[#Análise] Dissecando Noite de Trevas – Metal, da Panini: Edição 2

Chegamos à segunda parte de Noite de Trevas – Metal, a nova saga da DC. Como sabemos, ela é focada no Batman e em um conceito chamado Multiverso de Trevas. Foi criada por Scott Snyder e Greg Capullo com o objetivo de chacoalhar alguns elementos místicos e científicos do Universo DC e usar o Batman e sua rica mitologia como conduíte para essa exploração.

Na última edição, vimos o Homem-Morcego perseguir os mistérios do metal enésimo e das anotações do diário de Carter Hall. Chegou até a encontrar Daniel, o Sonho, vindo diretamente das páginas de Sandman. Enquanto isso, a Liga da Justiça e os Falcões Negros o perderam de vista. Isso após todos descobrirem que Barbatos está observando Bruce Wayne desde tempos imemoriais. Portanto, neste segundo número temos a chance de ver a invasão, o reencontro de Batman com alguns de seus aliados e o que acontece a seguir.

Como fizemos da última fez, vamos separar a análise por edição americana e paginação brasileira. No segundo encadernado estão: Dark Nights: Metal #2, Batman: The Red Death, Batman: The Murder Machine e Batman: The Dawnbreaker. Ou seja, neste segundo volume estão a sequência da história principal e a apresentação de três dos Cavaleiros das Trevas.

Capa de Noite de Trevas - Metal nº 2 por Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.
Capa de Noite de Trevas – Metal nº 2 por Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.

Dark Nights: Metal #2

O que é bacana na aventura principal é que ela mantém o clima de história de detetive enquanto pende mais para a aventura. Contudo, isso a fez perder um pouco do caldo cronológico – e até dramatúrgico – visto na edição anterior. O que não significa que este segundo capítulo seja ruim. Na verdade, ele só carece de um pouco mais de aprofundamento. Como muita coisa precisa acontecer aqui, Snyder e Capullo narram tudo com muita velocidade. Sendo assim, o nível de “suspensão de descrença” do leitor precisa maior que normalmente é em história envolvendo o Batman.

Por outro lado, é verdade que Snyder e Capullo estão fazendo jus ao título da minissérie. Nada que a dupla criou é tão “barulhento” quando Noite de Trevas – Metal. Isso é reforçado pela luta contra o tempo enfrentada pelo personagem principal e o senso de urgência de suas atitudes. Aliás, vale destacar que entre essas atitudes está enganar toda a Liga com os aliados da Batfamília e tecnologia de disfarce. Puro Batman de Scott Snyder.

Página de Noite de Trevas - Metal por Greg Capullo. Batman consegue sacanear até John Constantine e Zatanna.
Página de Noite de Trevas – Metal por Greg Capullo. Batman consegue sacanear até John Constantine e Zatanna.

Mas apesar de tudo que foi comentado, a coisa só funciona mesmo porque Greg Capullo está cuidando da arte. Após tantos anos de experiência com o Homem-Morcego, ele consegue ir do cartunesco ao grotesco com facilidade tremenda. Portanto, é perfeito para abordar todas as facetas dessa história de verão que Snyder bolou para encerrar sua passagem pelo Batman.

Agora vamos às referências (com a numeração da Panini):

9-Krona! Ele surgiu na Era de Prata dos quadrinhos, mais exatamente em 1965 (Green Lantern #40). Foi criado pelos lendários John Broome e Gil Kane. Em sua primeira história, descobrimos que o cientista oano criou uma espécie de visualizador temporal para testemunhar a origem do universo. Através dele, Krona pôde observar a criação de diversas galáxias. Contudo, além de provocar uma catástrofe ambiental, Krona liberou uma série de males pelo universo, obrigando os oanos (que se sentiram responsáveis) a criarem polícias galáticas para combatê-los.

Na Crise nas Infinitas Terras, de 1985, criada por Marv Wolfman e George Pérez, descobrimos que as ações de Krona provocaram repercussões ainda piores. Criaram o Multiverso infinito, um universo único de anti-matéria e seus avatares, Monitor e Anti-Monitor. Este último figurou em diversas aventuras recentes escritas por Geoff Johns, que adora o personagem. Já o Monitor foi transformado em plural, fazendo com que o monitor mais importante seja Nix Uotan.

