[#Catarse] Felipe Tazzo e Daniel Sousa apresentam O Bar do Pântano

Quem nunca quis encontrar um bar nos quintos dos infernos? Diabos, pensar em chegar ao reino do Capiroto para viver a eternidade com um copo de cachaça na mão é uma ideia até que atraente. Afinal de contas, viver sofrendo pela eternidade queimando ou curtindo uma breja no calor interminável é só uma questão de como você vê as coisas.

É partindo deste – e de vários outros princípios – que Felipe Tazzo e Daniel Sousa estão tentando financiar a HQ Bar do Pântano no Catarse. Nesta nova HQ que os dois produziram em conjunto, as coisas acontecem “em um universo caótico e tenebroso que recebe as almas mais podres que existiram em toda história da humanidade. Tão grande que não vai caber só nessa revista; tem site, Instagram, Twitter e podcast.” Dá pra ver o tamanho do projeto que os caras estão lançando.

Para saber mais sobre Bar do Pântano, o Terra Zero conversou exclusivamente com os dois. Confiram!

O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.
O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.

Qual é o princípio por trás da criação de O Bar do Pântano?

Felipe Tazzo: São muitos. É claro, rolou uma baita cópia e cola da distribuição do inferno em círculos concêntricos, como Dante Alighieri postulou na Divina Comédia. Existe também um princípio no hinduísmo, que as almas com o mesmo nível de karma tendem a se aproximar, o que explicaria uma região para cada tipo de “pecado”. O grande lance do Bar do Pântano e todo o universo expandido – que estamos chamando de Rascunho do Inferno – é submeter esses dogmas à lógica. Por exemplo, um único Lúcifer sentado no portão do inferno com uma lista com todas as bilhões de almas distribuindo cada uma em um cantinho não faz sentido. Já as almas se juntarem por seu nível de maldade, aí faz um pouco mais de “sentido”, se você acredita em céu, inferno e essas lendas todas. Encontrar explicação plausível para como um inferno se organizaria é um exercício filosófico sensacional!

Daniel Sousa: A nossa única intenção é o motivo primordial de se fazer quadrinhos: pelo prazer da coisa toda. O Bar do Pântano é “massaveisse” pura, do tipo que eu gostaria (e gosto) de ler. Watchmen, Maus, Joe Sacco, Marjane Satrapi, todas são obras reflexivas em maior ou menor grau, e de uma importância imensa para a sociedade. Numa escala bem menor, foi o que eu tentei (e espero ter conseguido) fazer com minha primeira HQ, Entrespaço. Mas a necessidade de abordar as mais diversas questões da humanidade não exclui a vontade de produzir a boa e velha diversão descerebrada que todo fã de quadrinhos consome desde que se conhece por gente. E é isso o que O Bar do Pântano representa: contar boas histórias e, quem sabe, dar uma cutucadinha ou outra pelo simples prazer de tirar um sarro.

Por que um bar no Inferno? Existe esse elemento típico de sociedades cristãs de que o Inferno, na verdade, é um lugar excelente para se passar a eternidade.

Felipe: O bar é o elemento agregador universal. Toda cidade pequena no Brasil tem que ter uma praça, uma igreja e um buteco. Além disso, nós (Felipe e Daniel) crescemos nos anos 1990 em um bairro universitário. Durante a semana, só tínhamos 4 ou 5 canais de televisão e no fim de semana os universitários voltam para suas cidades. A gente só sabia fazer churrasco e frequentar bar. Com certeza, um bar seria um bom lugar para passar a eternidade, para qualquer religião. Melhor do que dentro de um caldeirão de óleo fervente tendo a bunda cutucada pelo tridente de um diabinho de rabo e chifres.

Daniel: Sigo com o relator. Por que diabos no último círculo do Inferno você encontraria um bar? Você pode até passar os primeiros 15 minutos achando que tirou a sorte grande, mas em alguns minutos aparece aquela pulga atrás da orelha. Ou no caso do Bar do Pântano, um carrapato de meio quilo que recita poesia concreta em francês enquanto copula com o seu tímpano. (ok, agora vou ter que dar um jeito de incluir essa cena na HQ!)

O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.
O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.

A descrição da campanha é bem-humorada, ainda que deixe claro o teor de terror da história. Como vocês balancearam isso?

