[#Review] The Weatherman ou (A Inexplicável Arte de Ser o Cara Errado, no Lugar Errado, na Hora Errada)

Em todos os reviews que escrevi até agora sempre utilizei o autor, como ponto de partida, para falar indiretamente sobre ele através de uma obra que, de certa forma, já conhecia. Para esse eu decidi buscar uma coisa completamente nova, um gibi que eu nunca tinha lido ou ouvido falar, de uma equipe criativa também desconhecida por mim.

Nas minhas andanças pelo ComiXology, nenhum quadrinho chamou tanto a minha atenção quanto The Weatherman (2018-), publicado pela Image Comics, escrito por Jody LeHeup, co-criador de Shirtless Bear-Fighter! (2017-2018), desenhado por Nathan Fox, um dos artistas que teve passagem no longevo título DMZ (2005-2011) da Vertigo Comics, e colorido pelo onipresente Dave Stewart. Ok, a premissa do próprio Shirtless Bear-Fighter! por si só também seria algo interessantíssimo a ser notado. Porém admito que julguei o livro pela capa. As vibrantes capas de Fox para The Weatherman foram um elemento diferenciado na hora de me vender o quadrinho. Somando isso à sinopse, foram eles que tinham conseguido me comprar facilmente.

Nathan Bright é um cara que, aparentemente, tem tudo. Uma (quase) namorada espetacular, uma golden retriever sensacional e um emprego como o Homem do Tempo número um na Marte terraformada. Mas quando ele é acusado de ser o responsável pelo maior atentado terrorista da história da humanidade, um evento que dizimou quase toda a população da Terra, Nathan se torna o homem vivo mais procurado e o alvo de uma caçada através da galáxia. Mas será que Nathan é realmente responsável por um crime tão horrendo? E por que ele não se lembra de nada?” (Localização livre, baseada na sinopse original).

Capa de The Weatherman, por Nathan Fox.

A trama começa em um tom dramático, acompanhamos duas personagens se dirigindo ao memorial de dezoito anos do atentado. Através de poucos quadros com poucas falas, é possível sentir o peso que aquele evento teve na vida das pessoas. Praticamente todo mundo perdeu alguém naquele fatídico dia, seus entes queridos se foram, mas jamais serão esquecidos.

Página de The Weatherman #1, por Nathan Fox e Dave Stewart.

É aqui que a edição se torna algo inesperado. Até esse ponto da trama não há nenhum sinal de qualquer elemento citado na sinopse relacionado ao protagonista. Até esse ponto da trama. LeHeup e Fox cortam drasticamente a dramaticidade do momento retratado no memorial para o dia seguinte em uma edição do telejornal local de Redd Bay. Estamos prestes a ver Nathan ir ao ar, mas ele não está no estúdio, na verdade ele nem se levantou da cama. A narrativa dos autores muda de tom muito rapidamente nessa primeira edição. É brusco, porém natural ao mesmo tempo. A trama possui uma cadência em camadas, em que a cada virada de página uma nova faceta é revelada.

Na maior parte do gibi há uma sensação de uma trama mundana, um leve slice of life que, mesmo se passando em 2770 em Marte, parece ser apenas o dia-a-dia de um Homem do Tempo, bon vivant, irresponsável e vaidoso. Nathan, apesar disso, é um visto como um herói para o povo. A imagem que ele transmite de jornalista boêmio, irreverente, engraçado é tida como entretenimento pelo espectador. Por mais insano que pareça, ele representa muito mais do que é mostrado em tela. Quando Amanda entra em cena, a pseudo-namorada, Nathan se comporta menos como imagem e mais como pessoa. Ele deixa suas inseguranças escaparem. O fato de se sentir confortável a ser vulnerável, e se revelar, perto dela significa algo maior.

Página de The Weatherman #1, por Nathan Fox e Dave Stewart.

A trama novamente muda de tom. A ação exacerbada entra em cena quando Nathan se torna alvo de dois diferentes lados de um conflito que ele ainda não sabe qual é. Apesar não sabemos o que eles querem ao certo, provavelmente seja a cabeça dele em uma bandeja (não dá pra ter certeza). O escalonamento de acontecimentos eleva em poucas páginas a vida de Nathan a situações extremas. A arte de Fox e a escrita de LeHeup, são duas coisas que impossivelmente podem ser desvinculadas aqui, elas funcionam muito bem como uma unidade rítmica, além das cores das cores de Stewart, claro. Que, além de um luxo, são necessárias. O colorista aplica uma vivacidade completamente inesperada, se tratando de Marte, um planeta tão monocromático. Talvez a última vez que eu tenha visto uma equipe criativa trabalhar tão sinergicamente, tenha sido no combo Warren Ellis, Declan Shalvey e Jordie Bellaire. (E eu não estou exagerando).

O quadrinho se mostrou exatamente aquilo que eu procurava, uma ideia nova, uma trama cativante repleta de mistérios a serem revelados em um ritmo frenético e inesperado muito bem executado. Tanto que ao final da edição temos uma sequência de revelações surpreendentes em meio a tiros, garfadas, uma katana atravessando um peito e nos mostrando que, talvez, Nathan seja culpado de algo afinal.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com