[#Review] Império Secreto, da Panini Comics – Primeira Parte

Nota do Editor: Império Secreto chegou ao Brasil em junho! A grande saga da Marvel deste ano – e uma das mais polêmicas da história da editora – divaga sobre um cenário em que o Capitão América traiu os ideais pelos quais foi criado e transformou o mundo em uma terra distópica e fascista. Crítica ao estado atual dos Estados Unidos e polêmica por mostrar um símbolo do país indo “para o outro lado da força”, a obra de Nick Spencer gerou o alarde desejado pela Marvel.

Conforme ela foi lançada lá fora, nosso redator e marvete de plantão Igor Tavares fez resenhas super detalhadas de cada edição. Agora que a saga chegou no Brasil, vocês podem conferir os textos originais preparados por ele no ano passado. O conteúdo abaixo corresponde ao material principal publicado nas edições Império Secreto nºs 1 e 2, da Panini Comics.

Confiram!


Secret Empire #0 (publicada em Império Secreto nº 1)

As notícias sobre o conteúdo da edição número zero da nova saga da Marvel, Secret Empire se amontoam muito antes da editora lançar a dita cuja este mês. Este excesso de cobertura em torno de uma edição específica se deve, principalmente, ao fato da história finalmente jogar no proverbial ventilador toda a relação recentemente desenvolvida na passagem do autor Nick Spencer entre o Capitão América (Steve Rogers) e a organização criminosa Hydra. Com uma premissa que polariza excessivamente a opinião de um público que já é adepto das hipérboles, Secret Empire torna-se então um prato cheio para os veículos especializados em cultura pop (e, principalmente, os veículos não-especializados) destilarem os mais diversos artigos sobre o chamado “Capitão Nazista”.

O fato é que, para confeccionar uma resenha equilibrada, é necessário ir além do conceito — muito panfletado atualmente — de “essência do personagem” e analisar, de forma ponderada, se os elementos que compõem a história tornam a mesma harmoniosa, divertida e relevante. A análise, portanto, inclui a premissa, mas não se limita a só isso.

Secret Empire #0 é o primeiro ato de uma minissérie na qual finalmente o universo Marvel conhece as intenções nefastas desta nova versão do Capitão América. Steve Rogers, aqui, põe em prática um plano bastante inteligente, neutralizando de forma eficaz alguns dos principais bastiões da atual Terra primordial do omniverso Marvel. Ao mesmo tempo, o Sentinela da Crueldade assume o controle total do arsenal e recursos da maior potência militar do planeta Terra. O que vemos nesta edição, além da concretização deste plano, é uma revelação importante sobre o uso do Cubo Cósmico pelas forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial e como isso repercutiu na história deste Capitão (para mais sobre esta revelação leia aqui).

Para leitores que não estão lendo a atual fase de Spencer em Captain America: Steve Rogers, apesar da costumeira página de recapitulação da Marvel, fica um pouco complicado entrar de cabeça em Secret Empire nesta edição inicial.

Os elementos que sustentam a premissa básica de Secret Empire remontam à já quase esquecida saga Avengers: Standoff e foram desenvolvidos durante as quinze edições do atual volume do quadrinho de Rogers. No entanto, o conceito básico é simples e fica claro aqui: temos um vilão usando o uniforme com as listras e estrelas. Toda a população e o governo confiam neste homem em momentos de crise. E é em umas das horas mais sombrias que Rogers se aproveita e toma o controle, sem fazer esforço algum.

Para uma minissérie em nove partes, a edição zero de Secret Empire é bastante movimentada. Spencer joga diversos elementos simultaneamente na introdução da história emuda de cena rapidamente, mantendo um dinamismo no fluxo de leitura e consegue caracterizar de forma consistente e honesta boa parte do elenco, fazendo uso de diálogos um pouco excessivos, porém funcionais. Fica evidente a crítica política direcionada do autor especificamente no momento em que a Secretária de Defesa estadunidense entrega o comando das forças militares e agências de manutenção da lei ao Capitão. A passagem

Nós não sabíamos isso naquela hora, mas este é o momento em que tudo acabou. O momento em que comprometemos tudo que acreditávamos em nome do medo.

