[#Superman80Anos] Analisando Homem de Aço, de Brian Michael Bendis

[Nota: Este artigo integra o Superespecial Superman 80 Anos, que fará parte do site até dezembro deste ano. Acompanhem todos os artigos deste especial clicando aqui!]


Homem de Aço, ou The Man of Steel, como saiu originalmente nos Estados Unidos, foi concluída na quarta-feira da semana passada, em sua sexta edição. Ela teve arte de Jason Fabok, com cores de Alex Sinclair. Cada um dos outros cinco números da revista foi desenhado por um artista diferente (Ivan Reis & Joe Prado, Evan “Doc” Shaner, Ryan Sook, Kevin Maguire e Adam Hughes, respectivamente), mas Fabok teve uma participação especial em todas elas.

Agora que Brian Michael Bendis encerrou sua primeira fase com o Superman, concluindo esta minissérie e preparando-se para assumir suas revistas mensais, que sairão a partir de amanhã, podemos olhar com mais profundidade para o que ele quis transmitir com Homem de Aço.

Antes de mais nada, é muito importante estabelecer como o Superman foi transformado em uma moeda de troca entre grandes artistas da indústria. Foi assim quando John Romita Jr. chegou na DC, e o mesmo se repetiu agora com Bendis. Isso mostra o poder do personagem entre os profissionais, mesmo que Batman e Liga da Justiça costumem vender mais que as revistas dele.

Pôster de divulgação de Homem de Aço com arte de Ivan Reis e Joe Prado.
Pôster de divulgação de Homem de Aço com arte de Ivan Reis e Joe Prado.

Com bastante liberdade na nova empresa, Bendis prometeu revisar o que destruiu Krypton no passado e nos fazer uma grande revelação. Este foi vendido como o principal mote de Homem de Aço, mas, como não podia deixar de ser, isso não passava de fumaça; a motivação principal por trás da história é bem mais pessoal e interessante: o tema aqui é família.

A História, o Vilão e os Fatos

Bendis começou sua passagem de forma bem morna. Quem leu os prólogos desta minissérie, publicados em Action Comics #1000 e DC Nation #0, respectivamente, ficou com a sensação de que faltava alguma coisa. Este sentimento de ausência foi reforçado pelas aparições de personagens novos que ainda não mostraram a que vieram e por um vilão genérico, que pareceu ter pouco a oferecer. Isso sem contar a estranha mudança de personalidade de Perry White, o chefão do Planeta Diário, cujos trejeitos e falas ficaram parecedíssimos com o editor-chefe de um certo jornal da editora concorrente.

O fato é que logo de cara os leitores tiveram contato com um Superman perdido, sem sua esposa e filho, tentando reecontrar seu lugar como profissional e como super-herói. Graças ao salto dado entre o final das passagens de Peter Tomasi e Dan Jurgens por Superman e Action Comics e a chegada de Bendis, muitas respostas precisaram ser dadas nesta minissérie. Felizmente, o autor ofereceu a maioria delas.

Rogol Zaar, o vilão de Homem de Aço, em arte de Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.
Rogol Zaar, o vilão de Homem de Aço, em arte de Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.

Rogol Zaar ainda tem um passado misterioso. A única coisa que sabemos até agora é que ele possui um ódio profundo contra Krypton e seu povo. Aparentemente, a fonte exata desse desejo de vingança é desconhecida, mas uma cena de flashback na minissérie mostrou que Zaar, em determinado momento de sua existência, passou a considerar Krypton uma praga sobre as galáxias, uma que precisava ser eliminada por qualquer meio necessário – inclusive suas próprias mãos. No filme Homem de Aço, Krypton é retratado como um planeta colonizador, e General Zod e seus soldados querem garantir a sobrevivência da raça terraformando o planeta Terra. É possível que Bendis tenha usado um mote semelhante, ainda que implícito, para explicar as motivações de Zaar.

Foi estabelecido também que Zaar já trabalhou com o Círculo Galáctico, um grupo de alienígenas poderosos e deuses que ajudam a manter a ordem na galáxia. Zaar implorou ao Conselho que lhe concedesse permissão para destruir Krypton, e, apesar da recusa imediata, ele pareceu ter dado um jeito de cumprir seu plano. Fez o mesmo quando invadiu a Fortaleza da Solidão e aniquilou a cidade engarrafada de Kandor (que não aparecia desde os Novos 52). Bendis se aproveitou desse vácuo cronológico e deu um destino (trágico) à lendária cidade nesta nova continuidade.

Rogol Zaar e o Círculo Galático em arte de Ivan Reis e Joe Prado.
Rogol Zaar e o Círculo Galático em arte de Ivan Reis e Joe Prado.

