As perdas da Dark Horse e o mistério econômico das HQs licenciadas

Nos últimos quatro anos vimos a gigante independente Dark Horse perder três das maiores licenças que tinha: Star Wars, Conan e Buffy – A Caça Vampiros. Eram produtos licenciados com os donos das respectivas marcas. Star Wars? É da Disney há algum tempo. Conan? Pertence a uma empresa própria, a Conan Properties international LLC. Já a Buffy é da Fox (que muito em breve será Disney).

É verdade que a Dark Horse possui uma quantidade grande de publicações autorais que garantem sua sobrevivência na indústria, mas tomar um golpe desses não é pra qualquer um. Aliás, três golpes!

Mas como funciona a indústria do licenciamento de marcas para produção de quadrinhos? Será que era tão vantajoso assim deter direitos de publicar sob estas licenças? Será que outras editoras, como IDW Publishing e Dynamite Entertainment, que investem pesado nesse tipo de quadrinho, passam pelos mesmos perrengues?

Nenhuma dessas perguntas tem uma resposta fácil, como veremos a seguir.

Logotipo da Dark Horse.
Logotipo da Dark Horse.

HQs Licenciadas

Antes de mais nada é preciso esclarecer o que são HQs licenciadas.

Quadrinhos de Arquivo X são licenciados. A marca pertence à Fox e ela cede os direitos. Mediante um acordo que deve ser renovado de tempos em tempos (com publicações de material inédito e relançamentos), a IDW tem a permissão de manter com ela tudo que é relacionado a quadrinhos da série. Ou seja, vai ter algum gibi novo de Arquivo X? É pela IDW que ele vai sair. O mesmo vale para as HQs de G.I. Joe, uma das franquias em que a IDW mais investiu nos últimos dez anos.

O caso de Injustiça: Deuses Entre Nós é completamente diferente. Ainda que seja um jogo de videogame, a marca pertence à Warner/DC Entertainment, assim como a propriedade do quadrinho. Da mesma forma, as Tartarugas Ninja estão sob o guarda-chuva da Nickelodeon, mas a posse delas continuam com seus criadores, que trabalham de igual para igual com a IDW para lançar material inédito por lá. Já no caso de Conan com a Dark Horse, foram quase 20 anos de acordo entre a editora e a Conan Properties International LLC. Agora tudo foi transportado de volta para a Marvel, que lançou os primeiros quadrinhos do cimério entre os anos 1970 e 1990.

Capa do encadernado importado de Conan: Nascido no Campo de Batalha, um dos marcos do personagem na Dark Horse. Arte de Greg Ruth.
Capa do encadernado importado de Conan: Nascido no Campo de Batalha, um dos marcos do personagem na Dark Horse. Arte de Greg Ruth.

Uma outra coisa importante de se estabelecer é quem tem os direitos do que é feito. Nada ficam com os criadores dos quadrinhos, no sentido de que se um filme de Transformers se basear em uma HQ deles, quem a criou não receberá por isso. Às vezes o trabalho desta mídia nem é considerado cânone na franquia. Apesar de Larry Hama ser o nome mais associado a G.I. Joe, graças a todo o trabalho que fez (e ainda faz), a Hasbro é que manda na marca e nos produtos que saem com ela. Entendam: Hama criou um universo de verdade para estes bonecos. Os transformou em personagens tridimensionais e deu vida a aventuras atemporais para todos eles. Mas nada disso fica com ele em termos financeiros – G.I. Joe é da Hasbro. Ponto.

Portanto, se um dia houver uma migração da marca, tudo que foi feito pela IDW de dez anos pra cá será automaticamente transportado para nova editora. Isso aconteceu duas vezes com os G.I. Joe, aliás: quando foram da Marvel para a Image e desta para a IDW. A partir do momento que a detentora da marca decide que outra editora cuidará deste tipo de produto (quadrinhos “spin-off” ou licenciados), tudo vai pra ela. Logo, esta nova casa poderá gerar material próprio, reimprimir material antigo ou recriar tudo como se o que foi feito na antiga editora não tivesse existido

Isso incomoda alguns profissionais da indústria, como Eric Stephenson, editor da Image. Na visão dele, trabalhar em títulos assim mina a capacidade criativa dos profissionais envolvidos. Durante uma reunião com lojistas na ComicsPRO, anos atrás, Stephenson declarou:

Falamos em ser obcecados com a expansão de nosso público, mas se publicar as versões menores dos desenhos animados, brinquedos e programas de TV favoritos das pessoas for o melhor que podemos fazer, estaremos fadados ao fracasso. Simplesmente reenquadrar o trabalho de outras mídias como quadrinhos é a pior representação possível da nona arte.