Krona na Crise nas Infinitas Terras. Arte de George Pérez.
Krona na Crise nas Infinitas Terras. Arte de George Pérez.

O CBR levantou uma teoria interessante sobre o Multiverso de Trevas. Está relacionada ao Multiverso inicial proposto por Wolfman na primeira Crise. Nas palavras deles:

Se o Multiverso de Trevas é o equivalente da matéria escura do universo que conhecemos, deve ser pelo menos tão antigo, senão mais antigo, que nosso universo. Portanto, quando a experiência de Krona aconteceu, todos esses efeitos extraíram algo do Multiverso de Trevas. Isso tornaria o infinito Multiverso um microcosmo, digamos assim, do potencial infinito do Multiverso de Trevas. Por extensão, o Universo de Antimatéria seria uma imitação barata desse potencial – e isso significa muita coisa.

18-A fraternidade entre Batman e Superman. Essa parte pode parecer um pouco confusa, principalmente para quem não acompanha as revistas mensais do Homem de Aço. Recentemente, um arco saiu no Brasil com o título de Superman Renascido. Nele, foi restabelecido que o antigo Superman pré-Novos 52 foi o único que existiu. Tal mudança se espalhou por toda a cronologia, apagando quaisquer memórias que personagens do UDC tinham do Superman anterior. Portanto, para todos os efeitos este é o único Azulão que existiu.

19-21-A Tribo de Judas e os Metais. A Tribo de Judas são os morcegos, que vieram da Tribo dos Pássaros. Falamos um pouco sobre isso na análise do número anterior. Como o Batman (na verdade o Cara de Barro se passando por ele) explica, nos últimos anos ele foi exposto a electrum, dionísium, promécio e metal enésimo. O promécio é um caso à parte, pois ele existe no mundo real (Pm, nº 61 na tabela periódica), mas não tem a mesma aplicação no Universo DC. Wolfman e Pérez estabeleceram em Novos Titãs, em 1981, que a versão manufaturada do metal era regenerativa e fonte de energia. Facilitou até a armadura do Cyborg. Batman está temendo “O Manto”, ou seja, a exposição ao último metal, que fará ele ser trocado de realidade por suas versões malignas do Multiverso de Trevas.

22-23-Kendra e Vandal Savage. Naquele belo capacete de Darth Vader, tão icônico lar da Legião do Mal, Kendra e Savage trocam favores. Ela não está nada confortável com isso, mas detalhes maiores disso devem se desenvolver mais adiante. Fiquemos ligados.

O bebê Darkseid com o Batman. Arte de Noite de Trevas por Greg Capullo.
O bebê Darkseid com o Batman. Arte de Noite de Trevas por Greg Capullo.

24-Reparem nas mãozinhas heavy metal do pequeno Darkseid \o/

24-30-Vamos falar de geografia? O Vale dos Reis e a Pirâmide de Gizé estão separados por cerca de 640 km. Portanto, Snyder deu uma baita repuxada na realidade aqui para fazer dois lugares tão importantes servirem à sua narrativa. De qualquer forma, esses não são os maiores destaques deste último trecho de história.

Noite de Trevas – Metal não está utilizando apenas elementos antigos da cronologia da DC, mas os recentes também. A presença do bebê Darkseid ali é uma das maiores provas disso. Quando Darkseid e o Anti-Monitor se enfrentaram antes do início do Renascimento, ambos morreram, o senhor de Apokolips voltou. Na verdade, ele nasceu como filho da Superwoman da Terra 3 (a versão má da Mulher-Maravilha) e de Mazhas (versão má de Shazam), tornando-se o Bebê Darkseid graças à influência de Graal. Pois é, coisa de novela mexicana.

Superwoman e o Bebê Darkseid em arte de Jason Fabok.
Superwoman e o Bebê Darkseid em arte de Jason Fabok.

Sobre o Gavião Negro ter enfrentado Barbatos no passado? Não temos referências reais disso no Universo DC até agora. Vamos esperar a própria Metal revelar isso.

