenos detalhes como vestimentas, cartazes, propagandas e jornais. Já os quadros mais fechados, focados nos personagens, facilita o entendimento de seus comportamentos através da postura, expressão facial, roupas e até da decoração do escritório.

Página 83 de Blue Note, de Mariolle e Bourgouin.

Mas o ponto alto da arte é quando a música está rolando. Por ser parte crucial para o entendimento da história, o jazz é quase como um personagem, a trilha sonora constante dos ambientes por onde os personagens circulam. Mas como tornar a música parte de uma mídia essencialmente visual como os quadrinhos? Bourgouin encontra a solução perfeita na forma de pinceladas soltas, como ondas que se prolongam a partir do músico envolvendo os personagens e todo o ambiente ao seu redor. Este mesmo recurso é replicado quando R.J. chega à Nova Iorque e o barulho da cidade grande o envolve. Vindo do interior cheio de esperanças, aquele barulho todo é música para os seus ouvidos. Quadrinhos em sua mais perfeita forma.

Blue Note chega ao Brasil em uma belíssima edição da Mythos, num formato maior (31,2 x 23,4 cm) e capa dura, com um sabor nostálgico de tempos que não vivemos e que resgata um período fascinante que inspirou incontáveis filmes, livros e quadrinhos em quase um século desde o fim da Lei Seca. Sugiro que coloque seu álbum de jazz favorito para tocar na vitrola, sirva um copo do seu uísque favorito e se deixe levar pela composição vibrante e melancólica de Mariolle e Bourgouin. Um álbum que merece figurar no topo das paradas de qualquer fã da nona arte, da música ou do boxe.

[Compre aqui sua edição de Blue Note com nosso desconto da Amazon!]

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com