[#TerraZero10Anos] FIQ: Frente a frente com George Pérez

Nosso encontro com George Pérez não podia ter ficado de fora do Especial de 10 anos do Terra Zero. Pudemos conhecer – e conversar com – o artista em 2013, durante sua passagem pelo FIQ. Falamos de seu início como profissional, de seu lado de fã e das coisas que o tornaram conhecido no meio. Foi um papo interessantíssimo, que marcou a história do site para sempre! E o momento para relembrá-lo não poderia ser melhor: sua passagem pelos Novos Titãs, a obra que lhe deu fama mundial, acaba de ser relançada pela Panini no país!

O Especial de 10 Anos do Terra Zero republicará alguns dos maiores textos já lançados aqui. Semanalmente, com a hashtag #TerraZero10Anos. Além disso, teremos um item no menu que redireciona para uma página com todas essas republicações. Não percam – e aproveitem para conhecer nossa história!


Muitas pessoas ainda não conseguiam acreditar que George Pérez estaria no evento. Extremamente bem-humorado e simpático, Pérez apareceu no VIII FIQ durante a manhã de sábado, sendo recebido por fãs e profissionais de quadrinhos com muito entusiasmo e reverência.

Naquele dia, logo após o almoço, o artista tinha um painel dedicado ao seu trabalho, aproveitando, portanto, o tempo que tinha disponível antes disso para conhecer o evento e se deleitar com a exposição Ícones dos Quadrinhos, que teve curadoria de Ivan Costa, um dos organizadores do FIQ e grande amigo do Terra Zero.

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Antes de iniciar seu painel Pérez foi abordado por este redator para uma breve conversa enquanto andava pelos corredores da Serraria Souza Pinto, recebendo uma camiseta do Terra Zero de presente e autografando uma antiga edição de Heróis em Ação, a primeira a publicar Novos Titãs de Wolfman/Pérez no Brasil. Cheio de bom-humor, Pérez brincou que a revista era pequena demais para assiná-la, mas deixou seu nome nela e tirou fotos com este empolgado tiete.

O Painel

Poucas vezes um convidado foi tão bem recebido pela plateia como Pérez foi. A apresentação do painel contou com as presenças do amigo Daniel HDR e de André Ornelas, além da tradução simultânea de Érico Assis. HDR, extremamente emocionado por estar ao lado de um de seus grandes ídolos, fez a maioria das perguntas dos apresentadores antes que o painel fosse aberto ao público.

De modo geral Pérez comentou como iniciou sua carreira, contando as dificuldades de entrar neste mercado e de ser um artista que tentou desenvolver seu próprio estilo sem realmente ter uma base artística universitária completa. Quando era ainda bem novo, a primeira pessoa a lhe apoiar e dar chances dentro da indústria foi Neal Adams, de quem é grande amigo hoje.

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Ao comentar seus principais trabalhos na DC e na Marvel Comics, Pérez explicou que homens como Curt Swan e Jack Kirby foram seus grandes ídolos para que seu próprio estilo fosse desenvolvido. Ao se sentir mais seguro para mostrar sua própria arte ao mundo, o artista foi pegando novos desafios até chegar em Crise nas Infinitas Terras. Em uma história bem peculiar, Pérez contou que, naqueles tempos, um desenhista dificilmente pegava revistas de equipe devido ao tempo necessário para se desenhar tantos personagens numa única história. Para ele, no entanto, este era um desafio importante de ser superado. Portanto, quando veio a Crise, foi pedido a ele que desenhasse uma capa com alguns dos principais personagens da obra – ou pelo menos os seus favoritos e que fizessem sentido ali. Seguindo a filofia de que todo personagem é seu favorito, Pérez fez nada menos que 96 personagens numa arte. Isto viria a se desenvolver por todo o restante da obra, se transformando numa marca registrada do artista.

Pérez também endereçou comentários aos seus fãs homossexuais, graças, em especial, a um fã homossexual que agradeceu ao autor por ter a capacidade de tratar seus personagens, independente da orientação sexual, como iguais e especiais. Vestindo uma camiseta vermelha com o logo da Mulher-Maravilha, o fã deu destaque especial ao trabalho do artista com a personagem, um dos mais lembrados até hoje. Pérez agradeceu e explicou que, ao colocar a heroína numa Ilha em que fosse realmente proibida a entrada de homens, a sexualidade se desenvolveria de forma muito diferente. “Quando um homem entrasse ali – Áres Héracles, no caso – seria para pedir desculpas.“. O artista ainda brincou com o título do livro “Homens são de Marte e Mulheres são de Vênus”, explicando que, em seu casamento, é o contrário entre ele e sua esposa.

George Perez Wonder Woman #1 cover

Acerca dos Novos Titãs o artista explicou que o trabalho dele e de Marv Wolfman requeriam personagens mais únicos para aquele grupo. Logo, a criação de Ravena, Estelar e Ciborgue tem tudo a ver com o desejo da dupla de fazer algo a mais por estes personagens – Ravena seria a mulher misteriosa, com base no trabalho que Wolfman desenvolveu anteriormente em historietas de terror; Estelar era o par romântico do Robin, que o transformaria em homem e o afastaria cada vez mais da sombra do Batman; Ciborgue era o negro que batalhou por tudo, teria carisma invejável e seria uma mistura da humanidade com a lógica das máquinas. Depois de explicar isso, Pérez revelou que jamais passou pela cabeça dele e de Marv alcançar o sucesso que alcançariam com estes personagens, batendo de frente com a revista mais vendida do mercado: The Uncanny X-Men, de Chris Claremont e John Byrne.

