Dissecando Superman – Origem Secreta da Panini Comics

[Nota: Este artigo integra o Superespecial Superman 80 Anos, que fará parte do site até dezembro deste ano. Acompanhem todos os artigos deste especial clicando aqui! Ele republica, de forma atualizada, uma matéria analisando uma das (várias) origens modernas do Superman – e uma das mais comentadas também. Confiram!]


Anos atrás, quando Superman – Origem Secreta começou a sair nos Estados Unidos, o Terra Zero analisava edição a edição da história através dos lançamentos americanos. Todavia, a análise foi abruptamente cancelada, já que eventualmente a história sairia no Brasil e mais leitores poderiam acompanhar as resenhas. Agora, com a versão encadernada da Panini Comics no mercado, é o momento perfeito para retomar os comentários da história.

Capa de Superman - Origem Secreta por Gary Frank.
Capa de Superman – Origem Secreta por Gary Frank.

Vale lembrar que boa parte do que este redator acha da história foi comentado no mais novo Comicpod. Portanto, não se surpreendam se alguns aspectos dela não forem comentados neste texto. E claro, vocês estão convocados para ouvir este divertido programa clicando aqui!

Uma nova, e nada secreta, origem

Tá, todo mundo conhece a origem do Sups
Tá, todo mundo conhece a origem do Sups! (Arte de Gary Frank)

Deixar Geoff Johns escrever uma “secret origin” era uma fórmula perfeita em 2009, quando esta história começou a ser publicada. Após o sucesso de vendas da mesma série feita com o Lanterna Verde ao lado do brasileiro Ivan Reis, nada mais justo que ter uma origem do maior ícone da editora com o mesmo escritor.

Houve um certo nível de controvérsia com este lançamento. Afinal, uma origem revisitada do Homem de Aço havia sido lançada apenas 5 anos antes, pelas mãos de Mark Waid e Leinil Yu. Mas com a saída amarga de Waid da editora e a necessidade da mudança de alguns conceitos no personagem após Crise Infinita, a DC optou por uma nova e controversa origem. Controvérsia essa que, claro, ficou mais no aspecto editorial no que na narrativa em si, pois se o fã levar em conta a proposta dela como história, a execução é eficaz.

Superman de Mark Waid e Francis Leinil Yu - aquele que não durou nada
Superman de Mark Waid e Leinil Francis Yu – aquele que não durou nada

Desde o início, a dupla criativa deixou claro que o grande diferencial desta história seria mostrar o desenvolvimento do Superman do ponto de vista de Clark Kent. Seu crescimento, seus traumas e superações são vistos a nível pessoal. Johns quis se certificar de que o lado humano fosse fundamental, especialmente na infância/adolescência.

Mais do que aprender a seguir ideais que formam um grande caráter, Clark adora fazer o que faz depois de seu encontro com a Legião dos Super-Heróis, porque se sente ele mesmo. Ao ver como é o futuro, Clark acorda para uma realidade que pouquíssimas pessoas percebem na juventude: sempre há um lugar no mundo para você, não importa qual seja o tamanho dele. O importante é que este lugar existe.

Claro, o leitor perceberá, no decorrer de toda a história, que Johns uniu dois conceitos que sempre considerou fundamentais para o Superman em sua visão particular de fã e profissional de quadrinhos: a associação com a Legião durante a juventude de Clark e as semelhanças na transformação dele em Superman com os filmes de Richard Donner, pra quem o autor trabalhou em seu começo de carreira como assistente.

Sendo assim, nada mais natural que Gary Frank, outro grande fã dos filmes de Donner, utilizasse o rosto do eterno Christopher Reeve como referência para seu Clark Kent/Superman. Aliás, até Jor-El se parece bastante com Marlon Brando, até com aquele cabelinho de Walmor Chagas.

Em Krypton quem tem pega-rapaz é VOCÊ!
Em Krypton, quem tem pega-rapaz é VOCÊ!

Esta conexão com os filmes de Donner são muito bacanas na narrativa, pois elas não estão ali por puro luxo do autor; na verdade, Johns e Frank conseguiram criar uma narrativa linear em que tudo está ali por um sentido. Claro, quem conhece as preferências de Johns sabe que tudo está ali porque ele gosta destes elementos, mas felizmente o autor teve a capacidade criativa de fazer com todos se encaixassem pelo bem da história.

Não tinha como não fazer Lois Lane se encontrar pelo Superman pela primeira vez sem que fosse num salvamento. Portanto, Johns o faz como no primeiro filme estrelado por Christopher Reeve; não tinha como Jimmy Olsen e Clark/Superman fazerem uma amizade sem que o herói não mostrasse ao jovem fotógrafo como é preciso ter esperança para alcançar seus objetivos; não tinha como Lex Luthor não fazer planos mirabolantes para derrubar aquele que roubaria os holofotes para si por ser uma força do bem. Tudo isso é muito bem calculado por Johns, inclusive o uso dos vilões Parasita (uma falha sem precedentes nos experimentos de Luthor) e Metallo (o plano funcionando corretamente) para dar mais possibilidades ao uso da força física e da estratégia do herói em seus primeiros meses de carreira.

