[#Análise] Batman #50 e o Rei Anacrônico

Tom King fez um ótimo trabalho com Batman #50. Não entregou o que os leitores queriam, mas o que eles mereciam. Claro que, como sempre, os setores comerciais e de marketing das editoras tomam todas as decisões necessárias para minar o poder dos criadores. Nunca a corporação foi tão maior que o criador. Mantenham essas premissas em mente. Logo irei explicá-las, neste que é um review, mas também é um textão. Respirem fundo.

Batman #50 é bom?

A minha resposta é sim. Continuando em sua busca para humanizar os diálogos do personagem enquanto executa um arco bastante abrangente sobre as relações humanas do personagem e ao mesmo tempo saindo da esfera da Bat-família, Tom King não mede esforços.

Os spoilers e a revista em si entregam uma história que, concordo, não é o que se espera dela. Propagandeada como O Casamento, fica clara na capa que ali, naquelas páginas, Bruce Wayne e Selina Kyle irão se casar. Mas não é o que acontece: ambos deixam cartas de despedida, mostrando que, apesar de quererem, têm seus motivos para não formalizarem o matrimônio naquele momento. Obviamente o final mostra que, nisso, há influência de Bane, que quer quebrar o Batman uma vez mais – agora, a partir de seu coração, e não de sua espinha, como na clássica Queda do Morcego.

Arte de Mikel Janin

A arte é espetacular, usando o talento de Mikel Janin (Grayson), que também desenhou o arco Eu Sou Suicida, que iniciou o envolvimento mais direto entre o Homem-Morcego e a Mulher-Gato. Nesta edição, em vez da ação grandiosa daquela outra oportunidade, com páginas duplas épicas, a narrativa fechou o foco nas expressões faciais, com closes, reações e atenção ao diálogo fino entre todos os envolvidos. Além dele, há páginas de artistas dentre os históricos e os mais atuais, com José Luis Garcia-Lopez, Becky Cloonan, Jason Fabok, Frank Miller, Lee Bermejo, Neal Adams, Tony Daniel, Amanda Conner, Rafael Albuquerque, Andy Kubert, Tim Sale, Paul pope, Mitch Gerads, Clay Mann, Ty Templeton, Joelle Jones, David Finch, Jim Lee, Scott Williams, Greg Capullo e Lee Weeks.

Os diálogos de Tom King, como sempre, parecem retirados de situações comuns, de pessoas comuns. Em um contexto super-heroico, contudo, elas tomam uma nova direção, indo para um misto de conto épico e novela das nove. Fica a sensação até de leve autobiografia, assim como acontece na outra revista do mesmo autor na DC, a maxissérie Senhor Milagre.

A revista que os fãs merecem

Batman é a revista que mais vende na DC. Dentre seus fãs, de uma certa forma, estão vários dos fãs mais antigos, que acompanham suas histórias há muito tempo. Alguns, talvez, inclusive acompanharam a fase clássica de Neal Adams e Dennis O’Neil que transformou o Homem-Morcego no personagem sombrio que ele se tornou.

Arte de Brian Bolland.

O casamento, enquanto momento histórico, já aconteceu. Porém, não nesta continuidade, nem nesta Terra. A Terra-2 pré-Crise nas Infinitas Terras tinha um Bruce Wayne casado com uma Selina Kyle. Helena Wayne, a Caçadora, era filha deles. Com a idade e mais aventuras, a Mulher-Gato tornou-se inclusive viúva quando Bruce morreu. Sendo assim, não estamos falando de um evento inédito, mas apenas a consolidação de um fato que existia na Era de Bronze (o que poderia agradar um certo Geoff Johns, que teve influência decisiva para a execução da fase Renascimento).

