X-Men: Boas histórias, cancelamentos e o casamento que ia mas não foi

Nos últimos anos a linha mutante da Marvel sofreu uma queda gradativa de sua popularidade entre os leitores menos dedicados. É ingênuo e leviano apontar um único fator para a alienação destes leitores em relação a essa franquia, mas podemos citar alguns que são frequentemente apontados pelos fãs dos filhos do átomo desde 2011: a cisão que desconstruiu o grupo e colocou Ciclope e Logan em times diferentes, descentralizando equipes que basicamente estavam fazendo a mesma coisa; a chegada de Brian Michael Bendis e a permanência dos cinco X-Men originais adolescentes do passado na continuidade da Marvel; o desastroso final da passagem do próprio Bendis em Uncanny X-Men e a descaracterização de Ciclope neste final; inúmeros tie-ins e mandates editoriais que tornaram a vida de autores consagrados como Jeff Lemire e Charles Soule um verdadeiro inferno dentro de seus títulos mutantes; e finalmente a insistência com o mote dos Inumanos aliado a quantidade de títulos em linha (algo que não se restringe somente aos X-Men diga-se de passagem).

Então, imagine um fã de X-Men, seja por gostar da ideia sem ter muito conhecimento, um fã dos antigos desenhos ou mesmo um leitor que leu algo da fase Claremont ou algo dos anos 1990 e por algum motivo não acompanhou mais. Agora imagine essa pessoa tentando pegar algo de X-Men para ler nos últimos 10 anos. Com certeza fica muito difícil imaginá-la permanecendo interessada em um título de linha por muito tempo.

Por conta dos fatores supracitados, é perfeitamente normal que em pleno ano de 2018 o leitor médio de quadrinhos não tenha o menor interesse em algo dos X-Men que esteja sendo publicado agora. Entretanto, isso não quer dizer que não existam bons quadrinhos mutantes sendo publicados pela Marvel. Muito pelo contrário, segundo os bravos leitores que insistem em dar espaço e tempo aos filhos do átomo, devido a essa queda vertiginosa do nível das histórias nos títulos dos X-Men, estamos vivendo a melhor fase em quadrinhos mutantes dos últimos 15 anos.

Como anda a linha mutante atualmente?

Ok. Vai que você acreditou nessa ladainha dos parágrafos acima e resolve dar uma nova chance aos mutantes e suas revistas atuais. Como começar? O que está acontecendo? Quais são as revistas?

A primeira coisa que você precisa entender sobre a linha mutante atual é que ela teve sua própria iniciativa de relançamento independente do que estava acontecendo no restante da Marvel em março de 2017. A iniciativa chamava-se RessurXion e deu-se ao final do embate entre Inumanos e X-Men mostrado em Inhumans vs X-Men. Iniciada pela edição única X-Men Prime #1, que estabelecia o direcionamento de todas as equipes, RessurXion deixou a linha de quadrinhos mutante com esta cara inicialmente:

  • All-New Wolverine: Título protagonizado por Laura Kinney e que já estava em andamento desde a morte de Logan com roteiros de Tom Taylor.
  • Cable: Iniciado por James Robinson, o título de Nathan Summers a partir da sexta edição teve roteiros de Ed Brisson até cair nas mãos da dupla Zac Thompson e Lonnie Nadler. Relação entre Hope Summers e Cable sendo explorada de forma muito cuidadosa.
  • Generation X: Uma nova geração de mutantes novinhos retornaram em título com roteiros de Christina Strain.
  • Iceman:  Primeiro título solo de Bobby Drake na Marvel com roteiros de Sina Grace.
  • Jean Grey: A Jean novinha aprendendo os perigos da Força Fênix com roteiros de Dennis Hopeless
  • Old Man Logan: O velho Logan, diretamente do universo criado por Mark Millar, já tinha seu título antes de RessurXion e foi mantido somente com mudança de equipe criativa. Ed Brisson assumui o roteiro.
  • Weapon X: A equipe Black Ops de mutantes vem para preencher o vácuo deixado pela ausência de um título da X-Force nesta linha. Dominó, Apache, Dentes de Sabre, Lady letal e o Velho Logan com roteiros de Greg Pak.
  • X-Men Blue: Liderados por Magneto, o time de X-Men novinhos se unem a outros veteranos e algumas surpresas ao longo do caminho com roteiros de Cullen Bunn.
  • X-Men Gold: A equipe de Nova York, agora sob o comando de Kitty Pryde, com roteiros de Marc Guggenheim.
  • Astonishing X-Men: Com uma periodicidade um pouco mais espaçada e um foco em Charles Xavier, esta equipe de X-Men que tem como pontos focais Psylocke, Arcanjo e Fantomex. Explora os cantos mais obscuros da mente mutante.

O objetivo da linha estabelecida em RessurXion, tanto para mutantes quanto para Inumanos era separar estes dois universos um do outro, mas principalmente separá-los do restante da Marvel, dando um pouco mais de espaço para as equipes editoriais e criativas trabalharem sem se preocupar se os mutantes estavam morrendo por causa de névoas terrígenas ou se algo no universo Marvel impactaria seus roteiros.

Nas últimas 30 edições de títulos principais de X-Men (Gold e Blue) tivemos somente duas com tie-ins da saga Império Secreto, estes que podem ser facilmente pulados por leitores com menos paciência, e que não são desastrosos para o andamento de ambos os títulos.

