[#Superman80Anos] 25 Anos da Morte de um Super-Homem: História e curiosidades

Super-Homem morreu. Você se lembra de quando isso aconteceu? Já faz 25 anos!

Há muito a se falar sobre A Morte do Superman. Não apenas sobre evento em si – ou sobre seu alcance comercial e editorial – mas também sobre a imensa diversidade de opiniões oriundas de um acontecimento que marcou a história do maior super-herói de todos os tempos.

Este artigo, que faz parte da celebração de 80 anos do herói, é uma reedição do texto original publicado em 2013, com novas informações e curiosidades. A Morte do Superman (ou A Morte do Super-Homem, se preferirem) completou 25 anos de vida em 2018. Até ganhou uma nova animação adaptando uma parte da história (a outra parte sairá no ano que vem) e um novo quadrinho que se passa no universo animado. Louise Simonson, que fez parte da Morte original, o escreve.

Obviamente a grande maioria dos nossos leitores conhece bem essa história. Portanto, o artigo trará algumas observações sobre o que houve no mundo real em relação ao mundo ficcional das revistas.

O lançamento original de Morte e Retorno do Super-Homem, feito pela Editora Abril nos anos 1990.
O lançamento original de Morte e Retorno do Super-Homem, feito pela Editora Abril nos anos 1990.

O planejamento e a História

A história todo mundo conhece: a “super-equipe”, então formada pelos artistas Jon Bogdanove, Louise Simonson, Jerry Ordway, Dan Jurgens, Karl Kesel, M.D. Bright, Tom Grummett e Jackson Guice – todos liderados pelo editor Mike Carlin – precisavam de algo que chacoalhasse as estruturas do Homem de Aço e dos quadrinhos de heróis em geral. Pouca gente sabe, no entanto, que os lendários Neil Gaiman e Matt Wagner estavam planejando algo semelhante entre eles. Mas seria uma história fora da cronologia.

Em uma antiga entrevista ao CBR, Gaiman contou que “a história teria aquele feeling dos desenhos dos Estúdios Fleischer. Haveria um outono, um inverno (com o Superman morto) e um renascimento na primavera”. Isso colocou Gaiman e Carlin em contato direto. Acabou ficando combinado que a ideia de Gaiman seria enterrada, pois o plano de Carlin era muito maior – e passível de mais lucros para a DC. Engana-se quem acha que o escritor inglês ficou triste:

O projeto foi cancelado por Mike Carlin pela melhor razão possível. Ele queria o Superman de verdade morto. Queria que a verdadeira equipe cuidando do herói recebesse a glória e os royalties, não dois caras que chegassem com uma história e fossem embora do nada. E sinceramente nunca achei ruim. Pelo contrário!

[Nota: Curiosamente o projeto de Gaiman era baseado em estações. Poucos anos depois, a premiada dupla Jeph Loeb e Tim Sale fizeram a clássica Superman – As Quatro Estações. Mas esse papo fica para outra ocasião.]

super morte
Capa do volume encadernado mais recente da obra. Foi usada no Brasil também.

Originalmente, o plano era casar Lois e Clark, o que acabou sendo um pouco atrasado devido a recém estreada série de TV. Logo, a saída foi aceitar a sugestão de Ordway e alguns outros. “Vamos matá-lo!” era a frase das reuniões. Explicando, quando Carlin era editor de toda a linha do Superman, ele e todos os profissionais que trabalhavam nessas revistas (incluindo até letristas) faziam retiros anuais para discutir planos para o herói.

Carlin então começou a se encontrar com mais regularidade com todos estes artistas para planejar o acontecimento. O editor não queria simplesmente matar um ícone, mas também mostrar como a repercussão seria bombástica no universo fictício dos quadrinhos e como ele voltaria em seguida.

Dan Jurgens contou anos depois que o objetivo principal da equipe era fazer com que a história fosse divertida. Ainda que o aspecto emocional fosse um dos alicerces da construção desta trajetória, o núcleo de tudo isso era o bom entretenimento. Se a história não entretesse, a maior decisão editorial dos quadrinhos de heróis já tomada até aquele momento seria um fiasco completo. Mas não foi.

Onde tudo acabou. Só que não.
Onde tudo acabou. Só que não. Arte de Dan Jurgens e Brett Breeding.

