Esquadrão Atari: Soprando o Cartucho da Nostalgia

Em 1982 a DC produziu uma revista em quadrinhos que seria dada como brinde nos cartuchos dos jogos para o videogame Atari, a Atari Force. A revista, em formato reduzido, foi distribuída com os jogos Defender, Berzerk, Star Raiders, Phoenix e Galaxian. Durou apenas cinco edições em uma jogada de marketing “transmidia” muito semelhante à também utilizada para a linha de figuras de ação Superpowers, como os leitores mais velhos devem se lembrar.

Fase 1: O Primeiro Esquadrão

A primeira versão do Esquadrão Atari se passava no “longínquo” ano de 2003 e mostrava uma equipe de humanos de diversas etnias viajando pelo multiverso em uma nave interdimensional: a Scanner One. Estavam em busca de um novo lar para a humanidade após a Terra ser devastada por uma catástrofe ecológica.

A equipe, selecionada pelo A.T.A.R.I. (Advanced Technology And Research Institute), era formada pelo comandante da missão, Martin Champion; Lydia Perez, a piloto e primeira oficial; Li-San O’Rourke, segundo oficial; Mohandas Singh, o engenheiro de vôo; Dr. Lucas Orion oficial médico; e como toda boa equipe dos anos 1980, Hukka, o mascote da equipe.

O primeiro Esquadrão Atari.

Esta primeira encarnação do Esquadrão Atari foi produzida por um time de grandes astros dos quadrinhos dos anos 1980, como Gerry Conway e Roy Thomas, responsáveis pelo roteiro e Ross Andru, Gil Kane, Dick Giordano e Mike DeCarlo, responsáveis pela arte, e, infelizmente nunca foi publicada no Brasil.

Em 1983, um ano depois dos gibis originais, duas histórias de backup com a segunda encarnação da equipe foram publicadas em DC Sampler #2 e #3, preparando o terreno para a segunda – e melhor – versão de Esquadrão Atari que estrearia em um título próprio em janeiro de 1984.

Fase 2: Heróis em Ação

Em 2028, cerca de vinte e cinco anos depois do primeiro Esquadrão ter finalmente encontrado um lar para a humanidade na pacífica Nova Terra, Martin Champion, o antigo líder da equipe original, amargurado pela morte de sua esposa, vive isolado em um satélite de onde envia sondas para diversos pontos do Multiverso em busca de sinais de uma grande ameaça que detectou e que ele acredita estar relacionados ao antigo inimigo do Esquadrão Atari, o Destruidor Negro. Ciente do perigo que o Multiverso corre, Martin deixa o isolamento e tenta convencer a todos desta terrível ameaça em vão. Ele rouba a antiga nave utilizada pelo Esquadrão Atari e forma uma nova equipe para enfrentar o Destruidor Negro.

A nova equipe contava com Tormenta (Tempest), o filho de Martin Champion capaz de se teletransportar através do Multiverso; Dart, uma mercenária capaz de enxergar imagens de possíveis futuros; Bebê (Babe), um alienígena filhote de uma raça monolítica que ao envelhecer se transforma em montanhas; Paco-Rato (Pakrat), o marciano covarde que é o maior ladrão do Multiverso; Morfea (Morpheus), a empata de uma raça alienígena criada para não possuir emoções; e Hukka, o mascote da equipe. Posteriormente ainda se juntam à equipe o mercenário caolho e amante de Dart, Blackjack, Baixinho, o último sobrevivente de uma raça bélica especialista em tecnologia e Kargg, ex-braço-direito do Destruidor Negro.

Capa de Atari Force #1, o Esquadrão Atari. Arte de José Luis García-López.
Capa de Atari Force #1, o Esquadrão Atari. Arte de José Luis García-López.

Diferente da equipe anterior, esta segunda revista do Esquadrão Atari era comercializada diretamente em bancas e comic shops, alcançando um público maior do que a sua primeira versão, ampliando o alcance do merchandising feito em cima do console Atari para um público que talvez ainda não possuísse o popular videogame em casa. Além disso, o avanço na qualidade da revista é inegável!

Não oficialmente, esta versão do Esquadrão Atari pode ser dividida em duas fases. A primeira, produzida por Gerry Conway nos roteiros e pelo mestre José Luis Garcia-López na arte, mostra a formação do grupo e culmina com o confronto com o Destruidor Negro, se encerrando na décima terceira edição. Conway e López conseguiram misturar super-heróis e ficção científica na dose certa e criaram um universo rico, digno das grandes sagas espaciais do cinema como Star Wars ou Star Trek com um ritmo frenético e empolgante, onde cada edição termina com um gancho para a próxima, mantendo o leitor interessado e curioso para saber o destino dos heróis a cada nova aventura.