Podemos convidar os leitores a inovar conosco, mas redirecionar as ideias de outras pessoas como histórias em quadrinhos não é inovação – na melhor das hipóteses, é imitação, e todos somos muito melhores do que isso. As pessoas visitam as lojas de quadrinhos em busca de conteúdo original, porque é o que fazemos de melhor. Elas não estão buscando versões em quadrinhos de coisas que são feitas melhor em outras mídias.

Quadrinhos de Transformers, G.I. Joe e Star Wars nunca serão a coisa real.

Capa de G.I. Joe #1 por Cliff Chiang.
Capa de G.I. Joe #1 por Cliff Chiang.

São argumentos válidos. Não é interessante para a economia da indústria e para seus profissionais que a quantidade de quadrinhos licenciados cresça exponencialmente. Tudo deve ser equilibrado. Produtos assim custam mais caros para as editoras e geram menos lucros. Por quê? Porque as vendas são limitados a nichos específicos, que talvez nem consumam quadrinhos regularmente. Veremos mais sobre isso a seguir.

Aspectos Econômicos

Acredita-se que quadrinhos licenciados custem mais caro de ser produzidos que quadrinhos de linha ou autorais. Faz todo sentido. A partir do momento que a editora precisa pagar alguém apenas para ter o direito de publicar algo, o custo aumenta. Só que não é bem assim. O número de gibis licenciados aumentou da década passada para cá. Espalhados por editoras como IDW, Dynamite, BOOM!, Titan, Dark Horse, Archie e algumas outras (incluindo a Marvel), podemos citar logo de cara coisas como: Arquivo X, Power Rangers, Doctor Who, Red Sonja, Conan, Star Wars, Star Trek, Hora da Aventura, Robocop, Transformers, De Volta para o Futuro, Dirk Gently, Caça-Fantasmas, Sonic, Megaman… Ou seja, existe uma infinidade de produtos para fãs de, bem… Tudo!

Mas isso dá certo para as editoras?

Se elas continuam publicando este tipo de material, algum retorno devem ter, correto? Mesmo que seja baixo. Tomando como exemplo as vendas do mês passado lá fora, a estreia da nova HQ da Elvira a colocou na 89ª posição do Top 500. Contudo, trata-se da primeira edição, de uma nova revista. Uma HQ licenciada que já está em andamento fica mais abaixo, como é o caso dos Power Rangers. A 29ª edição de sua revista mensal lançada pela BOOM! ficou em 113º lugar na lista.

São números modestos. Mas e no caso de um Transformers da vida, que está circulando há um bom tempo? As coisas são ainda mais curiosas.

Atualmente, a IDW, que licencia os direitos dos robôs há alguns anos, está publicando a série Transformers: Lost Light. Em julho ela chegou à 19ª edição, que é escrita por James Roberts e desenhada por E.J. Su. E é aí que está o segredo da sobrevivência de títulos assim: talentos que não custam tão caro. Roberts ainda é novo no campo e trabalhou majoritariamente com essa franquia. O mesmo pode ser dito de Su, que é de Taiwan, e é ainda mais desconhecido.

Como se isso não bastasse, essas editoras costumam oferecer materiais mais baratos para os artistas trabalharem. Explicando, empresas como Marvel e DC costumam dar aos artistas as páginas originais em que eles desenharão. Elas têm o formato padrão A3. No caso de editoras como IDW e Dynamite, o papel é menor e o material é mais barato. Tudo para economizar no custo, já que também há uma licença a ser paga.

Isso dito, devemos ressaltar que quando um título novo de franquia vai surgir, as editoras tentam apostar na empolgação dos fãs apaixonados para construir alguma coisa frutífera e economicamente viável. Foi o que aconteceu com G.I. Joe quando a mesma IDW assumiu os direitos de publicar novas e antigas histórias por volta de 2008/2009. Ou com a Dynamite, quando negociou os direitos do Besouro Verde mais ou menos na mesma época, e do Cavaleiro Solitário um pouco antes. De repente tínhamos, respectivamente, Mike Costa e Chuck Dixon, Kevin Smith, Sérgio Cariello e John Cassaday envolvidos neste tipo de quadrinho. Nomes de peso!

