[#Entrevista] Carol Pimentel fala do livro Tradução de Histórias em Quadrinhos

Carol Pimentel está de volta no Terra Zero! Na primeira oportunidade em que falou conosco, em um podcast especial apresentado pelo Pablo, a Editora Sênior da Marvel na Panini Comics do Brasil falou sobre muitos assuntos, sua vida e sua carreira. Neste novo bate-papo, ela fala mais um pouco sobre seu passado e divulga seu novo livro: Tradução de Histórias em Quadrinhos – Teoria e Prática.

Além de detalhar e esclarecer o tema do livro nesta entrevista, Carol Pimentel fala sobre processos de tradução e edição no Brasil, explica como está o mercado no momento e fala de suas previsões para o futuro. Confiram!


Terra Zero: Antes de mais nada, Carol, obrigado por topar fazer esta entrevista! Primeiramente, o que te levou a trabalhar com quadrinhos? Como foi a jornada até aqui?

Carol Pimentel: Eu que agradeço a oportunidade de poder falar com vocês!

Os quadrinhos sempre fizeram parte da minha vida. Na infância eu vivia cercada por eles e lia tudo o que conseguia encontrar da Marvel – sim, senhores, sempre fui marvete apesar de adorar o Batman – e a paixão foi crescendo em uma época em que “não era tão legal assim ser nerd”. Na verdade eu não ligava muito para o que os outros diziam, pois eu encontrava conforto nos desabafos do Peter Parker que sofria mais ou menos o mesmo tipo de preconceito que eu vinha sofrendo. Os anos se passaram e com a chegada do final do anos 1990 e o ingresso na universidade, eu me afastei um pouco dos quadrinhos, mas sempre que podia dava uma olhadela nas bancas ou conversava com outras pessoas que também apreciavam a nona arte.

Muita água rolou debaixo dessas pontes até eu vir a trabalhar com astrofísica e, em uma tentativa de unir minha mais antiga paixão – os quadrinhos – com as ciências eu percebi que não teria muito apoio e que deveria optar entre a nova função e minha paixão. Não tive dúvida: voltei a estudar, larguei o emprego de diretora da Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo e batalhei um mestrado que me trouxe até aqui, onde estou hoje, como Editora Sênior da Marvel pela Panini. Nada do que aprendi antes se perdeu e tudo é usado no meu trabalho, seja para corrigir conceitos ou para ajudar a compreender termos usados pelo Reed Richards, Tony Stark, o próprio Peter Parker e muitos outros cientistas que circulam nas páginas das HQs.

A autora Carol Pimentel. Reprodução.
A autora Carol Pimentel. Reprodução.

O que motivou a criação desta publicação? O que o leitor vai encontrar nela?

Quando resolvi trabalhar com quadrinhos eu não tinha muita ideia do que fazer, afinal era uma paixão antiga, mas eu não sabia desenhar e sequer tinha tentado me arriscar a escrever algum tipo de roteiro. Achava que não sabia nada e comecei a procurar materiais para aprender mais sobre o tema, mas não encontrava nada. Foi então que decidi estudar para aprender tudo o que pudesse sobre quadrinhos. Fui descobrindo uma carência nesse tipo de material. Ao longo dos anos em que fiz o mestrado, reuni uma série de informações sobre origem, desenvolvimento e evolução das histórias em quadrinhos e fui percebendo um certo padrão de comportamento do tradutor de HQs. Isso foi amplamente discutido na minha dissertação de mestrado e os dados foram coletados de entrevistas com tradutores de diferentes materiais, o que me deu uma gama maior de análise do tradutor.

Este livro contém não só uma síntese sobre o mercado atual de tradução de quadrinhos bem como algumas explicações sobre o que fazer (ou não) para ter uma boa tradução já adequada ao mercado atual. Por ser uma área bem específica, o texto precisa de um cuidado maior e a vivência própria de cada tradutor – ou futuro tradutor – pode enriquecer o trabalho final entregue. Este era meu objetivo; fornecer um material que pudesse auxiliar quem quer começar a traduzir quadrinhos no Brasil.