No entanto, nada disso foi problema. Pérez já havia dito que colocar amor na página que se desenha faz fãs notarem esta diferença e passarem a acompanhar seu trabalho com o mesmo afinco. Foi com esta honestidade que ele se transformou numa estrela dentro deste mercado, continuando como uma referência ainda nos dias de hoje. Vale lembrar que foi neste momento que o artista citou o excelente trabalho dos brasileiros na DC, deixando claro que, ao ver páginas de desenhistas como Ivan Reis, se torna extremamente necessário pra ele que haja uma constante superação para não ficar pra trás. Este foi um dos vários momentos em que Pérez foi muito aplaudido em sua apresentação.

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A Coletiva

O Terra Zero teve duas oportunidades de conversar com Pérez durante o evento; a primeira foi na coletiva de imprensa ocorrida no domingo de amanhã; a segunda foi logo depois disso, na Sala VIP, dividindo espaço com Afonso Andrade (presidente do evento), com Heitor Pitombo da Mundo dos Super-Heróis e com o querido amigo Delfin. Nas duas conversas o artista pôde falar mais abertamente sobre temas mais polêmicos ou coisas mais antigas sobre o início de sua carreira. Para facilitar a compreensão dos leitores os temas serão separados em tópicos:

– Início de Carreira: Uma das pessoas a quem Pérez é mais grato em seu início de carreira é Bill Mantlo, com quem criou o Tigre de Bronze, o primeiro super-herói porto-riquenho das revistas americanas. A partir daí ele viria a ganhar grande reconhecimento na editora, em especial por ter a coragem de pegar revistas de grandes equipes, trabalho que ninguém gostava de pegar naquela época. Estão aí títulos como Vingadores, Quarteto Fantástico e até Os Inumanos.

– War of the Gods: A grande saga – inédita no Brasil – centrada na Mulher-Maravilha serviria para comemorar seus 50 anos. Todavia, a DC Comics mudou uma série de políticas graças à licença maternidade que a editora Karen Berger tirou, deixando Pérez sem a liberdade que tinha tido até então para fazer seu trabalho. Vendo seus planos serem minados pela DC o artista os deixou e não viu o que foi feito depois com a personagem, política que ele adota para qualquer trabalho que deixa pra trás.

– O Retorno aos Vingadores com Kurt Busiek: esta foi uma pergunta especialmente feita por este redator, que conheceu o trabalho de Pérez com a primeira edição de Avengers v3, dele e de Busiek. Depois de ter afirmado que fazer páginas com muitos personagens teria se tornado sua marca registrada, este redator lhe perguntou se seu retorno aos Vingadores com Busiek tinha a ver com o que foi feito na Crise, já que praticamente todos os membros (inclusive os reservas) aparecem logo nas primeiras histórias. Ele disse que sim, pois tinha passado um tempo fazendo trabalhos menores e sentiu que aquilo necessário para mostrar aos fãs e ao mercado que ainda era capaz de fazer coisas grandes, mesmo sendo um veterano num mercado que sempre renova seus profissionais.

– A polêmica dos Novos 52: dentre os assuntos que praticamente todos os jornalistas abordaram estava a polêmica saída de Pérez da DC após tanta discórdia entre ele e alguns de seus editores. Sem papas na língua o artista explicou que o maior problema dos Novos 52, em especial do seu Superman, foi a falta de planejamento entre editores e o constante desejo de ter os personagens como franquias que possam ir o mais rápido possível para Hollywood. “O poder criativo de um artista se perdeu. Portanto, me vi numa situação em que as histórias, que são planejadas com 4 meses de antecedência, eram mudadas em cima da hora para que o personagem pudesse ficar mais propícios a serem usados em outras mídias. A DC se esqueceu de que estes personagens são assim porque surgiram nos quadrinhos, é onde está a essência deles. Mas eles resolveram fazer o processo contrário. Tudo bem, é uma empresa tomando medidas necessárias – ou desesperadas – para seus produtos sobreviverem. Mas não quero isso para minha vida profissional“, disse o artista.

– BOOM! Studios: outra pergunta feita pelo Terra Zero foi sobre o contrato de exclusividade que Pérez assinou recentemente com a BOOM!. O artista está extremamente feliz com esta nova possibilidade, pois poderá desenvolver trabalhos autorais sob uma editoração de alguém que é seu fã. Logo, a possibilidade criativa fica bem maior. Exemplificando o que fará por lá, o autor citou a revista She-Devils, que contará com personagens reais baseados nos cosplayers que lhe enviarem fotos. Apaixonado por cosplay, Pérez adora tirar fotos com todos os fantasiados que estão por perto, dando grande destaque às belas Batwoman e Estelar que estavam no evento. Portanto, mulheres e homens fantasiados que lhe enviarem fotos de algum cosplay criados por si mesmos têm grandes chances de estarem na revista.

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O artista continuou pelo evento, dando autógrafos e conversando com fãs até o final do último dia, no domingo. Além de dar uma aula de profissionalismo e simpatia, Pérez deixou ensinamentos e grandes saudades. Poucas vezes o FIQ recebeu um convidado que tivesse dando para oferecer aos fãs, fazendo da edição 2013 do evento uma das mais históricas.

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