é marcante e ganha um peso descomunal, tendo em vista o contexto no qual este quadrinho é lançado em pleno ano de 2017, dentro e fora dos Estados Unidos. Alegorias a parte, a introdução se sustenta por mérito próprio e desperta uma curiosidade mórbida sobre os próximos passos deste Capitão desconstruído.

O principal problema da ideia de Secret Empire é o mesmo do final de Avengers Standoff e o do início do título solo de Rogers: o Cubo Cósmico.

Sim. Um dos artefatos mais populares da mitologia Marvel por duas vezes é usado como deus ex machina pelo autor para justificar uma ideia “chocante”. O único motivo pelo qual o Capitão mudou (seja lá qual seja esta mudança) foi porque o roteirista assim o quis e usou o Cubo como ferramenta narrativa. Um objeto com propriedades de alteração de realidade deve ser aplicado com muito critério em roteiros de quadrinhos. Do contrário, ele banaliza qualquer ideia posterior e não pode ser usado como base única de sustentação de premissas. Isso faz com que boas histórias (como as contadas no quadrinho de Steve Rogers) não tenham a gravidade que mereçam , e tudo acaba caindo no descrédito, se analisado com mais escrutínio.

Apesar do belíssimo prólogo, completamente ilustrado por Rod Reis, o ponto mais fraco de Secret Empire fica para a parte da arte, especificamente porque o grosso da edição — que é ilustrado por Daniel Acuña — tem um visual bastante irregular. Acuña é um ilustrador que funciona melhor com elencos menores e, em uma história com um elenco imenso como esta, muito do detalhamento é perdido ou feito de forma resumida por este artista. Cenas de batalha ficam aquém do que se espera em uma saga desta magnitude, expressões faciais nem sempre funcionam com os diálogos e a fotografia em grupo é grosseira demais. É uma pena, pois, visualmente, Secret Empire começa em alto nível — e cai vertiginosamente no momento em que Acuña assume o comando da arte.

É completamente justa e perfeitamente aceitável a ideia de que um leitor rejeite da maneira mais vigorosa esta versão do Capitão América proposta por Nick Spencer. Já se falou muito sobre tudo que o personagem representa e, de fato, enxergando pelo prisma da caracterização, há motivos de sobra para você não chegar nem perto de Secret Empire. O fato é que o tal “Capitão Nazista” já esta aí há praticamente um ano figurando na Marvel. Portanto, a resposta negativa talvez seja um pouco tardia. Além da descaracterização, temos o fator Cubo Cósmico, que a todo momento joga contra a sustentabilidade da premissa de Spencer. Por este motivo, por mais que a história seja boa de ler, sempre fica o gosto amargo de uma alteração esdrúxula de realidade como premissa básica.

Analisando-a isoladamente, como uma história desvinculada da ideia quintessencial do Capitão América, a edição zero de Secret Empire tem um roteiro muito forte: é dinâmica e movimentada; traz uma mensagem alegórica, porém altamente pertinente; distribui bem a atenção entre seus núcleos narrativos e estimula a leitura da saga. Em termos de arte, o editorial faz uma escolha infeliz para este tipo de quadrinho e quem paga o preço é um ilustrador que não tem muito traquejo para este volume de elenco e escopo de trama. Portanto, aqui temos algo um pouco imprevisível em se tratando de sagas da Marvel: uma história que começa bem, mas que não se pode prever para onde irá enveredar. Resta aos bravos fãs que não conseguem largar os quadrinhos da editora acompanhar as próximas edições e tirar suas conclusões sobre esta verdadeira bomba que foi lançada no universo Marvel.


Secret Empire #1 (publicada em Império Secreto nº 1)

Conforme vimos na edição zero de Secret Empire, o Império Secreto comandado pelo Capitão América tomou de assalto o universo Marvel, incapacitando seus principais opositores e se consolidando como um regime político-militar que, agora, tem praticamente o mundo sob seu domínio.