No Brasil, quem trabalha com material de outros países às vezes não apenas edita, mas também traduz o texto do(s) autor(es) original(is). Você pode descrever como são esses processos e as diferenças entre editar e traduzir o que vem de fora?

Editar quadrinhos requer uma visão abrangente de um processo enorme. Para explicar melhor a função de um editor eu gosto de usar a analogia de engrenagens de um relógio. O editor é responsável por coordenar uma série de processos que são necessários para que se tenha uma edição completa. Vou tentar resumir um pouco a função.

O trabalho do editor de histórias em quadrinhos é o mais complicado e delicado de todos na produção editorial. O editor(a) é responsável por coordenar uma linha de produção, composta basicamente por outros profissionais do meio que colaboram nas diferentes áreas de uma HQ. Uma revista pequena de quadrinhos é composta por duas histórias de aproximadamente 20 páginas cada. Assim, o editor, deve enviar cada história para o tradutor que terá um prazo para traduzir e devolvê-la ao editor. Depois do tradutor, o texto é enviado para um “preparador de texto”, o copidesque. Este profissional revisa a tradução com o texto original e faz as mudanças que achar necessárias no texto. Terminada esta etapa, o texto é enviado para o editor que o enviará para um revisor ortográfico que aponta as correções necessárias.

Capa do livro Tradução de Histórias em Quadrinhos - Teoria e Prática, de Carol Pimentel.
Capa do livro Tradução de Histórias em Quadrinhos – Teoria e Prática, de Carol Pimentel.

Em seguida, o texto é enviado outra vez para o editor que aceita ou não as correções – às vezes, o revisor não sabe que em X-Men usamos “os sentinelas” e alteram para “as”, uma vez que estamos lidando com um substantivo feminino – dependendo de cada caso. Terminada esta etapa, o texto é enviado ao letrista. Este é o profissional que insere o texto nos balões, retoca o que aparece nas placas de trânsito, carros de polícia, muros, onomatopeias etc. O PDF gerado é enviado ao editor, que lê novamente o texto, pede os retoques que achar necessário e devolve para o letrista fazer tais alterações. Terminada esta etapa de correções, o letrista faz o que foi pedido pelo editor e fecha os arquivos para serem enviados para a gráfica. Este é o processo para uma das revistas, mas a menor de todas tem duas, lembram? Então o editor tem que controlar tudo isso para uma média de 20 revistas individuais que geram seis títulos que chegarão às bancas.

Mas antes disso, temos mais uma etapa. Paralelamente, o editor escreve textos de editoriais para as revistas, prepara textos de quarta capa, faz os textos para os anúncios e cuida dos ajustes das capas de cada uma das revistas com que trabalha.

A gráfica leva alguns dias para imprimir uma prova da revista que será enviada ao editor. Ele ou ela lerá a prova, pedirá as últimas correções que achar necessárias ao letrista, que devolverá novos arquivos com as correções. O editor junta tudo isso e envia para a última etapa, a impressão. Acho que deu para entender que o trabalho não é fácil, né?!

O trabalho do tradutor é receber o texto original, geralmente em um arquivo de PDF e deve devolvê-lo no prazo solicitado pelo editor. Esta também não é uma tarefa fácil, pois precisamos manter fidelidade ao texto original, que nem sempre é fácil de ser compreendido. Cada autor tem um jeito para escrever seus textos e isso exige um vocabulário enorme por parte do tradutor, que deve compreender o texto, interpretá-lo e trazê-lo para nosso idioma. Qualquer diferença do original provoca rumores enormes com relação ao material e faz com que os tradutores percam noites de sono com a preocupação de que algo errado ou ruim seja encontrado em sua tradução. As histórias em quadrinhos exigem um conhecimento muito mais amplo do profissional que vai traduzi-las, pois elas se dão em diferentes contextos e com uma variedade enorme de termos; temos doutores em ciências, deuses mitológicos, referências a coisas do mundo real e outras infinitas referências a histórias antigas do mesmo personagem. Sendo assim, o profissional que quer trabalhar com HQs deve se especializar em muito mais coisas do que um tradutor específico de obras literárias. Esta e outras informações estão no livro e foram mais bem explicadas por lá.

