[#Review] A catarse de Donny Cates em Babyteeth

Donny Cates é um roteirista emergente no mercado, tendo passado por títulos como Doutor Estranho (2017-2018) e a minissérie Damnation (2018), com Nick Spencer e Rod Reis, e Thanos (2017-) na Marvel e sendo notável por quadrinhos autorais, como Buzzkill (2017), God Country (2017) e Redneck (2017-) para a Image. Agora, além de escrever o atual título do Venom (2018-) e as minisséries do Motoqueiro Fantasma Cósmico (2018), derivada de sua fase em Thanos, e Death Of The Inhumans (2018), o autor é responsável por capitanear o retorno da iniciativa Marvel Knights.

O selo, originalmente criado por Joe Quesada e Jimmy Palmiotti, tinha (e novamente terá) como foco histórias mais experimentais, flertando com o quadrinho independente e fora da continuidade da editora. O que chama a minha atenção é um elemento em comum que vejo entre todos os títulos que Cates escreveu e o selo que está prestes a curar: a catarse.

Donny Cates. Reprodução.
Donny Cates. Reprodução.

“Catarse” é uma palavra que pode conter inúmeros significados no dicionário. Na religião e antiguidade grega, a palavra kátharsis tem sentido de libertação, purgação, purificação de um elemento estranho à essência, ou à natureza. Algo que corrompe. Na estética/teatro ou na psicologia tem o sentido de liberação de emoções ou tensões reprimidas, seja do ser ou do espectador. E na psicanálise tem o sentido de trazer à consciência estados afetivos e lembranças reprimidos dentro do inconsciente, um ato libertador, mas nem sempre positivo.

Donny Cates é tudo isso. Algumas vezes já me questionei se ele é um gênio ou um louco. Talvez eu tenha chegado à conclusão de que ele se esforça muito para ser os dois. A obra dele já é corrupta por natureza. O autor sempre se dá ao trabalho de, em alguma instância, questionar instituições, sejam elas religiosas, governamentais ou familiares em seus trabalhos. A iconoclastia é algo frequente no que ele escreve (God Country e Thanos são literalmente sobre isso) e todas essas referências acabam culminando em Babyteeth (2017-), quadrinho co-criado por ele e Garry Brown, com as cores de Mark Englert e letreiramento de Taylor Eposito para a ainda jovem AfterShock Comics.

A trama é uma releitura do clássico mito do anticristo, uma jovem, de preferência virgem, dá à luz à uma criança que trará à Terra o fim dos tempos. Uma figura messiânica ao avesso, a cria de Lúcifer é utilizada na cultura pop inúmeras vezes e em vários gêneros, desde o terror à comédia.

A primeira edição começa in media res e é contada inteiramente em flashback pela protagonista Sadie Ritter, a mãe do bebê em questão, que grava para ele, de um futuro próximo, uma mensagem contando a sua história. Como ele nasceu, os percalços que passou, quantas e quais pessoas tentaram mata-lo (e a ela) e como ambos, “acidentalmente”, se tornaram o epicentro do fim do mundo. (Por que as aspas? Talvez não tenha sido tão acidental assim.)

Página de Babyteeth por Garry Brown.
Página de Babyteeth por Garry Brown.

Sadie era uma adolescente de 16 anos consideravelmente comum quando engravidou. O pai da criança nunca esteve por perto, a única pessoa em quem ela confiava o bastante para contar sobre a gestação era a irmã Heather que, de acordo com a própria Sadie, não era uma boa pessoa, mas era uma irmã mais velha incrível. Heather é peça fundamental na trama. Ela é a força que protege Sadie e o bebê a qualquer custo, bem, ela e o pai das garotas, Michael, ou Capitão, como prefere ser chamado.

No dia em que a bolsa estourou, o mundo estremeceu. A cada contração, um terremoto. No epicentro, Sadie e Heather indo para o hospital. A cada contração, um terremoto. O trânsito não ajuda, o trânsito nunca ajuda. E a cada contração, um terremoto. É o tipo de acontecimento que chama atenção, mesmo que as pessoas não relacionem diretamente tremores de 5.0 na escala Richter ao nascimento de um bebê. Durante o parto, que por si só é um evento catártico, Sadie morre (ou acha que morre), e apenas acorda ao som do choro da criatura ímpia que foi expurgada de seu corpo, o seu filho.

Página de Babyteeth por Garry Brown.
Página de Babyteeth por Garry Brown.

A primeira edição tem um ritmo tão dinâmico que soa como música. Porque, por mais que tenha caixas de narração do início ao fim e, de certa forma, elas serem descritivas, não é um texto maçante. É uma relação curiosa entre o que está escrito e o que é mostrado. É complementar e sinérgico. Como se uma única pessoa fosse responsável pelas duas partes, e não é. A arte de Garry Brown é suja, pesada, parece que sua tinta foi colocada no papel com a força necessária que Babyteeth precisa. Como se ele realmente estivesse expressando algo que fosse muito profundo, e pessoal, para ele.

Página de Babyteeth por Garry Brown.
Página de Babyteeth por Garry Brown.

Cates, ao longo das outras edições, escala o nível da trama em um virar de página. A história se torna profunda, tocante e extremamente surtada. Cates também utiliza de um método que, eu considero Grant Morrison, Warren Ellis e Joss Whedon serem mestres. A cristalização do absurdo através do diálogo. Uma frase pode ter o conteúdo mais esdrúxulo e inacreditável possível, mas quando falada pelo personagem certo, no momento certo, se torna uma verdade inquestionável. E conseguir fazer isso com sucesso é algo a ser louvado.

Em algum momento, eu achei que estava sendo original por pensar que Babyteeth na verdade era sobre família, mas o próprio Cates comentou isso como o tema principal do quadrinho em uma entrevista à Paste Magazine, em junho de 2017. E não é só porque ele é o autor que concebeu a história, mas ele está certo. Babyteeth é sobre uma garota, uma mãe, que talvez não tenha nascido para isso (ao contrário de como nossa sociedade, infelizmente, impõe) tentando sobreviver e tentando fazer o melhor para o seu filho. Ela passa sobre os obstáculos e enfrenta o medo por causa da família. O Capitão, Heather, eles fazem parte do que há de melhor e pior na criação de Sadie e da criança. Afinal, sua família é onde tudo sobre você começou, você se lembrando disso ou não.

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