Vale lembrar ao leitor que a questão da descaracterização do Capitão América foi abordada tanto na resenha da edição prólogo supracitada quanto no nosso Comicpod especial, no qual debatemos o tema exaustivamente. Aqui, portanto, analisaremos somente as características da história mostrada na primeira edição de Secret Empire.

Nesta primeira edição, o roteirista Nick Spencer mergulha mais fundo nas engrenagens desta máquina opressora e neste mundo no qual a Hydra triunfou. Aqui, o autor detalha as funções específicas de cada um dos ministros que sustentam o governo de Steve Rogers, nos apresenta a força rebelde que tenta resistir a esta ditadura e mostra que, apesar da fachada de líder impiedoso, a vida do Capitão América atualmente é uma sucessão de dilemas morais.

Há uma estranha ambiguidade no Capitão de Spencer. Sabemos de sua atual devoção à Hydra. Sabemos que ele tem uma visão muito particular para o mundo. Sabemos que nada ficará em seu caminho para concretizar essa visão. Todavia, Spencer aqui nos entrega cenas que mostram outro lado da vida dessa encarnação tirânica do personagem. As passagens com Sharon Carter, Rick Jones e com sua mentora, a Madame Hydra, mostram o lado dividido de Rogers. Spencer, apesar de retratar o personagem como um vilão, tenta aqui humanizá-lo e deixa alguns ganchos misteriosos acerca de suas reais motivações. Descaracterizações a parte, é louvável a dimensão dada ao protagonista nesta edição. Rogers é ora pragmático, ora paranóico; extremamente solitário e frágil, quando visto além da fronte de ditador. Talvez um dos vilões mais complexos e difíceis de se construir em toda a história da editora.

Spencer tem um senso rítmico de roteiro extremamente apurado. Isso já se nota desde seus trabalhos com Morning Glories, pela Image. Isto torna a leitura de Secret Empire muito fluída e veloz e todas as informações ficam claríssimas para o leitor. A caracterização de vozes em diálogos também merece ser destacada. Observe os trejeitos nas falas de cada um dos personagens e fica impossível não reconhecer que este autor trabalha com muito esmero cada um deles individualmente.

Como não poderia deixar de ser, Spencer continua martelando sem perdão as questões políticas, sociais e até o mercado de quadrinhos atual, por meio de alegorias neste quadrinho. Observando, mesmo que de forma bem superficial, é possível detectar que o apelo desesperado inicial da Capitã Marvel se aplica quase que integralmente à situação política estadunidense de nossos dias. O tom desiludido de Tony Stark representa a visão sem esperança de uma enorme parcela da população. As cenas de doutrinação nas escolas, mostrando crianças gritando palavras de ordem, são duras e revelam um cenário nada fictício que exuste em algumas partes do planeta. E o recordatório na cena da captura do Inumano que diz:

É engraçado viver em um mundo no qual o impossível acontece. No qual a qualquer momento que você olha para o alto e há alguma guerra, invasão ou ataque. E as pessoas dizem ‘Isto vai mudar tudo’ e que ‘Nada será como antes’. Você escuta tanto isso que deixa de acreditar. E se surpreende quando de fato isso acontece.

pode ser muito bem encarado com uma crítica direta ao excesso de sagas e eventos na própria editora que publica este título. Spencer é implacável. Não faz concessões até o momento. Critica com valentia e, aqui, toca em muitas feridas ainda não cicatrizadas da humanidade. Isto torna Secret Empire #1 uma leitura dura com o leitor, mas que pode se tornar algo maior seguindo esta toada.

A arte da edição número 1 da saga é um salto monumental de qualidade em relação a anterior. Steve McNiven dispensa apresentações como ilustrador, mas aqui, sem esforço algum e, principalmente, sem páginas autoindulgentes, o artista mostra todo o domínio que tem, tanto sobre a narrativa de Spencer quanto sobre este elenco relativamente grande.