Outra coisa bacana que se amarra bem na história é o fato de Metallo ser um soldado do pai de Lois, o General Lane, que não aceita existir alguém que haja nas ruas e até em outros países, sem se entregar antes para as forças dos EUA e revelar a eles sua identidade. A verdade é que uma força do bem está acima do militarismo, graças ao caráter construído desde a infância com bons pais, biológicos ou adotivos. Sem dúvida isto é bem explorado no conto de Johns/Frank.

Portanto, durante todos os seis capítulos da história, o leitor será levado a uma jornada bastante familiar e contada de forma refrescante e ao mesmo tempo saudosista, com todos os coadjuvantes ajudando o Superman a ser o que é simplesmente fazendo seus papeis de serem quem eles são.

Referências e Anotações a Dar com Pau

Assim como Grant Morrison, Johns é um fanático pela Era de Prata e por toda a cronologia da DC. Ambos são verdadeiras enciclopédias ambulantes da editora, portanto nada mais natural que uma chuva de referências invadir a narrativa a todo instante. Vamos listar aqui algumas delas – e se você, leitor, encontrou alguma que não está listada, coloque nos comentários!

Pete Ross chicano?
Pete Ross chicano?

– Para aproveitar a ainda boa popularidade do seriado Smallville (e até por ser fã do seriado também), Geoff Johns dá um jeito de fazer caber elementos do programa nesta nova origem que não soem forçados ao leitor. Estão lá Chloe Sullivan (apenas citada, com uma assinatura no gesso do braço quebrado de Pete Ross – falamos sobre a presença dela nos quadrinhos nesse artigo), o salvamento de Lana Lang em meio ao tornado que pega a cidade (exatamente como no final da primeira temporada da série) etc;

A roupa do Conduíte veio direto de Alien (1979). Mas com hepatite...
A roupa do Conduíte veio direto de Alien (1979). Mas com hepatite… – Arte de Brett Breeding.

– Uma coisa bacana da juventude de Clark retratada por Johns é como as pessoas que viriam a ser inimigos ou grandes amigos em sua vida adulta já estavam com ele desde cedo; no começo da história o leitor já tem o vislumbre de pessoas como Kenny Braverman (o vilão Conduíte), Lucy, Kimberly e Jennifer (amigas de Clark na cronologia do Superboy da Era de Prata) e os próprios Lana Lang e Pete Ross;

Vamos fazer de novo?
Vamos fazer de novo? – Arte de Gary Frank

– Vale lembrar que, apesar das já citadas influências do seriado Smallville (além de Clark descobrindo sua visão de calor ao ser sexualmente excitado por um beijo de Lana e o fato de Clark e Lex terem se conhecido ainda jovens), a história não parte muito para esse lado – a grande influência é sim o universo de Donner. A Fortaleza de Solidão, por exemplo, ilustrada em uma das capas, segue o padrão “castelo de cristal kryptoniano” proposto pelo primeiro filme e utilizado em todas as sequências dele;

Tá, não é bem referência. É cópia mesmo.
Tá, não é bem referência. É cópia mesmo! – Arte de Gary Frank.

– A Metrópolis que Lex Luthor almeja é ilustrada por uma arquitetura futurista muito semelhante a imaginada pelo filme homônimo de Fritz Lang, feito em 1920 e considerado um dos maiores ícones do cinema expressionista alemão. Como se sabe Jerry Siegel e Joe Shuster utilizaram a cidade como modelo para criar o local que o Superman habitaria na Terra;

Dando uma espreguiçada
Dando uma espreguiçada – Arte de Gary Frank

– Johns e Frank amarram a origem clássica do Superman (a imagem em que ele levanta o carro, que ilustra a capa de Action Comics #1) com a amizade dele se reforçando com Lois Lane e Jimmy Olsen – entendam: em Action Comics #1 foi a primeira vez que o personagem fez sua conexão real com o público; ao posar para fotos de Jimmy e Lois no momento em que salva pessoas de um incêndio e ajuda bombeiros, o personagem faz sua conexão com as pessoas que lerão o jornal e reforça os laços com os dois;

Para o alto e avante!
Fim da Origem Secreta: para o alto e avante! – Arte de Gary Frank.

– Ao final da história Johns dá aquele toque clássico de finalização ao fazer o último capítulo deste início de vida adulta do Superman se conectar diretamente com o primeiro: se ele havia chegado numa cidade que só olhava para o alto para ver Lex Luthor como desesperados por uma chance na vida, agora todos olham para o alto por saberem que a esperança sempre estará com todos.


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