[#Entrevista] DOR: HQ nacional dá sentido e significado à Dor

DÖR (ou DOR) foi lançada este ano, no Festival de Quadrinhos Internacional, o FIQ, em Belo Horizonte. Produzida por Tatiana Minardi e Júlia Oliveira, a HQ antropomorfiza a Dor em uma história infantil de bom gosto e classe. Foi colorida e diagramada com o cuidado de fazer com que o leitor possa experienciar o conceito da Dor sob diversos aspectos, e até buscar uma forma de explicar para crianças o que ela é. Mas, sem sombra de dúvidas, o quadrinho é mais que isso.

As autoras criaram uma personagem empática, bonita e que não tem culpa de sua natureza. Através dela, o leitor pode fazer um retrospecto de dores físicas e emocionais que já sentiu, adquirindo uma melhor compreensão do que lhe afligiu e até de como a própria natureza humana funciona. E tudo é feito com uma paleta de cores bem escolhida e característica, transmitindo a leveza e a fofura de uma história simples mas significativa.

Ainda que a HQ seja destinada ao público infantil, não se enganem: DOR é para todos, e mostra mais uma vez a força da produção nacional independente.

Minardi e Oliveira conversaram exclusivamente com o Terra Zero para falarem sobre seus trabalhos, detalhando o sentido da história, suas paixões pela arte e quais são seus futuros projetos nos quadrinhos. Vamos conferir?

Arte de DOR, por Júlia Oliveira.
Arte de DOR, por Júlia Oliveira.

Terra Zero: Primeiramente, por que uma história sobre a dor?

Tatiana Minardi (Escritora): Na época, ela, a dor, precisava sair. Eu sempre amei as histórias infantis e via nelas um delicioso refúgio para meus momentos difíceis. Desde criança a pergunta “O que você vai ser quando crescer” tinha uma resposta: escritora. Quando cresci, assim como a maioria dos adultos, esqueci… E quando esquecemos nossos verdadeiros chamados, que invariavelmente nos ajudam a sermos quem somos em essência, a dor vem.

Podemos vê-la como um sinal de alerta ou vê-la como algo “terrível”, que, como a história mostra, pode se transformar em um monstro dentro de nós. E assim estava eu, vivendo algo difícil, dolorido, que na verdade iria servir para que eu me lembrasse de quem eu realmente era. Eu também precisei de um “AjudaDor” para ajudar a dor a sair… E quem não precisa? Amigos, familiares, um estranho na rua ou alguém que já é referência de inspiração. às vezes somos ajudadores, às vezes ajudados… Mas uma coisa é certa: uma história sobre a Dor seria compreendida pela maioria das pessoas. Afinal, quem ainda não a conhece?

DÖR é apresentada com uma antropomorfização do que a dor é de fato. Como essa ideia surgiu?

Tatiana: Surgiu como a história inteira veio: numa avalanche. Era 1 hora da madrugada. Cheguei em casa com a história toda na cabeça, após uma conversa com um amigo, que me ajudou a tomar uma decisão importantíssima em minha vida. Eu disse pra ele que deveria trabalhar com isso, que ele era um AjudaDor. Ele tem esse dom mesmo de ajudar a Dor a sair de dentro das pessoas. Quando a dor saiu, percebi que ela havia me ajudado, que a partir dali estava mais forte e segura. A dor é bela quando assim olhamos pra ela, quando superamos o tempo que ela está presente e podemos contar as histórias de transformação que essa superação causou. Por isso a canção que o AjudaDor canta diz: “só é bonita para se escutar…vai seguir adiante levar notícias do que é transformar”.

Logo de cara percebemos que a HQ é, principalmente, para a pequena Clara. Como explicar o que é dor para uma criança? DOR ajudaria nisso?

Tatiana: Clara é minha filha. Tem apenas 1 ano de vida. A verdade é que ainda não sei como explicar o que é a dor para ela…Mas acredito que a Menininha Dor poderá ajudar sim! Para as crianças que já contei a história vi que ajudou bastante. Uma em especial me disse “tia, tia! Eu tenho essa menininha aqui dentro de mim!” e chorou…

Júlia Oliveira (Ilustradora): DÖR é para Clara, para crianças maiores, mas principalmente para as crianças que habitam nos adultos. Você pode ter sua vida já toda construída e, ainda assim, não saber como lidar com a dor e outros sentimentos e sensações. Eu espero que os adultos reconheçam em DÖR uma segunda chance de aprender, sem medo. Como uma criança faz.

Houve uma escolha proposital no uso das cores do quadrinho? A dor nunca pareceu tão bela! Como se deu o processo de concepção visual da personagem principal e dos cenários?

Tatiana: Demoramos anos para concebê-la visualmente. A Júlia fez aí todo o trabalho pesado! Começamos em 2015 quando decidimos contar a história em hospitais. Pensamos que precisaríamos de algo como um fantoche para ilustrar aquela “menininha em forma de vento”. A Júlia fez primeiro um quadro em tela do rosto da Dor e a partir daí começamos a fazer o fantoche para a contação de histórias e bem mais tarde, só no ano passado, é que ela começou a realmente desenhar.

Júlia: Eu queria que fosse algo colorido, que contradissesse o título e a sinopse da história. Queria também que a personagem parecesse leve e solta, mas, acima disso, que parecesse humana, para que houvesse uma rápida identificação com os leitores.

Arte de DOR, por Júlia Oliveira.
Arte de DOR, por Júlia Oliveira.

Como foi a receptividade do quadrinho no FIQ? Vocês já tinham estado antes no evento?

Tatiana: Só tínhamos estado como visitante e feito oficinas, mas não como expositora. Foi maravilhoso! A receptividade nos surpreendeu. Optamos por cortar bastante do texto para deixar as pessoas interpretarem a história pelos desenhos. O resultado foi muitos sorrisos, abraços, alguns olhos marejados e muitas vendas! Mais do que imaginávamos.

Júlia: O FIQ é um festival lindo, que une muitas pessoas. No fim, você se sente como parte de uma nova, louca e extraordinária família. Foi uma experiência muito renovadora ver, em primeira mão, como as pessoas (todos os tipos de delas) reagiram a esse trabalho que fizemos com tanto carinho.

Já têm outros projetos planejados para o futuro?

Tatiana: Tenho um projeto de escrever sobre os sentimentos e ajudar as pessoas a enxergá-los através das histórias. A próxima história será sobre a Alegria e como ela nos cativa a sermos melhores e gratos a cada dia. Aguardem!

Júlia: Fazer quadrinhos é algo muito difícil e trabalhoso, mas como dizer não às histórias que querem ser contadas? Quero fazer quadrinhos até que todas as histórias sejam contadas, e por esse mesmo motivo provavelmente não pararei nunca.

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