A fotografia é nítida e apresenta muito bem a ideia do roteiro. O cuidado que McNiven tem com expressões faciais e corporais transmite como poucos o sentimento dos diálogos do roteirista e o visual é de um nível elevadíssimo, com uma consistência notável durante toda esta edição. Vamos de reuniões entre um grupo de vilões abatalhas contra aberrações gigantes, de cenas dramáticas entre dois amigos a passagens em uma escola com o mesmo grau de capricho no visual.

Se você se chocou, decepcionou ou emputeceu com a edição prólogo de Secret Empire, ficará na mesma ou talvez ainda mais horrorizado com o que é mostrado na primeira edição. Esta é, de fato, uma visão muito amarga, não só do Capitão América, mas do mundo que nos cerca. A narrativa, que tem um ritmo ideal para sagas do tipo, envolve e enoja ao mesmo tempo, e a arte nítida e muito bem executada acentua ainda mais a visão abjeta de Spencer para um universo Marvel que nem todos os leitores estão preparados para adentrar.


Secret Empire #2 (publicada em Império Secreto nº 2)

As ações de Steve Rogers na edição anterior de Secret Empire reverberaram como uma onda de terror através do universo Marvel. Portanto, nada mais justo que na segunda edição da minissérie, Nick Spencer dê um pouco de foco aos personagens afetados pelo regime da Hydra nos Estados Unidos.

Em Secret Empire #2 vemos como os novos Defensores (time apresentado aqui com um formação composta pelo Punho de Ferro, Luke Cage e Jessica Jones), o Doutor Estranho e a população está sobrevivendo encarcerados em uma bolha da Dimensão Negra que envolve toda a cidade de Nova York. Ainda aqui vemos como a força de resistência ao regime da Hydra reage ao violento atentado a Las Vegas, à execução de um querido aliado mostrados na edição passada e as informações sobre o verdadeiro motivo da traição do Capitão América. Mas não é só isso: em um misterioso epílogo ilustrado por Rod Reis, vemos as primeiras pistas do futuro de Steve Rogers.

Spencer divide esta edição em 3 partes distintas: cenas de ação e a luta pela sobrevivência em Nova York; drama no quartel-general rebelde e a ruptura da Viúva Negra com a equipe; e o epílogo que deixa mais perguntas do que respostas. Tirando o foco do Capitão América e da Hydra, equilibrando ação, um certa dose de horror e drama e apresentando novos personagens nesse contexto, o autor torna a segunda edição bastante fluida e interessante. A apresentação do Rei do Crime e de seu papel na história por exemplo, é feita de forma muito natural e direta. Tudo que precisamos saber sobre a situação dos Defensores, Strange e até Manto e Adaga é mostrado em poucas páginas, com quadros e diálogos bem feitos, sem parecer muito didático.

As cenas no Monte (base da aliança rebelde, por assim dizer) em Nevada, são um pouco mais arrastadas, naturalmente. Spencer precisa dar motricidade a história aqui e, por isso, alguns pormenores em relação aos fragmentos do Cubo Cósmico precisam ser explanados e objetivos da equipe definidos. A motivação da Viúva Negra fica bem estabelecida. O principal problema é de fato a associação dos jovens Campeões a esta personagem. A ideia de Spencer é transformar Romanoff em uma mentora de jovens heróis e, apesar de uma nova Sala Vermelha ser uma ideia até promissora, fica difícil entender porque um time de jovens tão idealista e teoricamente cheio de virtudes se aliaria a esta personagem que tem um objetivo bastante escuso na saga neste momento.

A segunda edição de Secret Empire tem arte de Andrea Sorrentino, um velho conhecido dos leitores de Arqueiro Verde e Velho Logan. Aqui o uso de fotografia casual, enquadramento inusitado e saturação nas cores combinam bastante com o tom amargo do roteiro de Spencer. A página de recapitulação na qual Rick Jones explica toda a situação de Kobik e do Capitão é um incrível trabalho de micro colagem de inúmeros fragmentos de quadrinhos formando um belo mosaico que enche os olhos e merece ser apreciado por bastante tempo.