Felipe: Nem tentamos balancear. O clima não é de terror. É de terrir. A gente usa todos os elementos clássicos do terror nas histórias: monstros, demônios, tortura física, fantasmas, suspense, mas em nenhum momento você vai ter medo. Mesmo que você esteja lendo o Bar do Pântano em uma casa abandonada no alto da colina à meia noite. É puta zona mesmo. Não esperamos que o leitor tenha pesadelos. Esperamos que o leitor pense “que porra é essa que eu acabei de ler?”

Daniel: Exato. Não é uma história de terror clássico, mas nem por isso terá situações fofinhas. O clima thrash está à serviço da diversão. Desde que o seu conceito de diversão seja acompanhar as desventuras de uma alma condenada perpetuamente ao inferno, claro.

O quanto suas experiências anteriores produzindo arte/quadrinhos ajudou em O Bar do Pântano?

Felipe: Eu nunca produzi quadrinhos. Eu já tenho dois livros, algumas peças de teatro, muita publicidade, colaborações aqui e ali, mas eu já escrevi muito roteiro para quadrinhos e os meus amigos bunda mole nunca desenharam uma linha. O Daniel foi o primeiro. E olha que demorou uns 3 anos entre eu mandar o roteiro e ele dizer que talvez, mas não garantia, ele o desenhasse.

Mas mesmo que eu tivesse feito quadrinhos antes, fazer muito não ajuda a fazer o próximo. Se enfiar no seu próprio trabalho só faz você se repetir. O que ajuda a pensar o quadrinho é ler e ler obsessivamente, tipo 50 livros por ano. Isso te dá novas visões, novas possibilidades. Ler muito quadrinho de todo o tipo também ajuda. Não dá para criar algo que preste se você é o seu maior fã.

Daniel: Eu tenho uma HQ publicada e agora estou lançando O Bar do Pântano. São projetos diametralmente opostos: Uma é uma espécie de drama psicológico centrado em apenas um personagem, literalmente um monólogo, enquanto a outra tem um monte de personagens interagindo em situações caóticas. Além disso, Entrespaço tem texto e arte minhas, enquanto o Felipe é quem escreveu o Bar do Pântano. Mas independente de todas estas diferenças, a experiência na produção de Entrespaço ajudou bastante. Pude conhecer melhor o caminho de se publicar uma HQ, evitar cair em ciladas de planejamento e (tentar) melhorar o processo de construir a narrativa visual.

Mas o que mais ajudou não foi tanto no processo de criação, e sim no contato humano. Tive um retorno muito bom com o lançamento de Entrespaço no FIQ 2018. Foi meu primeiro evento (nem podia ser diferente, era minha primeira hq), e o contato com o público nos 5 dias de evento foi muito importante. Fiz amizades muito boas por e a partir de lá, tanto de pessoal que já produzia quadrinhos quanto do público que consome. O retorno de quem leu a hq foi incrível. Recebi críticas construtivas destas pessoas, que me ajudaram muito ao começar um novo projeto. E claro, ter alguns leitores que já gostaram de seu primeiro trabalho ajuda bastante quando se anuncia um segundo. A melhor parte é quando um completo desconhecido resolver te chama no twitter para conversar sobre o que gostou e o que não gostou. E é aí que você percebe se está indo pelo caminho certo ou não.

O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.
O Bat do Pântano, por Daniel Sousa.

Se vocês pudessem frequentar um bar no Inferno, como ele seria?

Felipe: Como assim, “se”? Estamos frequentando o Bar do Pântano faz meses, revisando cada detalhe, discutindo a história. Esse bar é um dos que a gente moraria dentro, com certeza. Não é o único bar do inferno, o leitor vai descobrir, mas com certeza é onde se encontra a fina flor da escumalha da humanidade. Se fosse para gastar ainda mais tempo lá, acho que seria bom instalar um ar condicionado.

Daniel: Eu estou atualmente tentando SAIR do Bar. Passei muito tempo por lá. Nem é tanto o cheiro do enxofre que incomoda, mas sim aquele garçom estranho que não para de me observar com o canto dos olhos. De todos os 400 olhos. (ok, 390, tem uns 3 ali com catarata, 6 estrábicos e aquele unzinho maldito com conjuntivite bacteriana que ele se recusa a limpar).


Apóie o projeto da HQ Bar do Pântano no Catarse.

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