Todas as equipes trabalhavam com muito afinco e coerência entre si para que a batalha entre o monstro alienígena e o herói tivesse motivação. Muitos fãs reclamaram que era um absurdo ver um grande símbolo como o Superman lutando de forma brutal com um monstro descerebrado. Porém, as páginas finais da edição deram nós nas gargantas de todos. A volta do ícone era garantida, é claro, mas naquele momento ele tinha partido “para sempre”.

Morte do Super-Homem. Arte de Dan Jurgens e Brett Breeding.
Morte do Super-Homem. Arte de Dan Jurgens e Brett Breeding.

Coerência de um time bem liderado

Carlin fez com que as equipes sob sua liderança trabalhassem com muito cuidado para que convergissem no objetivo corretamente. Jurgens e os outros lembram de Carlin como um dos melhores editores de quadrinhos de todos os tempos, dada a sua capacidade de gerenciar equipes, crises e ideias.

Dan Jurgens mandando bem no aspecto promocional da história.
Dan Jurgens mandando bem no aspecto promocional da história.

O autor contou em diversas entrevistas que o mais importante deste trabalho não foi a pré-morte ou a morte em si, mas sim o que veio depois. Jurgens relembra que a criação para o arco Funeral para Um Amigo foi um dos melhores trabalhos de todos os envolvidos. Deu mais fôlego à repercussão da partida do Superman nos mais diversos âmbitos do universo ficcional.

Zilhões de revistas vendidas e publicidade universal

Carlin brincou em 1993 que se Madonna adotasse um novo filho, a notícia passaria despercebida perto da repercussão da Morte do Superman. E é verdade. Foi a primeira vez que jornais internacionais, inclusive brasileiros, tratavam o acontecimento com a seriedade de um evento do mundo real. Houve uma grande fusão entre o real e o fictício, fazendo a DC colocar no inconsciente coletivo que o falecimento do Superman era algo relevante para a sociedade.

No Brasil, salvo engano, a notícia foi dada pela tépida voz de Cid Moreira no Jornal Nacional, expandindo-se para o resto dos veículos jornalísticos nacionais em seguida. A Editora Abril decidiu que a história deveria sair no Brasil o mais cedo possível, deixando a cronologia pra trás para publicar um especial de capa fúnebre em 1993, contendo as principais partes do acontecimento.

Estavam lá a chegada de Apocalypse, a grande batalha com a Liga da Justiça e espetacularmente desenhada Superman #75. Dan Jurgens, autor e desenhista do título homônimo do herói, queria que a batalha final entre o mocinho e o monstro fosse toda com páginas inteiras, sem separação de quadros, aproveitando uma história de fins comerciais para inovar, ainda que pouco, a forma.

Versão especial de Superman #75 cheia de bugigangas.
Versão especial de Superman #75 cheia de bugigangas.

Superman #75 representa uma época em que homens de aço caminharam pela Terra e gibis venderam milhões.

O outro lado da repercussão

Foram milhões de unidades vendidas, milhões de opiniões formadas e muito, mas muitos milhões de dólares para os cofres da Warner. O que quase ninguém viu – e ainda não vê até hoje – é que este foi o último boom do ciclo de eventos que permeia os quadrinhos de heróis desde sempre. Pouco antes disso, é claro, foram os X-Men de Chris Claremont e Jim Lee.

A trilogia Calmaria/Tempestade/Calmaria formada pela chegada de Apocalypse e pela morte e ressurreição do messiânico herói encerrou de vez o interesse popular pelos quadrinhos de heróis até, provavelmente, a morte do Capitão América em 2007. E mesmo com este interesse emergindo de tempos em tempos com a cobertura da mídia não especializada, nada vendeu tanto depois desta morte icônica [Nota: acredita-se que Superman #75, edição com a morte do herói, tenha vendido 3 milhões de cópias].

Naquela época, um certo Joe Quesada ainda não tinha entrado na DC, mas ele já fazia parte da indústria. Conversando também com o CBR anos atrás, ele afirmou que à época, ouvira murmurinhos apontando para um total despreparo da editora para o tamanho da receptividade do evento. A afirmação pode muito bem ter sido uma forma de Joe brincar com a receptividade fantástica da Marvel quando o Capitão se foi. De qualquer forma, ele estava errado.