Capa de Canário Negro - O Som e a Fúria. Arte de Annie Wu.
Capa de Canário Negro – O Som e a Fúria. Arte de Annie Wu.

Quais são os quadrinhos, se você puder citar, que foram mais desafiadores para traduzir? Por quê?

Um dos quadrinhos mais desafiadores foi o da Canário Negro: O Som e a Fúria. Cada título da história fazia referência a uma música do David Bowie e a trama da história era um resumo de acontecimentos descritos na letra das canções dele. Tive que fazer uma bela pesquisa para adaptar os termos e chegar o mais próximo do original, mas infelizmente os títulos não tiveram como ser mantidos no original e as traduções que usamos respeitam uma série de restrições que o ato de se traduzir impõem, bem como as regras de direitos autorais. Portanto, não basta simplesmente fazer uma busca e usar o que está pronto; devemos ver se não estamos infringindo nenhuma regra e se futuramente não teremos problemas com o que estamos deixando impresso.

Aliás, ainda falando de processo de tradução, você acredita que este é um mercado em expansão no Brasil? É possível que haja mais tradutores de quadrinhos no futuro aqui no país?

Eu não tenho dúvidas de que é um mercado em expansão. Temos cada vez mais títulos sendo impressos, uma variedade de republicações e outras tantas editoras que se empenham para cobrir tudo o que já foi impresso de histórias em quadrinhos. Claro que com a crise que estamos enfrentando e com as variações do dólar, nem tudo fica fácil de ser trazido, mas aos poucos – e em passos rápidos, eu diria – o mercado de HQs vem crescendo bastante, e com toda certeza a necessidade de tradutores vai surgir em breve.

Partindo para um âmbito mais amplo, o mercado editorial brasileiro tem sofrido bastante com cortes de recursos, aumento de preços de matéria-prima, problemas entre distribuidoras, afunilamento de distribuição de títulos em alguns pontos de vendas e plataformas… Como isso afeta a vida do tradutor?

Cada vez que há problemas com a economia do país. Nós percebemos que o volume de títulos se mantém, mas não aumenta, ou seja, o mercado é diretamente influenciado por forças externas mas ligadas à economia. Contudo, isso acontece com outras profissões também. Portanto, ficamos sempre preocupados como outros tantos profissionais também ficam.

Capa de Homem-Aranha 22, da Panini, ilustrada por Simone Bianchi. Um dos muitos títulos que Carol Pimentel edita no Brasil.
Capa de Homem-Aranha 22, da Panini, ilustrada por Simone Bianchi. Um dos muitos títulos que Carol Pimentel edita no Brasil.

Como tradutora e editora, o que você vê no futuro em termos de chegada de mais material internacional no país?

Como tradutora eu fico na esperança de ter mais e mais títulos para traduzir sempre. Já como editora eu vejo que em algumas épocas temos mais títulos chegando e isso me deixa bem feliz, pois sabemos que vamos entregar mais material ao público que consome HQs. Estamos entrando justamente nesta fase, uma série de títulos foram programados para este segundo semestre e outros tantos ainda virão para o ano que vem. Então podemos ficar tranquilos que o sonho de completar nossas coleções está cada vez mais próximo.

Por fim, já tem algum outro livro em mente? Se sim, pode nos dizer algo sobre ele?

Estou com alguns projetos menores. No momento estou escrevendo um pequeno roteiro para uma história em quadrinhos curta – sem super-heróis -, que pretendo lançar ainda este ano. Mas o projeto está bem no início e comento mais sobre ele logo mais. Ainda estou no brainstorm com o artista e em breve pretendemos mostrar algo nas redes sociais.


A sessão de autógrafos com a autora será no dia 26 deste mês:

26 de Agosto de 2018 | 15h às 18h
Livraria Martins Fontes (Piso do Café)
Av. Paulista, 509 – Cerqueira Cesar
Cep: 01311-910 – São Paulo – SP
Fone:(11)2167-9909 Ramal: 148
www.martinsfontespaulista.com.br

Neste vídeo, Carol Pimentel fala um pouco sobre o lançamento:

Compre o livro no site da Transitiva!

(Agradecimentos a Tiago Cordeiro)

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