Sorrentino tem um ótimo tempo de ação (veja a cena com a apresentação do Rei do Crime) e um impressionante domínio deste elenco. Em ambos núcleos narrativos, o ilustrador apresenta uma caracterização muito pessoal e impactante de cada um dos personagens que toca e há um cuidado muito grande, principalmente em Tony Stark e na Viuva Negra. O trabalho de Rod Reis em todas a edições da saga merece destaque e isso se comprova no epílogo da segunda edição de Secret Empire. A atmosfera criada por este ilustrador é leve, mas ao mesmo tempo envolvente e etérea, tudo combinando perfeitamente com o misterioso final desta edição.

Secret Empire #2 é uma pausa e mudança de foco narrativo muito bem-vinda após todas as “atrocidades” cometidas pelo regime da Hydra nas duas primeiras edições (que tem resenha aqui e aqui) da saga. Spencer aqui dá atenção e motivação a dois grupos distintos e, apesar da associação dos Campeões com a Viúva Negra ser um pouco forçada, a história caminha em bom ritmo e envolve o leitor. Esta edição tem uma apresentação visual cuidadosa, homogênea e distinta. Um visual que atende o roteiro 100% e tem momentos realmente magníficos tanto da parte de Andrea Sorrentino quanto de Rod Reis.

O excesso de foco em polêmicas, a propaganda negativa acerca de Secret Empire e o cansaço geral do público em relação as sagas da Marvel podem ter afastado boa parte dos leitores de quadrinhos para este evento da editora. No entanto, a cada edição, Nick Spencer e a equipe criativa envolvida na saga provam que estão contando uma história divertida, bem feita e que tem relevância e valor para quem aprecia quadrinhos deste gênero.


Secret Empire #3 (publicada em Império Secreto nº 2)

Toda a polêmica acerca de Secret Empire parece ter esfriado a esta altura do campeonato, restando somente uma nuvem de desdém para com a história de Nick Spencer por boa parte dos leitores. Por um lado, isto diminui o interesse do público geral pela saga da Marvel. Por outro, permite a quem está de fato acompanhando a história o foco na narrativa, sem ruídos ufanistas e hipérboles midiáticas.

Na terceira edição de Secret Empire, portanto, é iniciada de fato a corrida pelos fragmentos do Cubo Cósmico remanescentes — os MacGuffins criados pelo autor para impulsionar duas forças antagônicas da história. Tanto o núcleo narrativo composto pelo Capitão América e as forças da Hydra, quanto a força tarefa composta por Tony Stark, Hárpia, Hércules, Scott Lang, o Homem-Formiga e Mercúrio se veem em busca dos fragmentos, pois sabem que quem controla o Cubo, teoricamente, controla o roteiro de Spencer. Estas duas sessões da revista são as mais movimentadas, mostrando os esforços de um impiedoso Steve Rogers para alcançar seus objetivos, enquanto a equipe clandestina de Stark faz de tudo para obter ajuda de um desiludido Sam Wilson.

Correndo por fora, temos a luta desesperada da nova Tropa Alfa, Supremos e dos Guardiões da Galáxia (todo liderados pela Capitã Marvel) para conter as incessantes hordas Chitauri em órbita terrestre. Este elenco, que se encontra isolado do planeta por um campo de força, tem ainda pouca expressividade no contexto geral da história.

Finalmente, vemos o início dos planos da Viúva Negra ao treinar os jovens heróis de legado para de fato “resolver” o problema do Capitão Hydra. Talvez estas cenas tenham os melhores diálogos, principalmente por colocar Natasha Romanoff em contraste com figuras como Maria Hill, Fred Meyers — o Boomerangue — e a equipe dos novos Campeões. Nesses diálogos, Spencer faz um contraste interessante entre motivações e personalidade da Viúva Negra, mostrando porque ela é única no Universo Marvel.

Assim como na edição anterior, destacado da história principal, temos as cenas mostrando um Steve Rogers diferente em um mundo de sonhos acompanhado de uma moça ferida. Spencer dá algumas dicas, mas, resgatando seus tempos de Morning Glories, mantém um grande suspense quanto a estas passagens. Todavia, não é difícil para um leitor que conhece o editorial da Marvel tirar suas próprias conclusões sobre estas cenas que, com absolutta certeza, pavimentarão o caminho para o retorno de um Capitão mais “normal” à continuidade da editora.