Com tamanha motivação, ficou claro por que ele entrou no centro do planeta Terra após batalhar contra Superman e a Supergirl: eliminar qualquer planeta que abrigue kryptonianos para que eles deixem de existir para sempre. Talvez os antepassados daqueles se tornaram grandes heróis em nosso planeta tenham prejudicado profundamente a família de Zaar? Isso não ficou esclarecido.

De qualquer forma, graças à determinação da Garota de Aço (bem caracterizada por Bendis – contemplativa, inteligente e motivada –, especialmente nas últimas edições), Zaar foi jogado na Zona Fantasma. Apesar do Superman ter sido contrário à drástica atitude, o argumento da Supergirl não poderia ser melhor: se Zaar foi responsável pela destruição de um planeta e tem como principal motivação a exterminação de uma raça, isso faz dele, pelas leis kryptonianas, um criminoso de guerra. Seguindo as leis à risca, ele foi colocado na mais temível prisão perpétua do universo.

Enquanto isso, uma série de incêndios misteriosos apareceram por Metrópolis durante a história. O Superman não achou quem os causou, tampouco o Corpo de Bombeiros da cidade. Todavia, de acordo com o gancho deixado na última edição da minissérie, o Homem de Aço pode ter mais a ver com esses ataques do imagina – ou se lembra.

Destaque para a investigação do Batman e da Liga da Justiça sobre todos os fatos que o Azulão enfrentou. Bendis deu novas vozes ao Homem-Morcego, à Mulher-Maravilha e principalmente, ao Lanterna Verde Hal Jordan. O autor mostrou que sua experiência será capaz de mostrar novas facetas da dinâmica entre esses personagens.

Página de Man of Steel #2. Arte de Evan
Página de Man of Steel #2. Arte de Evan “Doc” Shane.

Portanto, Homem de Aço mostrou uma reconexão entre Superman e Supergirl (e agora ela irá ao espaço para conseguir mais algumas respostas), uma participação bem bacana da Liga da Justiça e um vilão com pouca profundidade, mas que cumpriu seu papel. Isso além de deixar ganchos bem arrumadinhos para as mensais do Azulão, cujas novas fases, comandadas pelo próprio Bendis, começam amanhã.

Mensagem por trás da história

Apesar da importância do tema “família” (que será discutido mais abaixo), Bendis prometeu em diversas entrevistas que faria seu Superman voltar a ser um símbolo de luta pela “verdade, justiça e o modo de vida americano”, referenciando os valores pelos quais o Superman da Era da Bronze vivia (e que foram repetidos exaustivamente nos filmes estrelados por Christopher Reeve). Ele não estava brincando.

Capa variante de Action Comics #1000 por Jim Steranko.
Capa variante de Action Comics #1000 por Jim Steranko.

Em nossa newsletter semanal, dedicada aos padrinhos do site, comentamos que:

Bendis está revivendo o simbolismo entre o imigrante definitivo e a nação americana. Não é à toa; o momento sociopolítico dos Estados Unidos é um prato cheio para artistas explorarem os mais diversos pontos de vista sobre o que está acontecendo, como dissemos em um recente artigo, analisando a obra Days of Hate, de Ales Kot.

As alegorias mais claras de Bendis são:

– Krypton: A “Camelot do Cosmos”, como o Brunão definiu, é a grande potência opressora, arrogante demais para entender que o mundo iria acabar por causa de suas próprias escolhas – mas um terrorista oprimido por ela foi lá e fez antes;
– O vilão Rogol Zaar: o terrorista supracitado;
– Superman novamente questionará suas raízes, seus valores e tudo em que acreditou até agora.

Este é um efeito bem comum da cultura pop pós-11/9. O atentado foi refletido nos quadrinhos de super-heróis produzidos nos últimos 17 anos.

Bendis está forçando o Superman a fazer escolhas que normalmente não faria, como mergulhar de cabeça em uma luta física e ideológica sem precedentes, assim como os EUA fizeram na Guerra do Iraque (com a exceção de que esta guerra foi maquinada pelo próprio país a troco de petróleo, mas isso não vem ao caso). Até o momento temos um novo vilão, Lois Lane e Jonathan Kent desaparecidos e uma série de incêndios em Metrópolis atrapalhando o Homem de Aço em sua missão de saber mais sobre Rogol Zaar. Quando aconteceu a batalha no meio de Metropolis ao lado da Supergirl, a cidade engarrafa de Kandor foi destruída pelo vilão, que jurou acabar com toda a herança kryptoniana assim como explodiu o planeta todo por sua opressão. Os cristais da Fortaleza, usados para o Superman entrar em contato com a inteligência artificial que manteve vivos os seus, também se foram.

