[#Review] Royal City, Jeff Lemire e a Solidão

Atualmente é possível afirmar, sem sombra de dúvidas, que Jeff Lemire é um dos maiores nomes da indústria de quadrinhos. O prolífico roteirista e desenhista é responsável por inúmeras obras autorais aclamadas, como Essex County (Top Shelf, 2007-2008), Sweet Tooth (Vertigo, 2009-2012), The Underwater Welder (Top Shelf, 2012), Trillium (Vertigo, 2013-2014), o mais recente Black Hammer (Dark Horse, 2016-), que lhe rendeu um Eisner de melhor nova série.

Assim como trabalhos para DC, como Homem-Animal (2011-2014), Liga da Justiça Sombria (2012-2013), Arqueiro Verde (2013-2014) e para a Marvel, como All-New Hawkeye (2015-2016), Cavaleiro da Lua (2016-2017), Velho Logan (2016-2017). Além de sua trilogia Bloodshot (2015-2018) para a Valiant Comics.

Jeff Lemire, por Jamie Hogge em http://www.jaimehogge.com

Não é à toa que o quadrinista acumula projetos em seu portfólio. Lemire é um autor de talento e, mesmo com amarras de grandes editoras, consegue conduzir uma narrativa de uma forma singela, ainda que repleta de camadas. Seus mais recentes títulos pela Image Comics são um exemplo disso. Descender (2015-), com arte de Dustin Nguyen, acompanha um jovem robô lutando para se manter vivo em um universo hostil. Em Royal City (2017-), título mensal que ele escreve e desenha, somos introduzidos à família Pike e à uma tragédia do acaso. O patriarca Pete sofre um ataque cardíaco, o que força a família a se unir novamente, queiram eles ou não.

Lemire utiliza de Tommy, o caçula e já falecido filho da família Pike como fio condutor da história. Tommy é retratado de diversas maneiras, de acordo com as expectativas de quem o vê. Não é claro se o jovem é um fantasma, um delírio, ou apenas uma memória, mas todos os membros da família interagem com ele nesse período em que Pete está no hospital.

Arte de Royal City por Jeff Lemire.
Arte de Royal City por Jeff Lemire.

Patrick vê o irmão da mesma forma que estava quando faleceu. Sua relação com a memória de Tommy é complicada, já que Patrick é um escritor que obteve sucesso com seu primeiro romance, baseado em manuscritos do irmão, mas nunca emplacou nada original. Tara vê o caçula como a criança de quem era babá, pela frustração de ter perdido o filho ainda durante a gravidez. Richie vê Tommy como seu espelho, como uma tentativa de validar suas atitudes auto destrutivas e irresponsáveis. E a mãe, Patti vê Tommy como um padre, como um desejo de que o fim do jovem filho tenha sido caminho dos céus, ou para que ele, de alguma forma, possa perdoar seus próprios pecados.

Dramas familiares são frequentemente retratados no cinema e na TV, mas raramente são vistos nas HQs. Lemire já flerta com o tema há algum tempo, como em Sweet Tooth em que ele estabelece a inusitada relação paternal entre Jepperd e Gus, mas o drama familiar nunca foi o foco principal de suas histórias como é aqui. Em Royal City cada edição é como um novo capítulo de uma novela que compreende o meio que está inserida. Lemire, em alguns momentos, faz com que as cenas escorram dos quadros. As páginas transbordam e é como se essa história não coubesse só ali. Estranhamente isso é um ponto positivo. Algo como o artista Andrea Sorrentino, colaborador de Lemire em Arqueiro Verde, Velho Logan e Gideon Falls (Image Comics, 2018) faz ao romper com convenções de design e grid.

Arte de Royal City por Jeff Lemire.
Arte de Royal City por Jeff Lemire.

A arte de Lemire parece mais livre do que em seus trabalhos anteriores, como ele mesmo afirma em seu comentário ao fim da primeira edição, Royal City é um trabalho desafiador. Talvez essa sensação de que arte é mais livre seja a pressa de manter um título mensal. O autor se diz não estar completamente confortável com isso, talvez também por colorir todas as edições. Ele está em uma posição arriscada. É um trabalho que levou, pelo menos, um ano de desenvolvimento até chegar às comic shops. E Lemire fez tudo sozinho.

Royal City é sobre desconexão, é sobre solidão, e como cada um de nós passa por problemas e, na maioria das vezes, temos que lidar com eles sozinhos. Não é nem um pouco fácil se sentir sozinho. Se sentir assim é pior ainda quando se está rodeado de pessoas e pior ainda quando essas pessoas são a sua própria família. Expectativas não serão alcançadas, pois a versão que uns tem dos outros é tão idealizada que as cumprir seria impossível. Tommy nunca foi e nunca será o que seus pais e irmãos gostariam que ele fosse. Patrick nunca mais será o mesmo escritor do primeiro livro, Tara não é mãe e todo sucesso profissional do mundo não irá mudar isso, Richie não vai se livrar da culpa de ter perdido Tommy e não há garrafa de whisky barato que afogue isso. Patti e Pete nunca tiveram um casamento perfeito.

Arte de Royal City por Jeff Lemire.
Arte de Royal City por Jeff Lemire.

Em Royal City todos os personagens principais cometeram erros dos quais não conseguem fugir. A lembrança de Tommy é necessária para que eles finalmente confrontem seus demônios, aprendam a viver com eles e, para que um dia, possam superar tudo isso e ser uma família novamente.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com