No geral, a alternância de uma grande quantidade de núcleos narrativos tem sido, até o momento, balanceada pelo autor, e sentimos fluidez no roteiro da saga. Apesar de termos uma capa dando total destaque à equipe que está no espaço, a participação de Danvers e Cia. nesta trama ainda não é impactante. O foco da história se torna a busca pelos fragmentos do Cubo. Spencer, na terceira edição, segura um pouco a mão nas alegorias políticas, deixando somente uma fala específica de Sam Wilson à cargo desta tarefa de “jogar as verdades na cara do leitor”. A história é priorizada e isso é benéfico. Ao final, temos a introdução de um importante (e detestado) Vingador em um estado mental aparentemente desequilibrado. Isto deixa um gancho imprevisível e interessante para a quarta edição de Secret Empire.

O trabalho de arte, tanto de Rod Reis quanto de Andrea Sorrentino nesta edição, merece reverência, não só por transmitir de forma clara e impactante a ideia de Spencer, mas também por impor uma estética própria à uma saga, que poderia facilmente cair na padronização de produtos semelhantes na Marvel. Tanto Reis quanto Sorrentino não se dobram e produzem páginas com suas marcas registradas na terceira edição de Secret Empire. Reis explora muito bem a palheta de cores serenas em sua participação, e entrega expressões faciais convincentes e emocionadas. Enquanto isso, Sorrentino se delicia com todo o elenco que lhe é atribuído. Seja nas cenas na Atlântida, na nova Sala Vermelha ou em Montana, o ilustrador dá um jeito de deixar sua marca com diagramação imponente e criativa, fotografia inovadora e caracterização diferenciada.

Secret Empire #3 tem problemas conceituais? Sim. Principalmente a questão dos Campeões aliados à Viúva Negra, além do já muito debatido vilão da história. Além disso, a enorme quantidade de personagens na história pode se tornar problemática rapidamente. Isso prejudica a leitura? Somente se o leitor for muito apegado, principalmente, à figura do Capitão América. Fora isso, temos uma história de espionagem super-heroica que caminha a passos largos para se tornar uma das melhores sagas da Marvel nos últimos anos. Com um roteiro movimentadíssimo, apresentação caprichada e única, e um elenco que, apesar de numeroso, consegue deixar sua marca, a minissérie de Spencer vem combatendo todo o ódio dos leitores com boas ideias, ótimos diálogos e execução precisa a cada edição.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Império Secreto n° 1 e nº 2
Roteiro: Nick Spencer
Arte: Vários
Cores: Vários
Páginas: 100 (cada)
Publicação: Panini (Junho e Julho de 2018)
Idioma: Português
Preço de Capa: R$ 15,90 (cada)

Ele era o maior herói de todos, aquele para o qual todos os outros olhavam em busca de liderança, mas agora, enquanto a comunidade super-heroica estava mergulhada no caos de seus próprios dilemas, Steve Rogers se revela como o líder supremo do Império Secreto, constituído pelo renascimento da Hidra! E enquanto o Universo Marvel é surpreendido pela traição do Capitão América, movimentos de resistência surgem para combater a nova ordem que se alastra por Nova York e até mesmo pelo espaço sideral!

O pesadelo trazido pela Hidra transformou Terra e espaço em zonas de guerra: enquanto alguns heróis se mobilizam para prestar socorro a Las Vegas e Manhattan, a Capitã Marvel e sua equipe enfrentam uma violenta invasão espacial. O Homem de Ferro faz uma revelação importante a respeito da mudança sofrida por Steve Rogers, graças a informações que Rick Jones conseguiu obter antes de ser executado. Mas a Viúva-Negra tem um plano bem diferente que envolve os Campeões e uma infiltração nas fileiras inimigas. E um misterioso homem surge para proteger uma vítima iminente da Sociedade da Serpente! (Secret Empire 2-3 e Secret Empire: Uprising 1)

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