Tom King, nesse sentido, não quis ser anacrônico. Os dois personagens, se casados de uma maneira tão simples e descompromissada quanto essa edição demonstra, teriam um laço quem sabe menor. No mínimo, como em toda boa novela, o vilão precisa armar situações para que os mocinhos não fiquem juntos tão logo. Já que o escritor disse que seu arco deve ir até a edição #100, isso faz sentido. O casamento é só no final da novela, afinal.

Mas há um outro ponto nessa situação: aqueles velhos leitores que apontei acima. Talvez a mensagem da Mulher-Gato para o Batman na edição #50 – a de que ele continua sendo uma criança, e que ela não quer tirar isso dele por amá-lo – seja o que a DC vem fazendo, por anos e anos, com os seus leitores. Melhor manter as coisas indo e voltando para o status quo para sempre, com apenas pequenos ajustes entre cada fase, para que ocorra a ilusão de que grandes mudanças ocorreram.

Arte por Phil Jimenez.

Na verdade, não só a Distinta Concorrência, e não só com Bruce Wayne: é este o mal dos super-heróis. As pessoas ficam muito nervosas, tendo rompantes no Twitter, quando as coisas mudam demais, sim. Mas não só nessas situações, como quando as coisas se revelam ser diferentes daquilo que elas esperam. Isso ocorreu de forma muito forte no começo do Renascimento com Superwoman #1; na revista, a protagonista, a Lois Lane dos Novos 52, morre ao confrontar seu primeiro grande desafio, deixando sua colega Lana Lang desamparada.

Eu adorei essa revista na época! Amei como ela subverte justamente essa expectativa, e traz real surpresa em um contexto como o dos super-heróis. Especialmente para nós, que costumamos acompanhar os anúncios e lançamentos, parece que nada pode nos surpreender. Afinal, sabemos das chamadas de capa e sinopses com pelo menos três meses de antecedência, graças às solicitações. Como não gostar de ser surpreendido dessa forma?

A porcaria do marketing

Claro que há fatores que trouxeram uma carga negativa para Batman #50. O maior deles foram os spoilers do final da revista, anunciados no The New York Times a menos de uma semana de sua publicação. Isso causou, inclusive, perdas para os donos de comic shops dos Estados Unidos: vários leitores simplesmente cancelaram suas encomendas e prometeram não ler mais a revista.

Aposto com qualquer um que, se não houvesse divulgação prévia, as pessoas poderiam ter gostado. Afinal, da forma como o marketing da revista foi feito, ela não apenas subverteu o conteúdo de sua capa, mas o fez sem que ninguém tivesse lido-a de fato. Assim fica difícil defender a DC.

Arte de Mikel Janin.

A página acima, inclusive, não estava nos citados spoilers. Só soube disso quem se deu ao trabalho de ler a revista. Ou o lance de Batman “ainda ser uma criança” aos olhos de Selina Kyle incomoda vocês? Se incomoda, desculpem… Mas o chapéu serviu aos leitores, em parte.

Não era pra ser assim?

Agora entra o “sentido Grisa” de enxergar movimentos passando por debaixo do radar. Alguns tomarão isso por teoria da conspiração, mas eu apontarei. Posso passar por louco aqui, mas lá vai.

E se tudo isso for um gigantesco mandate em cima da hora?

E se a última dança das cadeiras tiver origem em um movimento como este? Com as revistas de Prelúdio Para o casamento já em produção, alguém com poder suficiente mandou Tom King fazer com que Batman #50 não fosse a conclusão, mas apenas mais um capítulo em uma trama que, por mais extensa, terá como vender mais?

Se lembram da Saga do Clone? Pois é. Podemos estar diante de um novo exemplo deste tipo de história.

Confirmando-se algum dia este tipo de manobra, eu não ficarei surpreso. Afinal, Tom King é candidato a levar o prêmio de Melhor Roteirista de 2017 no Eisner, durante a San Diego Comic Con (SDCC), ainda neste mês de julho. Esperemos o que os arcos seguintes de Batman nos trarão vindos do escritor e ex-agente da CIA. Eu mal posso esperar.

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