Outra coisa que funciona muito bem atualmente em quadrinhos dos X-Men é a opção do leitor por escolher sua equipe favorita e não precisar acompanhar nenhum outro título da linha, pois os mesmos não estão interligados por uma trama macro. X-Men Gold, Blue, Astonishing e Red (que veio um pouco depois) existem no mesmo universo e até tem alguns personagens em comum, mas ninguém ficará perdido se escolher ler algum título em específico e não quiser ler outro. Isso é importante demais para o leitor que não precisa gastar tanto lendo quadrinhos mutantes.

Cancelamentos e mudanças…

Cancelamentos de títulos periódicos deixaram de ser novidade no mundo dos quadrinhos. Principalmente na Marvel. O que muitos leitores ainda não se acostumaram é que um cancelamento nem sempre ocorre exclusivamente por conta de baixas vendas. É lógico que um título será mantido em linha no caso de uma alta popularidade e resultados positivos, mas as coisas na Marvel não são assim, tão preto e branco.

Recentemente a Marvel anunciou o cancelamento em setembro próximo dos dois títulos principais da linha mutante (X-Men Gold e Blue), além de Cable, que também será descontinuada um pouco antes destas. Isso quer dizer vendas baixas? Não há como precisar. No entanto, observamos um movimento curioso dentro da linha mutante com a chegada de X-Men Red e o retorno de um novo volume de um título previamente cancelado, como Iceman.

Algo que tem funcionado bem nos atuais quadrinhos dos X-Men são minisséries destacadas e edições fora de cronologia, como o quadrinho Rogue & Gambit, da autora Kelly Thompson, que conta uma aventura em arco fechado do casal mutante sem amarras à continuidade atual. Há também a obra de Ed Piskor, X-Men Grand Design que é a interpretação própria deste autor para os filhos do átomo. Podemos ainda citar a recém lançada The New Mutants Dead Souls, de Matthew Rosenberg. Este formato serve para o editorial testar a audiência em relação a certos conteúdos e planejar novas histórias e/ou título periódicos com base na resposta de público e crítica.

Esses movimentos da linha mutante denotam claramente somente uma coisa: a Marvel tem tratado seus volumes de quadrinhos como temporadas com duração não tão pré-definida. O próprio autor de X-Men Blue, Cullen Bunn recentemente alegou que já sabia que a revista seria descontinuada em setembro na edição 36 e para isso já vinha planejando um final de arco com antecedência.

Há um senso de mínimo planejamento nas publicações desta linha atualmente, algo que não se notava há muitos anos. Um título termina, outro toma seu lugar mantendo a coisa fresca, introduzindo novidades, dando aos leitores outro ponto de partida independente de cronologia e sempre desviando da estagnação. Atualmente, X-Men Red, de Tom Taylor, é um sucesso, mas pode não ser daqui a oito meses e o editorial está olhando isso e tentando antever esses movimentos de audiência da melhor maneira possível.

E o tal casamento?

Por muito tempo, fãs que carregam bandeiras de suas editoras do coração insistem em picuinhas medíocres e comparações infrutíferas sobre conteúdos de Marvel e DC. Isso gera combustível para polêmica e dá visibilidade a produtores de conteúdo mais pobre.

O anúncio do casamento de Kitty Pryde e Colossus foi um destes casos por gerar comparações e brincadeiras com o também já anunciado e bem divulgado casamento de Batman e Mulher-Gato. O que o leitor menos atento não percebeu foi a malandragem do editorial da Marvel, principalmente do autor Marc Guggenheim, em nos levar a acreditar no evento como uma mera resposta da concorrente a um evento similar.

Mostrado na recente edição especial X-Men Gold #30, o casamento de Kitty Pryde e Colossus de fato nunca acontece. Ao invés disso um outro casal mutante acaba se unindo em matrimônio da forma mais espontânea, inusitada e até romântica já vista em um quadrinho dos X-Men.

Ao final, a Marvel revela o novo título anteriormente chamado de X-Classified, que era mantido em segredo por meses. O quadrinho se chama Mr. and Mrs. X e será protagonizado pelo mais novo casal da editora: Vampira e Gambit. Uma reviravolta completamente inesperada aliada a uma surpresa editorial na linha mutante como não se via há algum tempo.


Quanto mais nos afastamos de um certo tipo de conteúdo, mais tendemos a entrar em uma espécie de zona de conforto cultural. Quanto menos contato temos com algo menos iniciativa teremos de pegar aquilo ali e dar uma olhada. Isso é perfeitamente natural, principalmente no  que diz respeito ao nosso tempo de lazer. Há um fator individualidade envolvido na equação que não pode ser desconsiderado.

Não dá pra julgar o leitor que só lê o quadrinho do personagem X ou Y mesmo com histórias ruins, e no caso específico deste post não podemos julgar o leitor que se afastou dos mutantes por conta das decisões da Marvel nos últimos anos. A função dos bons veículos é justamente detectar movimentos de mudança em certos conteúdos e tentar jogar um pouco de luz sobre estes.

Nem todos os quadrinhos da linha mutante atual são perfeitos. Há coisas ruins, assim como boas leituras. O que fica evidente para quem acompanha boa parte dos títulos mutantes em 2017 e 2018 é um esforço da editora para resgatar temas e relações que são caras para quem curte quadrinhos destes personagens. Não só escrevendo histórias que já foram feitas, mas aproveitando o rico passado cheio de acertos e erros desta família mutante e tentando levar este elenco em direção ao futuro.

Este é o melhor momento para se arriscar novamente a ler um título mutante. Portanto escolha o seu e boa viagem.

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