Olhaí um Superman desenhado pelo Joe Quesada. É desse ano!
Olhaí um Superman desenhado pelo Joe Quesada. É desse ano!

Para se ter uma ideia do quanto a editora estava preparada, o evento foi anunciado secretamente para as comic-shops americanas um ano antes de realmente acontecer. Ou seja, no início de 1992. A edição da morte em si, Superman #75, teve nada menos que quatro reimpressões, todas seguidas umas das outras para suprir a demanda.

O que Quesada pode ter dito nas entrelinhas, e isto sim faz muito sentido, é que não importa o quanto a DC estava preparada – o Superman, e qualquer coisa que aconteça com ele, sempre foi e sempre será muito maior que a editora.

De lá pra cá a indústria tentou encurtar ainda mais seu ciclo de eventos. A própria DC aproveitou a onda para quebrar a coluna do Batman, enlouquecer Hal Jordan e outras mudanças de status quo que acabaram sendo tiros n’água. Foi então que se estabeleceu uma proporção inversa entre os acontecimentos e o sucesso – enquanto o início de um determinado evento conseguia, no máximo, atrair a atenção de alguns ex-leitores além daqueles consumidores regulares, o final já estava vendendo muito menos.

13718927ª tentativa de bombar o Superman depois da morte. A capa americana brilhava no escuro.
13718927ª tentativa de bombar o Superman depois da morte. A capa americana brilhava no escuro. Arte de Dan Jurgens.

A verdade é que foram muitos os heróis que morreram depois que o maior de todos faleceu, mas nenhum repetiu seu feito e quase todos voltaram à vida.

Sendo mais otimista, é bem interessante perceber o interesse das pessoas no maior escoteiro do mundo numa época em todos os heróis eram sombrios, violentos e cheios de atitudes controversas. Ainda que fosse para vê-lo morrendo, as pessoas quiseram estar com o Superman mais uma vez, como anos antes, nas salas de cinema.

O Legado

A Morte do Superman continua sendo reimpressa até hoje. Lá fora e aqui. Mais que isso, os personagens que surgiram com ela tornaram-se parte importantíssima da DC, a ponto até de terem suas próprias revistas saindo disso. Foi daí que nasceram o novo Superboy e o Aço. Ainda que este último permaneça na cronologia até hoje, o anterior ainda não deu as caras após o Renascimento da DC. Mas o Apocalypse sim, assim como o Superman Cyborg. O Erradicador chegou a ter minissérie própria lá fora (inédita aqui) e diversas releituras. A mais recente foi no início do Renascimento, em histórias de Peter Tomasi e Patrick Gleason.

E não foi só isso.

A própria Morte do Superman teve releituras oficiais. Logo de cara podemos falar da nova versão, que é ligada à animação recém-lançada. Ela é produzida por Louise Simonson, Cat Staggs e outros artistas. É um quadrinho digital, que será reunido em papel mais adiante.

Há também a versão Novos 52 dela, feita por Greg Pak e Brett Booth. Aconteceu em 2013, quando a história original completou 20 anos. Naquela ocasião a editora comemorou o segundo aniversário do relaunch com um “mês dos vilões”. Todas as edições lançadas naquele mês foram dedicadas a vilões. Na revista focada no Apocalypse (Batman/Superman: Doomsday #003.1) rolou a “nova morte”. A história original foi recontada ou, como o Bleeding Cool falou, foi “filtrada” para caber nos Novos 52. Vejam só:

A Morte do Super-Homem versão Novos 52. Arte de Tony Daniel.
A Morte do Super-Homem versão Novos 52. Arte de Tony Daniel.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.
Página da nova morte do Superman. Arte de Brett Booth.

Num apanhado geral, mesmo 20 anos depois, A Morte ainda hoje é a história mais lida do Superman, além de ser provavelmente a mais conhecida. Dan Jurgens e seus companheiros podem não ter atingido o status de estrelas do entretenimento, mas ainda assim são reconhecidos por um pouco mais de gente que os leitores típicos de revistas.

Vale dizer, antes de finalizar, que este legado é universal, mas há também o aspecto pessoal de cada leitor. O Terra Zero convida então cada um dos leitores desta matéria a compartilharem como conheceram a história, o que sentiram quando a leram e o que pensam dela hoje. O espaço é de vocês!

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