[#TerraZero10Anos] A Era do “Fica bonito na Estante”

Nota do Editor: A Era do Fica Bonito na Estante está longe de acabar. Um texto que foi escrito pelo Pablo Sarmento á três continua extremamente atual, com cada vez mais material saindo de forma encadernada e luxuosa sem necessariamente precisar deste acabamento. Neste artigo podemos reviver e refletir novamente sobre um assunto que mudou a forma de se comercializar quadrinhos no Brasil e qual é o impacto dela em leitores assíduos, leitores casuais e colecionadores que não necessariamente estão interessados no conteúdo da HQ.

O Especial de 10 Anos do Terra Zero republicará alguns dos maiores textos já lançados aqui. Semanalmente, com a hashtag #TerraZero10Anos. Além disso, teremos um item no menu que redireciona para uma página com todas essas republicações. Não percam – e aproveitem para conhecer nossa história!


Dias se passaram, comigo pensando em como abordar o novo conflito editorial da moda, Estética versus Qualidade, e em como o Brasil está passando por isso nos quadrinhos, quando o assunto são os encadernados. Vejo, nos últimos meses, as pessoas pedirem mais e mais encadernados. Uma parte delas qualifica algumas dessas obras, em comentários nas redes sociais, com um vistoso “Fica Bonito na Estante”. Talvez seja o momento de conversarmos sobre isso.

A ideia de trazer HQs em formato encadernado, compilando algum arco ou evento das HQs, é muito interessante para os leitores já há algum tempo. Pensando racionalmente, a editora consegue encontrar e angariar público para a obra de um jeito mais fácil e, para o colecionador, é a melhor forma de conseguir arcos completos de alguma história que, porventura, ele não possua nas edições mensais — mas, principalmente, para organizar melhor sua coleção. De fato, o encadernado é um formato que é utilizado maciçamente em mercados como o estadunidense e o japonês, para auxiliar os leitores a catalogar suas publicações e a adquirir esses produtos editoriais com preço mais baixo do que comprando títulos mensais ou antologias (sejam elas mensais, como nos EUA, ou semanais, como no Japão ou na Inglaterra).

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No Brasil, o problema começa a acontecer quando, após bons encadernados que estão chegando as bancas nacionais, leitores cobram apenas encadernados, quase pedindo a extinção do tradicional formato mix das bancas, já que o material compilado (considerado, muitas vezes, “de luxo”) toma cada vez mais espaço nas lojas especializadas.

Dito isso, é possível chegar à conclusão de que talvez o público das revistas esteja sendo perdido, graças a uma nova forma de consumir as histórias em quadrinhos? Talvez. Creio que isso seja um problema da geração atual, que tem como hino o imediatismo.

A HQs da Marvel que estão sendo lançadas pela Salvat, por exemplo, são um achado! Creio que uma das melhores coisas que aconteceu para o mercado brasileiro de quadrinhos, há tempos. Os fãs que venderam, deram ou não conheciam algumas aventuras clássicas poderiam recuperar ou ter o prazer de finalmente ler alguns ótimos trabalhos que foram lançados pela Marvel. Porém, tal opção de formato não pode fazer o leitor desmerecer o material que sai em revistas mix, como os publicados por Panini, Mythos ou HQM.

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Explico: muitas vezes, essas revistas são a porta de entrada para muitas pessoas conhecerem títulos novos.

Comigo foi assim: comecei a comprar a revista mix Dark, da Panini, devido à publicação do Homem-Animal e do Monstro do Pântano. Eu tinha aquele pensamento: “Pô, Panini! Lança isso em encadernado direto” e, então, eis que me deparo, dentro do mix, com a ótima Eu, Vampiro e sou calado por uma qualidade imensa, já que considerei, por muito tempo, esse título o melhor que estava nas bancas do Brasil.

E aí temos o problema. Quando um opinador usa, para qualificar uma HQ, o “fica bonito na estante”, quer dizer que tudo está errado! Os encadernados precisam existir, mas talvez você leitor, não precise comprar obras com qualidade questionável, apenas para ter uma lombada super bonita na estante. A primeira coisa que vocês devem se questionar quando compram algo é: “A história é boa e vale todos os reais que vou investir nela?” Pois, quando você compra uma obra, sua primeira experiência deve ser o prazer da leitura, por um número de vezes determinado apenas por você, e não para pegar o volume e botar na estante para fins de ostentação domiciliar, junto a visitas e amigos “nerds”.

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Outra questão sintomática é o pedido de obras desconhecidas para o público brasileiro, diretamente em encadernado. Durante a tarde da última segunda-feira, dia 21, comentei sobre a excelente Liga da Justiça 3001 no meu perfil do Twitter e teve gente dizendo que a Panini deveria lançar isso direto em encadernado. Eu penso que um título como esse teria o mesmo problema de Starman e LJA, que foram lançadas em formato “de luxo” e não tiveram continuação, por conta das baixas vendas e de, na época, terem atingido um público muito pequeno. No Brasil, na minha opinião, a ideia de lançar encadernados de títulos desconhecidos ainda não funciona, por dois fatores: primeiramente, algumas revistas não vão bem das pernas nem nos EUA; depois, ainda é preciso criar demanda no país para poder vender um compilado dessas obras.

Aliado a isso, muitos estão parando de comprar edições mensais e correndo o risco de perder bons títulos que hoje só se encontra em bancas, como está acontecendo com Miracleman. A revista clássica de herói, escrita por Alan Moore (Ou ‘O Escritor Original’) está com vendas aquém do esperado e muitas pessoas falam que estão esperando o encadernado da fase clássica para adquirir. Mas, pare para pensar: que segurança a Panini teria para lançar algo nesse formato, quando nem as mensais com os extras do criador do personagem, Mick Anglo, não estão vendendo bem? E estamos falando de um título que é apenas o mais comentado e requisitado no mercado estadunidense de super-heróis há quase vinte anos!

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Creio que a Era do “Bonito na Estante” precisa de um pouco de equilíbrio. Sempre será ótimo termos encadernados do Demolidor e da Ms. Marvel chegando diretamente no Brasil, já que são séries que empilharam prêmios e podem desafogar o editorial. Entretanto, não devemos deixar revistas como X-O Manowar, Universo Valiant e Juiz Dread Megazine morrerem antes que elas consigam fazer com que mais pessoas conheçam  histórias acima da média. Isso só faz com que as editoras se arrisquem e vendam encadernados com preços inflados e de difícil acesso para a maioria dos leitores, que muitas vezes contam trocados para ler seus heróis.

Tudo é questão de equilíbrio, amigos!

#MenosOstentaçãoNaEstante #MaisHistóriasBoasNoArmário

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