[#FLIP] Em exclusiva, Marcelo D’Salete fala de Cumbe, Eisner, Literatura e muito mais!

No belo cenário da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), Delfin entrevistou Marcelo D’Salete exclusivamente para o Terra Zero pouco após sua vitória no Eisner Awards 2018 por Cumbe, lançada lá fora pela Fantagraphics como Run For It: Stories Of Slaves Who Fought For Their Freedom em 2017.

O quadrinho que narra histórias da opressão escravagista no Brasil já tinha ganhado os olhos do leitor nacional mais exigente quando foi lançado pela Veneta em 2014. Agora expande ainda mais seu público no país por ser reverenciada e laureada lá fora.

Capa da versão nacional Cumbe, lançada pela Veneta. Vencedora do Eisner 2018.
Capa da versão nacional Cumbe, lançada pela Veneta. Vencedora do Eisner 2018.

Confiram este imperdível bate-papo entre Delfin e Marcelo D’Salete logo abaixo:

Terra Zero: Como surgiu o interesse da Fantagraphics por um material tão pungente para o público brasileiro?

Marcelo D’Salete: O livro já tinha saído em outros países até chegar em uma agência literária lá nos Estados Unidos, que representa a Veneta também. Vários materiais foram apresentados e o pessoal da Fantagraphics curtiu [Cumbe]. Tem a ver também com nosso momento atual, com as discussões que existem tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Tivemos isso no Oscar, no filme Corra!, uma série de ideias que convergiram neste ano para o Pantera Negra. Acho que é uma confluência de fatores. É uma coisa bacana também, porque eles têm poucas referências sobre esse tipo de história aqui no Brasil, sob essa perspectiva.

Na verdade, eles têm pouca perspectiva de como são os quadrinhos latino-americanos. Houve a experiência de publicar o Eternauta (Fantagraphics) e outras obras. Contudo, com outra abordagem de narrativa ficcional, muito por causa dos gêmeos (Moon e Bá), que também são vencedores do Eisner. Mas por algum motivo, a repercussão da sua premiação foi maior justamente por causa das temáticas. Você percebe isso?

Como o Gabriel disse, a ideia do ponto fora da curva fez com que, talvez, Cumbe, no mercado americano, tenha sido uma publicação inesperada. Isso pode ter causado esse alvoroço maior do que eu imaginava. Desde que foi publicada lá (em outubro de 2017), reparamos que várias notícias começaram a surgir na internet e vieram de públicos diferentes, como sites especializados em cultura negra, profissionais acadêmicos etc. Todos se interessaram por Cumbe, por Angola Janga… Foi mesmo um conjunto de fatores que fez uma obra como essa ser reconhecida lá fora.

Como você lida com essa positividade toda causada pela nova exposição de Cumbe no Brasil, seguida por uma avalanche de boas resenhas de Angola Janga? No que isso é importante para a narrativa negra no país? Pois isso geralmente é feito sob a perspectiva caucasiana, o que é injusto com a própria história do país.

Isso é interessante. Acredito que Cumbe tenha atraído vários leitores de quadrinhos, mas outras obras, como a própria Angola Janga, chamam leitores que não costumam procurar isso. O tema chama a atenção, a pessoa fica interessada naquilo e acaba gostando da forma como a história é contada.

Nós temos uma história de literatura negra no Brasil razoavelmente antiga. Pelo menos desde a abolição. Contudo, ela foi reconhecida poucas vezes ou até embranquecida, como é o caso do Machado de Assis. Poucos autores têm essa questão racial reconhecida mesmo, como é o caso do Lima Barreto ou, mais recentemente, da Carolina de Jesus. Isso está muito bem marcado na obra dela.

Uma premiação como essa nos faz conhecer melhor essa perspectiva e a literatura negra no Brasil. Machado e Lima Barreto falaram dessa questão também e merecem ser divulgados e debatidos atualmente.

Arte de Cumbe, de Marcelo D'Salete.
Arte de Cumbe, de Marcelo D’Salete.