Strigydae é um nome científico para “corujas de verdade”, que, segundo a santa Wikipédia, existem em quaisquer continentes, menos na Antártica.

Nas últimas páginas acontece o que o Batman mais temia: ele é trocado pelas versões malignas suas, os Cavaleiros das Trevas. São formados por mesclas dele com Mera/Aquaman, Apocalypse, Cyborg, Coringa, Mulher-Maravilha, Flash e Lanterna Verde. A partir de agora vamos conhecê-las!

Morte Escarlate

Coube a uma dupla já conhecida apresentar o Flash do Multiverso de Trevas: Joshua Williamson e Carmine Di Giandomenico. E eles não econimizam nas referências aos grandes eventos do UDC, pois logo de cara a história começa com sinais de Crise – céu vermelho, múltiplas Terras e narrativas familiares, mas distorcidas. Este Barry Allen e o Batman que o está enfrentando (com ares de Capitão Frio) estão na Terra 52. Ela está sendo consumida pela “crise” atual, que é perpetrada, como descobrimos depois, pela própria natureza do Multiverso de Trevas.

Arte de Carmine Di Giandomenico.
Arte de Carmine Di Giandomenico.

Esse Batman é uma versão distorcida de Cavaleiro das trevas, de Frank Miller. Ele quer a Força de Aceleração para tentar reverter tragédias pessoais e construir um mundo melhor. Pelo menos é o que ele acha que esta fazendo. Quando se transforma em Morte Escarlate, ele vai para a Terra 0 e descobre um mundo completamente diferente do seu – um que pretende tomar.

Williamson e Giandomenico trabalham profundamente em cima de um Batman que é muito calcado no trabalho de Miller. É verdade que ele tem uma construção bacana durante a história, bem como conflitos interessantes de serem observados. Contudo, o personagem bebe tanto da obra clássica de Miller que coloca em dúvida sua própria existência. Apesar da estética interessantíssima e de a história ter pontos positivos, o conteúdo deixa a desejar.

Referências

33-Mundo que não deveria existir. Condenado a apodrecer. Deve ser por isso que os Cavaleiros das Trevas invadem o multiverso normal. Percebam também os céus vermelhos, como nas Crises!

38-39-Puro Cavaleiro das Trevas, não?

44-Chegada no núcleo da Força de Aceleração produz transformações narrativas

46-Morte Escarlate aparece. Seu símbolo é uma mescla estilizada dos logotipos de Batman e Flash.

47-52-O mundo começa a colidir e Morte Escarlate recebe contato do Batman Que Ri para invadir a Terra 0. Seu poder e seu rastro provocam destruição a formas vivas, como podemos notar. Aliás, esteticamente é muito legal ver os morcegos sinistros como rastro dele. Lembrando que o  Batman Que Ri é o arauto de Barbatos!

Morte Escarlate na Terra 0! Arte de Camine Di Giandomenico.
Morte Escarlate na Terra 0! Arte de Camine Di Giandomenico.

53-O Flash de verdade é salvo pelo Sr. Destino, envolvido breve e misteriosamente na saga até agora. Saberemos mais sobre isso na próxima edição.

54-Enfim o mundo colapsa, como aconteceu com tantos outros durante Crises anteriores.

Máquina Assassina

Nesta capítulo de Noite de Trevas conhecemos mais uma versão sinistra do Batman. Máquina Assassina é uma mistura do Homem-Morcego com seu colega de Liga da Justiça, Cyborg. Meses atrás na Terra 44, Alfred Pennyworth foi brutalmente assassinado por alguns vilões, o que levou Bruce ao fundo do poço.

Ao conversar com Cyborg, Bruce revela que estava desenvolvendo algo chamado Protocolos Alfred. Era uma forma de manter seu fiel mordomo e segundo pai por perto quando o real viesse a falecer. E é aí que as coisas começam a degringolar.

Máquina Assassina ataca Cyborg na Terra 0. Arte de Riccardo Federici.
Máquina Assassina ataca Cyborg na Terra 0. Arte de Riccardo Federici.