Ao que tudo indica, Bendis fará o Superman assumir de novo o manto do herói americano. Como tal, pode até se tornar um pouco mais beligerante, transformando-se em uma versão do Homem de Aço que não vimos há anos. Se o caminho for esse, Rogol Zaar terá um propósito muito específico. Talvez nem seja mais usado por Bendis ou outros escritores num futuro próximo, mas terá cumprido o que prometeu.

O futuro de Lois e Jon

O grande mistério da chegada de Bendis no Universo do Superman era o destino de Lois Lane e Jonathan Kent. Já sabia-se que ele faria o herói voltar a usar a cueca vermelha no uniforme, mas esse era o menor dos problemas. Muitos boatos indicavam que ele dissolveria o casamento ou até que mataria o jovem Superboy. Mas não foi nada disso. Bendis pregou uma peça e se saiu bem.

Arte de Man of Steel #6 por Jason Fabok.
Arte de Man of Steel #6 por Jason Fabok.

Jor-El visitou a família de forma surpreendente e fez um convite de difícil recusa para o jovem Jon: viajar pelo universo para conhecer galáxias, planetas e culturas às quais ele jamais teria acesso no planeta Terra. Nas primeiras edições, a ameaça não estava clara. Tudo que se via nas páginas desenhadas por Fabok, era uma nave chegando dentro da casa da família Kent e perigando sequestrar mãe e filho à força. Não foi o caso.

O pai biológico de Kal-El apareceu com a tentadora oferta para Jonathan, o que explica por que o Superman estará sozinho nessas primeiras aventuras escritas por Bendis – e certamente tira da jogada elementos que ele não quer ter em mãos no momento. Afinal, de primeira ele escrever o Superman. Porém, apesar de a explicação ser cabível, não significa que ela tenha sido bem executada.

The Man of Steel #6, a última, foi uma boa edição. Contudo, foi um parto até que esta parte da história concluísse. Bendis enrolou bastante, com diálogos paulificantes, repetidos à exaustão até que essa situação se resolvesse. Depois de um debate familiar (e de muito desejo de Jon), Lois topou acompanhar o filho e o sogro em uma aventura sem precedentes (uma que fechará o ciclo da Casa de El, com avô apresentando o lado kryptoniano da herança ao neto). Tendo em mãos um contrato para escrever um livro sobre o que quisesse, ela acreditou que esta viagem poderia lhe oferecer ideias incríveis para este projeto. Porém, seu pedido de ausência do Planeta acarretou em sua demissão.

Família Kent e Jor-El em arte de Jason Fabok.
Família Kent e Jor-El em arte de Jason Fabok.

Assim ficou decidido. Clark deixou com ela seu uniforme utilizado até aqui (adaptável ao corpo de quem o veste) e um comunicador intergalático. Infelizmente, porém, a unidade dele quebrou durante a batalha com Zaar. Logo, a família Kent não tem mais como se comunicar. Supergirl tentará encontrá-los no espaço, em sua nova jornada.

Há uma teoria, propagada principalmente pelo CBR, de que Lois esteja grávida novamente. Seus últimos momentos com Clark indicam que ela lhe disse algo importante, mas só saberemos o que é de verdade nos próximos meses.

O saldo e o que vem por aí

O saldo foi positivo. Por pouco não foi, na verdade, já que o começo da minissérie, como dissemos, foi muito morno. Contudo, esta serialização pegou ritmo no final e teve uma boa conclusão. Bendis conseguiu aplicar sua fórmula de escrita ao Superman (deixar diversos elementos do cânone para lá, a fim de criar o seu, mas sem desrespeitar completamente o personagem)

Dito isso, o que vem por aí?

A Zona Fantasma e o Superman em arte de Ivan Reis e Joe Prado.
A Zona Fantasma e o Superman em arte de Ivan Reis e Joe Prado.

Em cada uma das duas revistas, Bendis terá um artista diferente: Patrick Gleason, para Action Comics, e Ivan Reis, para Superman. Ele prometeu dar abordagens diferentes aos títulos também, para que seu roteiro seja melhor adaptado aos estilos desses desenhistas.

Em Action, Bendis e Gleason estarão focados em relacionamentos e histórias mais mundanas, o que ele chamou de street level. Por outro lado, inspirado pelo trabalho que Ivan Reis fez na saga Guerra dos Aneis, dos Lanternas Verdes, Bendis está escrevendo uma história que ele chama de “muito grande, com histórias menores dentro, acompanhadas de grandes vilões e repercussões no Universo DC, coisas que só o Super-Homem pode suportar”.

O primeiro passo dessas grandes mudanças? Levar o Superman – e toda a Terra – para dentro da Zona Fantasma! E a partir de amanhã, saberemos o que ele está planejando de verdade.

3 Comentários

Clique para comentar
WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com