[#TerraZero10Anos] Capitão América: 75 anos de reflexões – Parte 1

Quando abrimos o Terra Zero para falar de outros quadrinhos fora do eixo DC-Nacional, era impossível evitarmos a Marvel. Isso mudou tudo por aqui. Alterou não somente nossa cara, mas também o perfil de quem nos visitava. A partir daí começamos a criar colunas para segmentar melhor alguns assuntos abordados com regularidade no site, algo que abolimos recentemente para deixar os textos mais versáteis. Uma dessas atrações era o Clarim Terra 8, do Igor Tavares, hoje um membro fundamental da redação do site.

Em sua estreia, ele quebrou a banca fazendo um superespecial de 75 anos do Capitão América. Agora que a Salvat vai lançar uma coleção com a fase clássica completa de Mark Waid nas lojas [Nota: vejam aqui o texto definitivo sobre o tema, também de autoria do Igor], nada melhor que relembrar este momento importantíssimo do site e nossa celebração de 10 anos.

O Especial de 10 Anos do Terra Zero republicará alguns dos maiores textos já lançados aqui. Semanalmente, com a hashtag #TerraZero10Anos. Além disso, teremos um item no menu que redireciona para uma página com todas essas republicações. Não percam – e aproveitem para conhecer nossa história!


O Clarim Terra 8 é o espaço dentro do Multiverso do Terra Zero para comentarmos um pouco sobre a situação na Marvel Comics. Então guarde seus Batarangues e Anéis Energéticos para falarmos um pouco sobre Escudos de liga de Vibranium e Manoplas do Infinito. Hoje, o assunto é o Capitão América.


Sendo brutalmente franco, o Capitão América definitivamente não é o super-herói mais popular e/ou querido da Marvel, tampouco dos quadrinhos em geral. Excluindo, logicamente, os fãs mais ardorosos do Sentinela da Liberdade, todo mundo tem algum outro personagem em quadrinhos que entra na sua lista de favoritos antes de Steve Rogers. Isso é perfeitamente compreensível. Trata-se de um dos personagens dos mais antigos da indústria de quadrinhos ainda em atividade e, dadas as motivações de sua criação, é um pouco complicado manter o interesse do público no conceito do Supersoldado por tanto tempo. Com uma história editorial de altos e baixos, uma coisa sempre marcou as encarnações do personagem: de alguma forma (e dentro das limitações editoriais), os autores tentaram fazer do Capitão uma fotografia da indústria de gibis no período em que o escreviam e, por muitas vezes, um reflexo da sociedade que os cercava naquele determinado momento.

Captain America #1 comic book cover from Marvel Entertainment. Art by Steve McNiven. Original Filename: CAPAV2001_cov_col.tifvia Flatbed Web
Capitão América – um reflexo da indústria dos quadrinhos. Arte: Steve McNiven.

Aqui, o objetivo não é contar em detalhes a origem e a evolução do personagem em 75 anos de existência, mas, sim, relacionar suas diferentes versões ao contexto no qual aquelas histórias estavam inseridas e mostrar porque este personagem ainda é tão importante para a nossa querida indústria.

A Era de Ouro

Atualmente associamos o Capitão América ao universo Marvel e isso faz total sentido. No entanto, as origens do personagem se dão na década de 1940, na extinta Timely Comics – um embrião do que é a Marvel hoje em dia.

Felizmente, a saga do garoto franzino e pobre do Brooklyn com um enorme coração e um forte desejo de ajudar seu país na segunda guerra já foi contada e recontada diversas vezes e em diversos formatos ao longo dos anos nos gibis do Capitão América. O processo ao qual o jovem Steve Rogers se submeteu e todos os trâmites do Projeto Renascimento, além da participação e relação do personagem com o bioquímico Abraham Erskine, foram descritos de forma inteligível e eficiente tanto nos quadrinhos quanto no cinema. A transformação do estudante de artes fracote e determinado no primeiro super-herói dos EUA é uma das histórias mais emblemáticas do universo Marvel.

A clássica primeira aparição do Capitão América pela Timely Comics. Arte: Jack Kirby.
A clássica primeira aparição do Capitão América pela Timely Comics. Arte: Jack Kirby.