A arte de José Garcia-López merece um parágrafo à parte.

Responsável durante muitos anos pelas artes de licenciamento da DC, o artista possui um ótimo censo de design e cria cenários e criaturas fascinantes. López, com sua diagramação ousada (são inúmeras as páginas onde o artista desenha “livre” das amarras dos quadrinhos), estava em sua melhor fase e criou uma série de personagens emblemáticos e visualmente memoráveis. Seu universo alienígena é crível e envolvente.

Esquadrão Atari por José García-López

Com diálogos afiados, sexo e conflitos psicológicos e políticos, o texto de Conway não subestima o leitor e é bastante ousado para a época, se pararmos para pensar no conceito por trás da revista: um gibi transmídia, com foco em merchandising para um videogame bastante popular entre crianças e adultos.

A partir da décima quarta edição, no auge da popularidade do Esquadrão Atari, começa o que podemos considerar a “segunda fase” do gibi com a mudança do time criativo. Entra Mike Baron nos textos e a arte fica a cargo de Eduardo Barreto e Ed J. Hannigan.

As duas equipes se encontram em arte de José García-López.

O arco principal desta segunda fase traz o desenrolar do confronto com o Destruidor Negro, mostrando o Esquadrão Atari sendo perseguido pela galáxia pelo roubo da espaçonave que a equipe usa para viajar pelo multiverso. Além disso, a partir da décima sexta edição, a revista trazia ainda histórias curtas de backup focadas em alguns dos personagens mais “engraçadinhos” do título.

Fica clara a quebra de qualidade nesta segunda fase. A impressão que se tem é de que o contrato da Atari com a DC estava terminando e forçou-se uma conclusão rápida e apressada por parte de Gerry Conway, que deixa poucas edições para o time seguinte, que não consegue desenvolver nada tão interessante quanto as primeiras treze edições. O gibi foi cancelado na vigésima edição em agosto de 1985.

Fase Bônus: Brasil

No Brasil, o título foi publicado na íntegra no saudoso formatinho, espalhado – e picotado – pelas revistas Superamigos e Heróis em Ação durante dois anos, entre agosto de 1984 e agosto de 1986. Por algum motivo misterioso, a editora Abril não seguiu a ordem do título original, misturando a sequência das histórias da equipe espacial, que se tornaram muito populares entre os leitores na época e até hoje é um dos títulos mais lembrados por aqueles que colecionavam formatinhos.

Heróis em Ação #01 – Editora Abril

Fase Final: Conclusão

Criada a partir de uma simples proposta de marketing e licenciamento, Esquadrão Atari se mostrou capaz de muito mais do que vender cartuchos de videogame. Com roteiro inteligente e personagens fascinantes, a revista ainda foi pioneira no conceito de Multiverso dentro da DC. Mesmo não estando diretamente relacionada ao universo da editora que conhecemos, já que não há menção alguma ao Esquadrão Atari em nenhuma das revistas de linha da DC ao longo de todos estes anos além de um artigo publicado em DC Releases Vol.1 em Junho de 2008.

Em 2015 a Dynamite Entertainment, editora responsável pelo resgate de inúmeros personagens “das antigas”, incluindo uma bem-sucedida linha de heróis pulp como O Sombra, adquiriu os direitos de publicação da primeira série do Esquadrão Atari. Em janeiro de 2019, chegará às comic-shops americanas o encadernado Atari Classics: Atari Force, trazendo todas as edições da série original e a minissérie Centipede baseada no lendário jogo da Atari.

Atari Classics: Atari Force – Dynamite Entertainment

Infelizmente, mesmo sendo muito querida entre os leitores que estão na ativa desde os anos 1980, devido a problemas contratuais envolvendo a DC e a Atari, talvez a segunda fase do Esquadrão Atari jamais seja relançada pela editora. O que é realmente uma pena! Em tempos onde a DC segue reciclando diversos de seus conceitos, a editora nunca mais conseguiu firmar um universo espacial como nos tempos da Legião dos Super-Heróis original e do Esquadrão Atari.

Para nós, leitores saudosistas, resta garimpar os sebos em busca deste pequeno tesouro espacial.

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