[#Entrevista] Exclusivo: Editor da Mythos fala sobre a nova Heavy Metal!

A Mythos Editora está trazendo de volta ao mercado nacional uma revista mix chamada Heavy Metal. Mas quem acha que esta é aquela Heavy Metal Magazine, hoje editada por Grant Morrison e inspirada na francesa Metal Hurlant, está enganado. Trata-se de uma publicação com material selecionado pela Mythos que traz apenas o nome (e, segundo a própria editora, o espírito) da publicação mais conhecida.

O editorial da primeira edição procura deixar claro a distinção entre tudo isso e estabelece a nova Heavy Metal como uma alternativa ao que se tem em banca hoje em dia. Para saber mais sobre a publicação e entender como a Mythos está lidando com o material e com a resposta dos fãs, conversamos com o editor Julio Oliveira, que esclareceu diversos pontos, como a seleção de material, as polêmicas envolvendo o nome da revista e a recepção do público.

(Agradecimentos a Delfin e Leandro Damasceno)

Capa da nova Heavy Metal brasileira. Arte de Clint Langley.
Capa da nova Heavy Metal brasileira. Arte de Clint Langley.

Terra Zero: Antes de mais nada, o que motivou a criação deste título?

Julio Oliveira: Acreditamos que o mercado brasileiro está decididamente carente de uma boa seleção de quadrinhos de fantasia, ficção científica e aventura, algo além dos super-heróis. Isso é parte de uma proposta mais ampla da editora de trazer materiais diferentes do convencional, como o quadrinho francês, ou versões para livros de personagens como Hellboy, ou materiais que estão programados mas ainda não saíram como Lost Girls e Brighter Than You Think do Alan Moore.

Como se deu a seleção do material que o compõe?

A seleção do material foi calcada em dois critérios: artes vistosas e diferentes, e roteiros interessantes dentro desse universo de materiais de sci-fi e fantasia. Inclusive o material chega até ter uma pitada de erotismo, como é clássico do esperado de uma seleção para um público adulto. Sláine é uma espécie de anti-Conan, um bárbaro feminista, mensageiro da Mãe Terra. Guerreiros ABC envolve mechas e histórias de guerra, e é cheio de reviravoltas. Contos de Telguuth, embora seja um universo de fantasia, é muito mais cruel do que o tipo planeta mágico convencional. Já Mundo dos Labirintos procura uma arte mais realista e não deixa claro o que é realidade e o que pode ser delírio.

Como tem sido a receptividade até agora?

Quem viu o material, no geral se encantou, temos recebidos muitos elogios. Há uma pequena parcela de leitores que “não leu e não gostou”, mas tudo indica que eles são a minoria.

Inevitavelmente as pessoas lembram-se da clássica Heavy Metal quando veem este título à venda. Como vocês estão lidando com isso?

Nossa identidade visual é bem diferente, incluindo o logo e acreditamos que fizemos um produto razoavelmente distinto. Nossa esperança é que a pessoa ao ler a revista, descubra histórias que cativem e despertem interesse por suas continuações e acredito que a escolha dos materiais foi criteriosa o suficiente para isso. No mais, estamos seguindo um estado de espírito diverso da publicação da Heavy Metal que já saiu no Brasil, mas irmanado a ele.

Capa da Heavy Metal Magazine de junho de 1979.
Capa da Heavy Metal Magazine de junho de 1979.

Aliás, o que você pode nos contar sobre lidar com os fãs mais fervorosos, que estão incomodados com o fato de esta Heavy Metal não trazer material da revista original?

Dizem que quando você tem haters, isso significa que você conseguiu alcançar todo o espectro de pessoas possivelmente interessadas na sua publicação: você alcançou seu público fiel, o público indiferente que não conhece seu material e por fim aqueles que por um motivo ou outro tem uma reação tão visceral que torcem pelo seu fracasso.

