Capitão América da Salvat: O que esperar do compilado de Mark Waid?

Capitão América da Salvat: Nova coleção da editora traz toda fase clássica de Mark Waid com o personagem!

Já era um clamor do leitor brasileiro que a fase noventista de Mark Waid no quadrinho do Capitão América fosse publicada no país em um formato unificado para apreciação e leitura, mas também pelo colecionismo, que na última década ganhou muita força com o advento da enxurrada de encadernados em nosso mercado.

Eis que a Salvat anuncia a compilação da passagem de Waid pelo Sentinela da Liberdade, em três imensos volumes especiais e limitados, com direito até a caixa protetora. Uma jogada que parece ser ousada, mas, avaliando que uma grande parcela dos consumidores atuais compra encadernados sem muito critério acerca da qualidade do material ali contido, talvez não seja tanto. Independente do formato, o leitor que nunca teve contato com este material, e de fato quer gastar seu dinheiro com leitura de qualidade, pode se questionar: Isso vale a pena? O que eu encontrarei nesse material? E mesmo não gostando/conhecendo o personagem, posso me divertir com essas histórias?

Capitão América da Salvat - a nova coleção da editora no Brasil, contendo o material que Mark Waid produziu nos anos 1990.
Capitão América da Salvat – a nova coleção da editora no Brasil, contendo o material que Mark Waid produziu nos anos 1990.

Para isso, preparamos um post contextualizando o material em meio aos conturbados anos 1990 na indústria de quadrinhos e avaliamos a proposta de Waid durante sua passagem pelo quadrinho do Primeiro Vingador.

O Legado de Gruenwald

Para compreender o início da passagem de Mark Waid (inicialmente com arte de Ron Garney) pelo Capitão América, primeiramente devemos entender que esta não se trata de uma jornada ininterrupta de vagalhões de edições no mesmo título. Apesar de ter escrito muita coisa do Capitão, devido a decisões editorias da Marvel na época, a passagem mais longa do autor em um quadrinho do Capitão nos anos noventa é de somente 13 edições.

Portanto, a relação Waid/Rogers é um pouco confusa, interrompida frequentemente, e se assemelha a pequenas fotografias do personagem em oposição a uma construção com fundação, alicerces e finalização. Apesar de todos estes percalços (ou talvez por causa deles), Waid faz o que sempre fez de melhor: focar uma característica específica do seu protagonista e, através de artifícios narrativos, mostrar porquê aquilo faz dele o que ele é.

A situação do Capitão América em Setembro de 1995 era a de um personagem moribundo. A celebrada e (para o bem ou para o mal) memorável passagem de 10 anos do roteirista/editor Mark Gruenwald pelo título deixou Steve Rogers sem poderes devido a um desgaste do soro do supersoldado. Sem um plano de aposentadoria, o Capitão veste a famigerada armadura feita pelo Homem de Ferro e continua lutando bravamente até o fim da edição 443 de Captain America, quando termina a última história de Gruenwald com o personagem.

Dois recomeços

Nessas condições, Waid e Garney assumem o título do Sentinela da Liberdade com a árdua tarefa de trazer o personagem praticamente de volta dos mortos. A marcante primeira edição de Waid é escrita de forma sagaz. Ali vemos o Capitão pelo olhar de muitos personagens da Marvel em oposição a uma edição na qual o protagonista é o sujeito atuante, aqui ele é o objeto em foco. A estratégia narrativa serve perfeitamente para ilustrar a importância e relevância do personagem (algo bastante desgastado nos anos 1990 devido ao enorme sucesso de protagonistas mais extremos como Wolverine, Lobo, etc.), além de fazer uma bela introdução ao leitor não familiarizado. A memorável fala de Hércules sobre Steve Rogers é ainda celebrada por muitos leitores como a síntese do que é o Capitão América dentro da Marvel:

No Olimpo, nós medimos sabedoria contra Atena… velocidade contra Hermes… poder contra Zeus. Mas medimos a coragem contra o Capitão América ”. (…) Esse foi o seu legado. Ele nos ensinou que sempre há um caminho.

A partir deste ponto Waid e Garney começam sua primeira jornada com o Capitão sem saber que duraria tão pouco, pois a malfadada iniciativa Heróis Renascem (que colocaria ícones criativos da época como Jim Lee, Rob Liefeld, Whilce Portacio e companhia no comando das principais franquias da editora) estava chegando. Waid e Garney, portanto, têm total liberdade editorial no primeiro arco, tendo em vista que o título seria invariavelmente cancelado. Com o óbvio fracasso de Heróis Renascem a mesma equipe criativa retorna assim para uma passagem um pouco mais estruturada, porém com muito mais interferência editorial. Nada que o escritor não consiga driblar ao curso de sua passagem.

Os arcos iniciais de Waid e Garney são recheados de referências visuais às origens do personagem. A dupla criativa revisita, por exemplo, o congelamento do Capitão, suas batalhas na Segunda Guerra e até procedimentos cirúrgicos. Algo recorrente em suas origens nos anos 1940. Temas como o retorno do herói caído e o homem traído por seu país também são explorados de forma bastante convincente por Waid e estabelecem o padrão a ser seguido para este tipo de história. Algo que foi revisitado diversas vezes por escritores que seguiram esta passagem.