O Cavaleiro Solitário de John Cassaday.
O Cavaleiro Solitário de John Cassaday.

Porém, quando as vendas começam a cair ou os projetos chegam ao fim – e as licenças precisam ser extendida com novas HQs – profissionais super novatos ou com menos renome acabam sendo contratados para substituir medalhões. As histórias tendem a ficar menos interessantes. Essa dança de cadeiras afeta até o editorial, que coloca profissionais menos custosos para gerenciar os futuros lançamentos. Ou seja, a linha inteira de produtos licenciados com aquela editora começa a ser canibalizada e só os fãs muito hardcore ainda os consomem. Vou citar um caso como exemplo: o meu.

Minha experiência com HQs licenciadas

Sempre tive muito apreço por G.I. Joe. Amava os poucos bonecos e veículos da coleção que tive na infância, assim como o desenho animado exibido na Globo. Contudo, só pude ter contato com os quadrinhos da franquia já adulto. Meus pais não tinham grana pra comprar gibis pra mim com regularidade e quando as coisas deram uma melhorada, já não existia mais G.I. Joe (ou Comandos em Ação) nas bancas brasileiras. Sendo assim, quando fundei este site e comecei a ter mais contato com a indústria lá fora, fiquei surpreso ao saber que ainda havia gibis dessa galera. Muitos! De editoras diferentes!

Estava rolando a transição da Image/Devil’s Due Publishing para a IDW e Chuck Dixon se mostrava como o grande nome da vez à frente da franquia. A nova editora criaria uma cronologia própria, que não mexeria na clássica – esta, aliás, voltaria logo em seguida, com o próprio Larry Hama no comando. Pouco depois soube do Besouro Verde com a Dynamite. Esta era uma editora em que eu já estava de olho e ter nomes como Kevin Smith e Alex Ross envolvidos na nova HQ só me deixou mais curioso para conhecer o herói pulp. O sucesso da estreia foi tamanho que a Dynamite encomendou um Year One do herói. Quem estava no comando da minissérie? Matt Wagner!

O Besouro Verde de Kevin Smith em arte de Alex Ross.
O Besouro Verde de Kevin Smith em arte de Alex Ross.

Não demorou para eu perceber que havia uma ligação familiar entre Besouro Verde e Cavaleiro Solitário. Portanto, fui atrás de conhecer este herói do velho-oeste também. Descobri que ele acabara de ganhar um revival, com Brett Matthews (roteirista de Hollywood, com Buffy, Angel e Firefly no currículo), o brasileiro Sérgio Cariello (fazendo arte interna) e John Cassaday (apenas nas capas). Estava ficando claro pra mim que esses produtos licenciados não eram uma indústria a ser ignorada. Os talentos envolvidos com eles eram grandes demais! Isso não durou muito tempo.

Logo essa galera ficou cara e buscou projetos mais interessantes. Hoje em dia Cavaleiro Solitário e Besouro Verde mal se sustentam. Têm uma minissérie aqui e ali. Novas tentativas de revitalizar a marca. Mas nada com o brilho do que foi feito anteriormente. O mesmo vale para G.I. Joe. A franquia só sobrevive graças ao incansável Hama, que está chegando aos 70 anos de idade e logo deve parar.

Capa de Transformers: Unicron #1 por Alex MIlne.
Capa de Transformers: Unicron #1 por Alex MIlne.

Sendo assim, fui perdendo interesse nesse material. Guardo tudo que foi feito no passado com muito carinho. Tenho lá na minha estante volumes luxuosos dessas fases áureas, lidos e relidos. Sei que vai demorar para algo tão bacana surgir novamente nessas franquias.

Para finalizar, vejam que interessante. Acima citamos a atual série dos Transformers, certo? Pois vejam só: em agosto estreou uma nova! Transformers: Unicron foi escrita pelo faz-tudo John Barber, que é autor de várias séries da marca e editor-chefe dela também. Sua primeira edição ficou na 153ª posição no ranking de vendas. Ou seja, vendeu apenas o necessário para continuar existindo por mais alguns meses e manter a marca com a IDW – o que, no fundo, deve ser o objetivo dela.