A verdade é que esse público incomodado com o fato de que não trouxemos a Heavy Metal americana é talvez os nossos maiores divulgadores e um dos fatores mais cruciais para o nosso sucesso. Então, na maior parte, estamos lembrando que nossos teasers eram vagos, mas nunca prometeram o que eles esperavam, não houve má fé… a revista só ficou à venda quando explicamos seu conceito e apresentamos devidamente seu material. A Heavy Metal americana hoje em dia tem pouco a oferecer do próprio espírito pelo qual ela é conhecida: boa parte do material que a tornou famosa são publicações francesas aos quais eles não tem mais direito e que nunca foi nosso interesse em trazer, ao menos nesse primeiro momento. A intenção era trazer materiais inéditos, inovadores e não trazer pela terceira ou quarta vez A Saga dos Metabarões.

Por que não usar o nome 2000AD, que é uma marca também conhecida pelas pessoas que conhecem a marca Heavy Metal?

Porque isso seria limitador. A 2000AD tem materiais excelentes e pretendemos trazer novos materiais deles, mais ousados do que trazemos no passado, mas também queremos trazer materiais de outras editoras (estamos já sondando algumas delas… dedos cruzados!), bem como possivelmente material nacional. A nossa parceria de longa data com a Rebellion nos ajudou na hora de lançar essa primeira temporada teste, e trouxemos coisas bem diversas do espírito da Juiz Dredd Megazine (mesmo o Sláine, que figurou nesses dois títulos, foi pego de momentos e um feeling bem diverso da primeira publicação).

No mais a 2000AD pode ser uma marca conhecida por aqueles que conhecem a marca Heavy Metal, mas não traz nada para aqueles que não conhecem nenhuma das duas marcas. Enquanto que Heavy Metal traz em si uma ideia de rock pesado, de rebeldia, que são facilmente compreensíveis mesmo por quem nunca leu nenhum quadrinho e que nós fizemos questão de incorporar na nossa publicação. Já a marca da 2000AD, nós como a única editora que traz materiais dela aqui no Brasil, temos um enorme apreço, mas sabemos que ela inspira uma ideia de um material de nicho, mais hermética, e pouco acessível ao público comum. O material da 2000AD é incomparável e como possivelmente a revista semanal de quadrinhos mais longeva do Reino Unido, é um verdadeiro tesouro que nem mesmo uma ínfima fração foi devidamente explorado pelo mercado brasileiro.

O press-release da revista afirma que a escolha do nome veio, também, motivada por uma vontade de celebrar o espírito da Heavy Metal original. Vocês acreditam que alcançaram isso? Por quê?

Sim, acreditamos que no mínimo estamos bem encaminhados. A Heavy Metal original era uma revista inovadora, trazendo materiais nunca vistos pelo público americano. Parte do motivo que a nossa Heavy Metal não tem nenhum material clássico foi uma tentativa de celebrar o novo, que é o verdadeiro espírito da Heavy Metal ou da Metal Hurlant (e que eu diria que, dadas algumas exceções a própria Heavy Metal Magazine teria dificuldade de afirmar que faz isso… mesmo o material sob curadoria do Grant Morrison é, em grande parte, muito semelhante a fase dele em Os Invisíveis ou outra de suas obras mais psicodélicas, mas bem conhecidas de seu público). Os direitos do material do Juan Giménez estão disponíveis pela Glénat ou pela Humanoids, mas nem por isso achamos que olhar para esse passado tão conhecido fosse o caminho… embora não descartemos a possibilidade de trazê-los no futuro).

O editorial da primeira edição revela que Heavy Metal é um estado de espírito. O que isso significa para os quadrinhos?

Acredito que mais publicações de quadrinhos precisam se posicionar como defensoras de um estilo, uma estética ou uma filosofia. A antologia ou o mix só vai sobreviver nesse mundo de materiais encadernados se ele tiver uma proposta muito bem definida e que agrade ao seu público. Seja um suprassumo do “massavéio”, uma coletânea de ficção científica de desgraçar a cabeça ou uma série de contos de horror de esbranquiçar os cabelos, o caminho é tentar ao máximo apresentar um conteúdo onde mesma a história que agrade menos a um leitor em particular ainda seja reconhecida como um material forte por ele.

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