[Review] A origem da Marvel em Vingadores de Jason Aaron

A cronologia da Marvel se encontrava em um estado tão caótico no primeiro semestre de 2018, que muitos leitores praticamente já haviam desconsiderado os temas sugeridos pelo autor Jason Aaron na edição única Marvel Legacy naquele setembro de 2017, que seguiu o final do arco Império Secreto. O estranho intervalo de oito meses entre Legacy e a primeira edição de Vingadores de Aaron (que é uma continuação direta de Legacy) serviu para organizar a casa das ideias e dar tempo a Mark Waid e os autores Jim Zub e Al Ewing terminares suas passagens pelos títulos extras dos heróis mais poderosos da Terra na saga No Surrender. Agora livre para se divertir com os brinquedos mais caros da Marvel, Aaron começa seu primeiro arco do ponto onde Legacy deixou as coisas.

O review abaixo compreende as edições 1 a 6 de Avengers (2018) publicadas de maio a agosto de 2018.

A horda final está aqui. No primeiro arco de Jason Aaron nos Vingadores vemos duas linhas narrativas em construção. A primeira mostra a encarnação pré-histórica da equipe liderada por Odin e formada por Fênix, Agamotto, Pantera Negra, Punho de Ferro, Estigma e o “Mamuteiro” Fantasma. Eles estão lutando contra um Celestial enlouquecido. A princípio, somente mais um dia na vida dos maiores heróis do planeta. No entanto, a segunda linha narrativa da revista nos mostra as consequências dessa batalha um milhão de anos depois.

Os Celestiais estavam doentes e a morte e decomposição de uma dessas criaturas cósmicas aqui na Terra tornou o planeta um terreno fértil para a aparição da enorme quantidade de super seres que aqui habitam. Nas palavras de Loki, “a humanidade é um grande acidente cósmico nascido de morte e doença”. Agora os Celestiais estão de volta, e esta disfuncional nova equipe de Vingadores, que é formada às pressas, tem que entender e combater essa ameaça em um intervalo curtíssimo de tempo.

O elenco de Vingadores de Aaron é claramente uma demanda editorial da Marvel para reunir os heróis mais populares da editora no momento, baseado principalmente em franquias cinematográficas, com algumas inserções, provavelmente concedidas ao roteirista (estamos falando de Robbie Reyes, o Motorista Fantasma e Jen Walters, a Mulher Hulk que substitui seu primo Bruce Banner agora protagonizando um título de horror escrito por Al Ewing). Portanto, além da tríade fundamental da equipe (Capitão América, Thor e Homem de Ferro) temos aqui a Capitã Marvel, o Pantera Negra, Doutor Estranho e os já citados Mulher Hulk e Motorista Fantasma.

Os Vingadores de Aaron como equipe, são tão acidentais e improvisados quanto sua primeira encarnação lá de 1963 na revista original produzida pela dupla Lee e Kirby. Não há nenhum planejamento muito complexo na formação do time ou escolha de equipe (pra se ter uma ideia, os três membros principais começam o quadrinho em uma mesa de bar). Quem está disponível aparece em meio a uma crise maior que a vida e ajuda como pode. O resgate desse sentimento de urgência e a reunião atabalhoada e sem muita preparação pode parecer preguiçoso da parte do roteirista, porém é uma marca registrada da franquia desde sempre.

Aaron ainda precisa se acostumar com algumas dessas vozes da revista. O Pantera Negra e a Capitã Marvel, por exemplo, ainda são feitos de forma bastante genérica. O primeiro é escrito como uma espécie de Reed Richards e a segunda completamente inexpressiva em basicamente todas as suas cenas. Por outro lado personagens como Thor (com o qual Aaron tem larga intimidade), Doutor Estranho, Loki, Mulher Hulk e especialmente RobbiE Reyes e o Capitão América são especialmente divertidos de acompanhar. O Capitão América de Aaron especificamente é escrito como um senhor muito teimoso e quase caduco de 90 anos em um corpo jovem. Raramente vemos Rogers retratado de forma tão honesta e inusitada e os diálogos entre o Capitã e Loki são cenas memoráveis e muito engraçadas em meio a todo o caos do roteiro.

Em geral o arco da horda final começa muito confuso e caótico. Seu desenvolvimento torna tudo ainda mais caótico. Porém, muito mais simples de entender e divertido de acompanhar. Aaron escreve uma trama gigantesca, que remonta às origens da vida no nosso planeta e de praticamente todos os super heróis da editora. No entanto, o autor tem as ferramentas narrativas a mão para não tornar isso extremamente cansativo ou embolado para quem lê o quadrinho. As ideias, por mais esdrúxulas que possam ser, fluem de forma inteligível durante todo o arco e, tirando as caracterizações meio sem sal de alguns membros do elenco, a trama da horda final diverte e não cansa.

A arte de Ed McGuinness neste arco tem a providencial ajuda de Paco Medina em páginas cruciais para o entendimento da história. McGuinness é o nome que vende o quadrinho, porém Medina é o cara que faz as intervenções mais acertadas em todas as edições que trabalha. A divisão de arte entre os dois deixa claro que Ed tem certa dificuldade em algumas cenas com certos personagens deste elenco. E Medina compensa essas falhas com maestria a todo momento sendo o verdadeiro herói no apresentação deste arco.

Duas coisas são notadas claramente neste primeiro arco de Vingadores de Jason Aaron. A primeira é que a mão editorial vem pesada principalmente na escolha do elenco principal. A segunda é que Jason Aaron está se divertindo mesmo assim escrevendo o título. O Motorista Fantasma é o espelho do autor no quadrinho. Ele entende o que o grupo significa de maneira parcial, comete alguns erros e ainda tem muito o que caminhar para se consagrar na equipe. Porém entende a importância da franquia, e mesmo sem muita intimidade com alguns membros do elenco é honesto em seu trabalho e não foge da luta.

A horda final é um começo conturbado e com momentos de completo delírio de seu autor (espere até a edição com Thor e Mulher Hulk), mas diverte e é um passo bem ousado de um autor que se esforça para deixar sua marca em tudo que faz na Marvel.

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