O Capitão América foi concebido por Joe Simon e Jack Kirby em 1940. Sendo ambos os autores estadunidenses descendentes de judeus em meio a um cenário de guerra na Europa (onde muitos ainda tinham familiares) o personagem torna-se um reflexo do sentimento da população americana em se envolver no conflito armado europeu. A criação do personagem e muitas de suas aventuras iniciais publicadas pela Timely precederam o envolvimento dos Estados Unidos na guerra, que só se deu após o bombardeio Japonês a Pearl Harbor no Havaí em Dezembro de 1941. A partir do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, tanto os gibis do Capitão quanto de diversos outros personagens contemporâneos (como Superman, Batman e o próprio Capitão Marvel da extinta editora Fawcett) são usados na propagando bélica do país, como um meio de arrecadar os chamados war bonds – títulos do governo comprados pela população para financiar os esforços de guerra.

Apesar de ter sido precedido pelo super-herói conhecido como The Shield da MLJ Comics (atualmente conhecida como Archie Comics), o Capitão América rapidamente se tornou o herói em quadrinhos com tema patriótico mais popular da década de 1940, fato notado pela aparição do personagem em um título com seu próprio nome na capa, em oposição às publicações com formato de antologias tão populares naquela época. A enorme popularidade do Sentinela da liberdade no início da década de 1940 atraiu a atenção da MLJ Comics, que alegava que o escudo triangular do personagem era muito semelhante ao emblema peitoral do personagem The Shield. Com isso na segunda edição de Captain America Simon e Kirby criaram o icônico escudo redondo que, posteriormente (na edição número 3), começa a ser utilizado como uma arma projétil, em uma ideia do iniciante autor Stan Lee.

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Semelhanças entre The Shield da MLJ e o Capitão ocasionaram a aparição do escudo circular. Arte: Irv Novick.

O inimigo principal do Capitão América e de alguns super heróis da época, logicamente, eram os Nazistas. Isso é representado de maneira muito forte em suas primeiras aventuras, tanto na figura de Adolf Hitler quanto em seu principal antagonista, o Caveira Vermelha.

Com o fim da guerra em 1945 e o posterior fim da Timely em 1950, o Capitão e alguns outros super heróis do gênero perderam popularidade. Suas últimas histórias pela Timely foram renomeadas com títulos como Captain America’s Weird Tales e contavam histórias não relacionadas ao conflito bélico europeu. Até que, finalmente, o gibi se tornou somente Weird Tales e publicava somente histórias de horror e suspense, sem a presença do Capitão.

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O escudo do Capitão América foi adaptado para o formato redondo já na sua segunda edição em 1941. Arte: Jack Kirby.

O primeiro retorno do Capitão aos quadrinhos se deu em 1953, agora já pela Atlas Comics. Sem nazistas para enfrentar, o Capitão se voltou contra a ameaça ao estilo de vida estadunidense naquele momento: os comunistas. Na época, o personagem estrelou um gibi intitulado Captain America…Commie Smasher! (algo como Capitão América… Esmagador de Comunas!), entre alguns outros títulos como Young Men. Um reflexo da paranoia macarthista em relação ao regime soviético em ascensão.

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Capitão América combate os comunistas na década de 1950. Arte: John Romita Sr.

Felizmente, esta fase anti-comunista durou muito pouco tempo e, na década de 1970, foi “retconizada” por Steve Englehart e Sal Buscema, já na Marvel. Os autores atribuíram o estranho comportamento do herói na década de 1950 ao personagem William Burnside (conhecido também como o Grande Diretor) – um professor universitário de história obcecado com a figura do Capitão América, que descobre a fórmula do soro do supersoldado e a injeta em si mesmo, além de fazer cirurgias plásticas para ficar fisicamente igual a Steve Rogers. Burnside, no entanto, não foi submetido ao tratamento dos raios vita e acaba não tendo todas as atribuições físicas do herói.

Apesar de alguns outros personagens terem utilizado o uniforme do Capitão América nos anos 1950, o verdadeiro Capitão, como conta a lenda do herói, sofreu um acidente aéreo nos dias finais da Segunda Guerra Mundial ao impedir os planos do Barão Zemo. O avião experimental de Zemo carregado de com explosivos explode sobre o norte do Oceano Atlântico e tanto Bucky quanto o Capitão são dados como mortos… até o início da Era de Prata.


O intuito deste texto é relacionar os períodos históricos da indústria de quadrinhos a um de seus grandes ícones, mostrar como as encanações do Capitão América refletem o contexto no qual ele está inserido e incentivar a leitura deste personagem que é um dos maiores símbolos da Marvel há mais de sete décadas. Na próxima semana, falaremos da Era da Prata e da Era de Bronze na vida do Sentinela da Liberdade.


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