Portanto, a tarefa de devolver os poderes e o status do Capitão leva o autor a aliar Steve Rogers a seu pior inimigo, o Caveira Vermelha (Sim!). Com certeza um dos arcos mais divertidos e criativos de Waid no Capitão. Usando a explicação esdrúxula, porém verossímil, dentro do contexto de que o Caveira está intimamente e fisiologicamente ligado a Rogers, Waid coloca o herói a prova em muitas aventuras como um homem sem poderes e que precisa provar seu valor como herói.

Sharon Carter e o espelho do cinismo noventista

Um tema recorrente durante todas estas passagens de Waid pelo Capitão é a dualidade do cinismo da década de 1990 contra o heroísmo muitas vezes idealizado demais ao ponto da cafonice do protagonista. Isto é feito através de uma das versões mais amargas de Sharon Carter já mostradas na Marvel. Apesar das críticas válidas acerca da função rasa da personagem no quadrinho, ela serve como peça fundamental para contrapor toda a ingenuidade e o idealismo exacerbado que é uma armadilha para qualquer autor que escreve Capitão América. Sharon muitas vezes faz Steve entender o contexto no qual ele está inserido.

É inegável que Sharon é a anti heroína traumatizada e ressentida dos anos 1990. Um enorme clichê e uma jogada desconfortável muitas vezes. As passagens na qual a personagem relembra as coisas degradantes que teve de suportar na prisão deixam implícitas doses de violência psicológica e sexual e muito abuso. Algumas vezes esse prisma torna a forma como Sharon é retratada bastante desconfortável, porém não chega aos limites da gratuidade.

A intenção de Waid é trabalhar com contrapontos e chegar a um meio termo. O Capitão aprende com Sharon que nem tudo nos Estados Unidos vale a pena preservar e Sharon aprende com Steve que os ideais dele são nobres, porém muitas vezes precisam de orientação e contextualização.

A batalha definitiva e a morte do saudosismo

Um tema que Waid reforça bastante em suas passagens pelo Capitão América é que Steve Rogers para crescer precisa cada vez mais incinerar o estigma de “homem fora de seu tempo”. O clássico mote estabelecido nos quadrinhos dos Vingadores aqui é visto como um obstáculo de crescimento para o herói.

Para que o personagem cresça, Waid coloca o Capitão contra o inimigo que ele foi criado para derrotar, porém nunca teve a chance de combater: Adolf Hittler. Sharon Carter reforça que esta é a batalha que o Capitão América foi feito para lutar. Especificamente aqui, Waid enfatiza toda a situação mal resolvida de Rogers com o nazismo alemão. Algo que nunca havia sido abordado antes de forma tão honesta e heroica em quadrinhos do personagem. O Capitão tinha contas a acertar com Hittler, como diz o próprio Caveira Vermelha “Te tortura saber que você foi criado para derrotá-lo… e nunca teve sua chance”, e aqui ele pode dar finalmente um fim a este mal estar de quase 50 anos, enfrentar seu maior fantasma e enfim crescer além do herói da segunda guerra para algo muito maior.

Portanto Waid deixa o Capitão pronto para enfrentar os desafios de uma década amarga e cínica como os anos 1990 sem os fardos e traumas de seu passado interrompido. O personagem ganha foco e força através de seu elenco de apoio. E nas palavras de seu melhor amigo Bucky Barnes, que aparece em espírito dizendo que ele não pode viver no passado, vemos Waid matar o saudosismo de Rogers de forma sadia e declarar que ser um “homem fora de seu tempo” não é algo psicologicamente saudável para nenhum herói. Aliás, para nenhuma pessoa.

Então vale a pena?

Logicamente o texto aqui não tem intenção de pontuar cada um dos arcos contidos nos encadernados da Salvat. Isso seria extremamente enfadonho e sem propósito. A ideia era traçar um panorama rápido sobre a situação e contexto no qual Mark Waid assume os quadrinhos do Capitão América, sua intenção com o personagem e pontuar os temas que o autor escolhe para contar suas histórias.

O leitor que se interessou pelos temas descritos acima pode ficar seguro de que em grande parte das histórias vai encontrá-los escritos da melhor maneira possível por Waid, dentro do que o editorial da Marvel pedia na época. Vale lembrar também que como o próprio Waid reforça constantemente em entrevistas, o Capitão é um brinquedo da Marvel. Portanto, algumas coisas ali (como a própria interrupção de sua primeira passagem) é advinda desses desmandos editoriais da empresa.

Capitão América de Mark Waid em arte de Ron Garney.
Capitão América de Mark Waid em arte de Ron Garney.

De qualquer maneira, avaliando o contexto e maneirismos da década de 1990, essa fase de Waid que forma o Capitão América da Salvat é uma sucessão de largas passadas esparsas do personagem em uma direção mais progressista. Seguindo uma fase cultuada pelos leitores tradicionais, como foi a de Gruenwald, Waid consegue deixar sua marca e suas homenagens, fazer o personagem evoluir, lidar com pendências do passado e criticar o cinismo de sua época como poucos autores fizeram. Isso tudo com várias interrupções no caminho. É o Capitão definitivo? Para muitos fãs sim. Resta agora você leitor dar uma chance a esta coletânea de um grande autor e tirar suas próprias conclusões.

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