Muitos deles foram relegados ao esquecimento assim que possível, como Coelho Neto, por exemplo. Recentemente começaram a recuperar as obras de alguns desses autores, iniciando o resgate de uma cultura que não está exposta. Parece que alguns jogadores do mercado editorial estão entendendo que é necessário equilibrar esse jogo.

Sim, é necessário, mas também temos um público negro hoje que é diverso e quer ser representado. Ou seja, existe uma cobrança também. Seja de narrativa, de histórias que são contadas… Não podemos ficar repetindo o mesmo de décadas ou um século atrás em termos de história, de pensar a narrativa nacional. A gente já tem um público que critica isso. Que criticou, por exemplo, a FLIP, por não homenagear escritores negros. Virou um debate nacional. É o mesmo que as críticas feitas ao Oscar por Spike Lee.

Portanto, esse tipo de crítica gera esses debates porque os leitores querem representação e o mercado percebe que há uma falha, que alguma coisa está faltando.

E há setores mais reacionários que querem uma volta de uma condição antiga: o fim do sistema de cotas, da representatividade. Não entendem que o mundo evoluiu, que estamos em 2018, que procuramos uma narrativa de igualdade e este é um caminho sem volta.

Sim. Até hoje, no Brasil, não fizemos uma reforma agrária decente. Até hoje temos comunidades indígenas sendo ameaçadas por fazendeiros e todo o poder econômico por trás disso. Neste ano mesmo, se não me engano, tivemos lideranças quilombolas presas, acorrentadas, no interior do Brasil. Temos pessoas que dizem que esses grupos são vagabundos, que não produzem nada para a nação. Ou seja, temos uma ignorância em relação a nossa própria história que é propagada e repetida constantemente.

Quando criticamos grupos cuja posse de maior valor é sua própria terra, não estamos admitindo a diversidade da nossa história e que possuíamos várias formas de pensar. Se tirarmos as condições dessas pessoas, perdemos conhecimento e a possibilidade de lidar socialmente com isso.

Arte de Cumbe, de Marcelo D'Salete.
Arte de Cumbe, de Marcelo D’Salete.

Como professor você nota que os alunos vêm de casa com essa ideia de igualdade?

Olha, esse é um tema muito importante. Como professor noto que cada vez está mais difícil fazer debates em sala de aula sobre questões indígenas, raciais, de direitos humanos e de gênero. Nos deparamos cada vez mais com falas, digamos, reacionárias, contrárias a qualquer mudança, que propagam discursos de alguns veículos de mídia que barram qualquer tipo de debate.

Acredito que o pior não é a criança dizer isso. Pode acontecer e vai acontecer. O pior é quando nos deparamos com um tipo de posicionamento que não favorece o debate. E o momento em que vivemos favorece isso, a falta de debate: as opiniões são dadas já diminuindo o posicionamento contrário, classificando como “mimimi”, e o que se tem é o fim do debate. Não dá pra aprofundarmos as discussões.

Estamos nos aproximando de um momento eleitoral brasileiro que é a culminação de tudo que aconteceu nos últimos três anos, como o acirramento de questões de igualdade e sociais. Como você avalia este momento específico?

É difícil prever o que pode acontecer. Com certeza é um momento difícil, um momento perigoso e dramático. Por outro lado, é um momento de trazermos discussões e obras que debatam tudo isso. Nisso eu acredito que os quadrinhos, a literatura e a arte como um todo sejam fundamentais. Não é à toa que há pouco tempo tivemos manifestações desses grupos contra exposições e obras artísticas por causa de nudez etc. A arte é o lugar em que você tem o mínimo de liberdade para fazer o debate. É justamente o espaço que eles querem cercear e a gente não pode permitir isso.

Então diga uma obra que não seja sua para enriquecer esse debate.

Nossa (risos)! Vou indicar o Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Homenageia uma escritora que é fundamental para pensarmos o Brasil, a periferia ali em São Paulo e nossa nação em meados do século 20. A obra da Carolina é um ensinamento até hoje.

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