Como consumidor, não quero comprar um produto de um autor cujas credenciais não conheço. É preferível comprar, por exemplo, Power Rangers, que tem o ótimo Kyle Higgins escrevendo. Mas para o fã de Transformers, que quer e pode ter tudo o que for possível da marca – e essa é uma parcela minúscula de consumidores -, a nova HQ sana sua necessidade. Agora, quer saber o que é mais importante para uma editora numa situação dessas? Um quadrinho como esse pode ser responsável pelo leitor ter contato com seu catálogo de material autoral. É aí que está o pulo do gato.

O Caso Dark Horse

Então chegamos à Dark Horse. Não se enganem: ela fez um nome pra si publicando coisas além de marcas licenciadas. Hellboy, Concreto, Grendel, Goon, MIND MGMT, Black Hammer… Esses são só alguns nomes, antigos e novos, de coisas que marcaram a história da editora. Mas não podemos negar: é muito fácil associá-la a Star Wars, Conan, Buffy, Exterminador do Futuro, Alien e Predador. Essas marcas geraram quadrinhos de muito sucesso nos últimos 25 anos de existência da empresa. Como ignorá-los?

Mais interessante do que publicar esses quadrinhos, foi ter construído um universo para eles. Quantos anos passamos falando que o universo expandido de Star Wars da Dark Horse era uma das coisas mais legais feitas com a franquia? Por ele passaram excelentes criadores: Brian Wood, Alex Ross, Tom Veitch, John Wagner, Timothy Truman, John Ostrander, Mike Baron… Apenas para citar alguns. Tudo isso rendeu muito dinheiro e reconhecimento para para a editora.

Terminator One-Shot, um dos maiores sucessos da Dark Horse nos anos 1990.
Terminator One-Shot, um dos maiores sucessos da Dark Horse nos anos 1990. Só foi lançada no Brasil em 2001, pela Mythos.

Em plenos anos 1990, quando ela estava se estabelecendo no mercado, ninguém menos que James Robinson e Matt Wagner foram contratados para fazer o especial Terminator: One-Shot, lançado em 1991, ano em que o segundo filme chegou aos cinemas. Foi um sucesso tremendo lá fora! Esse tipo de coisa valoriza o quadrinho licenciado, pois o tira do “gueto” e dá visibilidade para quem o publica.

Star Wars e Buffy são muito parecidos. Em ambos os casos a editora teve liberdade para produzir material inédito, que coubesse na cronologia da franquia. Se em uma era necessário ir muito ao passado ou muito ao futuro, com pequenas vírgulas cronológicas pontuais entre os filmes, para se produzir novas histórias, na outra foi criada uma nova forma de expandir universos: continuação de temporadas. Buffy era uma série de TV que durou 7 anos. Portanto, os futuros quadrinhos saíram como temporadas 8, 9, 10… E com grandes nomes envolvidos: Joss Whedon (criador da personagem), Brian K. Vaughan, Georges Jeanty e Brad Meltzer.

Para Conan, a Dark Horse também se preparou bem. Colocou o premiado Kurt Busiek logo de cara para criar novas histórias, além de trazer de volta Roy Thomas e outros grandes nomes que marcaram a trajetória do cimério. Ou seja, foram grandes investimentos, mas que deram retorno – ou a editora não teria ficado com essas licenças por tanto tempo.

A questão é que a Dark Horse foi esperta desde o começo. Ela abriu as portas de sua casa para que autores produzissem material próprio desde o começo. Sabendo que licenças não duram para sempre, ela poderia ter à disposição seu próprio catálogo de lançamentos e relançamentos. Sendo assim, os golpes que ela sentiu nos últimos anos foram duros mas nem tanto. Agora ela pode partir de vez para um caminho mais autoral e continuar tentando bater de frente com a maior editora que publica quadrinhos neste formato: a Image.

Os próximos meses serão definitivos para a Dark Horse e o lado independente da indústria norte-americana. É agora que ela deve mostrar por que é uma empresa tão importante no meio, publicando quadrinhos diferenciados e analisando propostas de grandes criadores. É o que faz a diferença na Image. Pode fazer para eles também.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com