Assim como o Morte Escarlate, esse Batman também é uma versão extrema do Morcego que conhecemos. Seu plano ganha força quando ele recebe contato do Batman Que Ri e une-se a seu bando. A Terra 44, enquanto isso, se transforma em um mundo diabólico. Por quê? Porque os Protocolos Alfred tinham como objetivo proteger Bruce de qualquer perigo. Imaginem o que aconteceu…

Um dos tie-ins mais interessantes até agora, Máquina Assassina questiona o poder das máquinas em nossas vidas e a paranoia de Bruce Wayne. É uma versão ainda mais aterrorizante do que o Projeto OMAC foi anos atrás. Destaque também para a arte de Riccardo Federici, que ofereceu algumas das páginas mais espetaculares lançadas pela DC neste ano.

Referências

60-Batman OMAC do Futuro!

61- O uniforme da Arlequina está muito parecido com o do cinema, o que dá o tom da história.

62-I will break you!

68-Aqui Bruce novamente referencia Batman do Futuro e Reino do Amanhã. Quieto na caverna, controla os seus de forma questionável.

70- Baita cena Guerra dos Mundos, hein?!

Arte de Máquina Assassina por Riccardo Federici.
Arte de Máquina Assassina por Riccardo Federici.

72-E aqui, uma baita cena Mortal Kombat.

74-78-Conhecemos o bando do Batman Que Ri é seus planos sinistros! A arte de Federici coube perfeitamente com o visual ameaçador dessa galera.

Destruidor da Luz

Aqui o jovem Bruce Wayne ganha um anel de Lanterna Verde após a morte de seus pais. A morte de Abin Sur não é mostrada, como na clássica origem de Hal Jordan, mas tudo leva a crer que tudo aconteceu ao mesmo tempo: o assassinato dos Wayne e a queda de Sur na Terra.

O anel reconhece a capacidade de Bruce em lidar com o medo. Contudo, o jovem tem tanta escuridão em seu âmago que consegue sobrepujar a regra absoluta do anel e o utiliza para matar Joe Chill. A partir daí um reino de terror é instaurado em Gotham City, perpetrado pelo Lanterna Verde da Terra: o jovem Bruce Wayne. Ele tenta ressuscitar os pais, mas só consegue zumbis bizarros como resultado. O garoto está insano.

Página de Destruidor da Luz. Arte de Ethan Van Sciver.
Página de Destruidor da Luz. Arte de Ethan Van Sciver.

Com o passar dos anos, Wayne envelheceu e agiu com absoluta insensatez. Assassinou vilões fria e brutalmente, gerando medo até nos aliados políticos e policiais. Ou seja, O autor Sam Humphries e o artista Ethan Van Sciver usam essa HQ para examinar como seria um vingativo Bruce Wayne com o poder inimaginável de um Lanterna Verde obstinado e paranoico.

A coisa chega em um ponto que toda Tropa dos Lanternas Verdes visitam a Terra 32, onde tudo isso está  acontecendo, para impedi-lo de uma vez. Contudo, o poder é tamanho que o Destruidor da Luz mata toda a Tropa e recebe o contato do Batman Que Ri para perpetrar seu terror na Terra 0. Hal Jordan o encontra, mas, antes que possa ser consumido pela escuridão do algoz, é salvo pelo Sr. Destino também.

Humphries exagera ainda mais na “fodeza” do Homem-Morcego que nas versões anteriormente citadas. A HQ é uma das mais fracas da saga até aqui, mostrando muita brutalidade desnecessária e quase nenhuma profundidade de personagem. Além disso, não possui nenhuma referência interessante para analisarmos, fazendo com que os comentários sobre ela se encerrem por aqui.

Veredito:

Calcada em aspectos do Batman que vimos surgir e serem utilizados por autores diferentes durante as décadas, a segunda edição de Noite de Trevas – Metal apresentou versões do Homem-Morcego com pouca profundidade dramatúrgica mas muito estilo visual. Não seria nada anormal até os fãs mais hardcore do Batman ficarem incomodados com essa história, que tem proporções multiversais mas acrescentam muito pouco à sua mitologia.

Justiça seja feita, os Cavaleiros das Trevas são uma experimentação. Alguns deles resultaram em certos elementos e referências que foram bacanas de ver, mas ainda falta algo. Ainda falta Metal realmente mostrar a que veio.

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