[#Superman80Anos] Superman e suas estranhas conexões com o 11 de Setembro

[Nota: Este artigo integra o Superespecial Superman 80 Anos, que fará parte do site até dezembro deste ano. Acompanhem todos os artigos deste especial clicando aqui!]


Você se lembra do 11 de Setembro? Se tem 25 anos ou mais, certamente. E com detalhes.

Hoje o maior evento sociopolítico Ocidental do século 21 completa 17 anos. Suas maiores repercussões dentro do nosso mundo, o do entretenimento, foram discutidas primariamente em um ComicPod muito especial, lançado em 2011, quando o evento completou sua primeira década. Lá citamos as estranhas coincidências que o Superman teve com o evento, mas nem imaginávamos que ele influenciaria a nova versão cinematográfica do herói.

Sim, estamos falando de Homem de Aço (2013) e Batman vs Superman – A Origem da Justiça (2016). Mas calma, chegaremos lá em breve. Antes precisamos falar do que aconteceu na data. Um dia depois, na verdade.

Capa de Adventures of Superman #596 por Mike Wieringo, José Marzan, Jr. e Wildstorm FX.
Capa de Adventures of Superman #596 por Mike Wieringo, José Marzan, Jr. e Wildstorm FX.

Adventures of Superman #596

Em 12 de setembro foi lançada a revista Adventures of Superman #596. Nela, Superman e outros personagens tentavam se recuperar da Guerra Imperiex. Ela rolou na saga Nossos Mundos Em Guerra, um conflito cósmico entre todo o universo e a entidade conhecida como Imperiex. Esta entidade atacou a Terra com o propósito de usar o planeta para testar seu plano de “esvaziamento” do universo.

Lex Luthor, presidente dos Estados Unidos, também tentava se recuperar. Suas torres gêmeas fizeram parte do ocorrido e estavam destruídas. Eram filmadas por helicópteros. Isso lembra alguma coisa?

Página de Adventures of Superman #596 mostrando as Torres Luthor atacadas logo após o 11 de Setembro. Arte de MIke Wieringo.
Página de Adventures of Superman #596 mostrando as Torres Luthor atacadas logo após o 11 de Setembro. Arte de Mike Wieringo.

Como se isso não bastasse, Superman estava com o fúnebre logotipo de fundo preto no uniforme. Na capa da HQ estavam os dizeres “este não é um trabalho para o Superman”. Terrível, não? E não acaba aí.

O Homem de Aço estava acompanhando as reconstruções de alguns pontos do mundo. Então um relatório chega do Pólo Sul. O gelo está derretendo rapidamente. Ao dirigir-se para a Antártica, ele encontra o Mago do Tempo derretendo a calota polar. Rapidamente o herói subjuga o vilão e refaz o que pode com seu sopro de gelo. O Mago admite que estava fazendo um vídeo para usar como uma ameaça, a fim de exigir o retorno de seu filho, que foi tirado dele. Em seguida o Mago desaparece em um relâmpago.

Toda a simbologia visual da HQ e seus principais eventos têm conotação com os eventos do dia anterior. Enquanto o 11 de Setembro entrava para a história do mundo, a DC via um quadrinho comum tornar-se um problema. Desde a iconografia da capa até a trama, referências à tragédia estavam todas ali. E é claro que o quadrinho não foi produzido com esse intuito. Afinal, uma HQ é produzida com bastante antecedência, já que é divulgada lá fora dois meses antes de chegar às lojas. Portanto, as coincidências são mórbidas e entraram para a recheadíssima série de eventos e circunstâncias que envolveram o 11 de Setembro e entraram para a história com ele.

Nos Filmes

Zack Snyder é espetaculoso no que faz. Seu corpo de trabalho é recheado de histórias que mostram eventos trágicos, bombásticos e, por vezes, megalomaníacos. Seu Superman, entre outras coisas, é fruto do medo. O ato final, em que o herói interpretado pelo inglês Henry Cavill enfrenta o General Zod (Michael Shannon), mostra uma destruição como poucas vezes se viu em um filme de super-herói. Também pudera: são dois deuses brigando numa terra mundana.

No filme seguinte, o primeiro ato começa com um flashback: a destruição de Metrópolis vista pelos olhos do homem comum. Bruce Wayne (Ben Affleck) vê tudo debaixo. Prédios caindo, colegas de trabalho morrendo. Para o público, foi o 11 de Setembro acontecendo de novo. E a forma como parte da sociedade passou a ver o Superman (um destruidor) é reflexo da paranoia que passou a existir nos Estados Unidos após o atentado.

A destruição de Metrópolis vista pelos olhos de Bruce Wayne, o homem comum. Créditos: Warner Bros.
A destruição de Metrópolis vista pelos olhos de Bruce Wayne, o homem comum. Créditos: Warner Bros.
Superman enfrenta Zod em Homem de Aço, numa destruição que tomou Metrópolis como o 11 de Setembro tomou Nova York.
Superman enfrenta Zod em Homem de Aço, numa destruição que tomou Metrópolis como o 11 de Setembro tomou Nova York.

Tudo isso não é à toa. Em matéria do Telegraph lançada em 2016, o jornalista Robbie Collin lembrou algo interessante. Um dia antes do primeiro “aniversário” dos ataques, em 2002, o artista Damien Hirst disse coisas que podem soar controversas, mas não menos verdadeiras:

A coisa sobre o 11 de setembro é que é basicamente uma obra de arte por si só. Foi maligno, mas feito dessa maneira para ter esse tipo de impacto. Foi concebido visualmente. Acho que nossa linguagem visual mudou com o que aconteceu em 11 de setembro. Um avião se torna uma arma. Portanto, se eles voam perto de prédios, as pessoas começam a entrar em pânico. Nossa linguagem visual está constantemente mudando dessa forma, e eu acho que como artista você está constantemente à procura de coisas assim.

Ainda que de forma trágica ele estava certo. Afinal, a arte pode surgir (também) da tragédia (e vice-versa). Vimos isso em diversos filmes, que vão de Cloverfield aos próprios Homem de Aço e Batman vs Superman.

As imagens impactantes que vimos nesses filmes desde seus trailers só provaram como o evento permanece na mente dos americanos. Podem ter matado Osama Bin Laden em 2011, mas isso não muda a tragédia. Logo, não muda suas repercussões e o framework artístico de diretores, autores e quadrinistas. Ver Wayne correndo para o cogumelo de fumaça que se forma na queda do prédio, destroços espalhados pela cidade e, mais tarde, o Senado explodindo com o Superman dentro, só mostra uma coisa: o 11 de Setembro ainda dói.

Não vamos entrar no mérito de esse clima caber ou não nas propostas de personagens como Batman e Superman. O que importa é que o sentimento de medo, paranoia, dor e confusão permanece. Portanto, isso alimenta quem faz arte. Aliás, se mais acima vimos um evento coincidente ao ataque, aqui temos seu fruto.

Em um dia em que milhares de pessoas dentro e fora dos Estados Unidos relembram as quase 3 mil vítimas do ataque, nós mostramos que ele foi tão grande a ponto de nem o Superman escapar dele. Por bem ou por mal. O impacto humano das sequências criadas por Snyder falarão para sempre sobre o legado artístico da tragédia. E o quadrinho? Serve como prova de que eventos grandes ou pequenos possuem as mais estranhas coincidências. Basta saber olhar.

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