[#Superman80Anos] John Byrne: seu arrependimento, seu Superman e seu legado

[Nota: Este artigo integra o Superespecial Superman 80 Anos, que fará parte do site até dezembro deste ano. Acompanhem todos os artigos deste especial clicando aqui!]


É sabido o quanto o John Byrne conquistou gerações de leitores pelos títulos em que passou durante as décadas de 1970 e 1980, principalmente. Muitos dos jornalistas e artistas de quadrinhos que estão ativos hoje no mercado, admiram profundamente o que ele fez sozinho ou com seu maior parceiro (Chris Claremont). Ainda que o quadrinista seja um homem de opiniões fortes e controversas, sua influência foi vista por toda a indústria durante anos.

Entre seus trabalhos mais famosos está a passagem pelo Superman. Byrne foi responsável por revitalizar o personagem após o término da megassaga Crise nas Infinitas Terras. Fez muito sucesso. A abordagem moderna e humana que Byrne ofereceu para a mitologia do personagem veio acompanhada de uma renovação visual que tirou o estilo Curt Swan da vigência a fim de preparar o herói para novos tempos.

Consolidando ainda mais o direcionamento de mudança, o quadrinista também reformulou alguns supervilões (com destaque para Metallo e Lex Luthor), recriou Lois Lane à imagem de Margot Kidder e explorou diversos momentos do passado do Azulão com o objetivo de explicar quem ele tinha se tornado no presente daquela cronologia. Isso incluía uma breve exploração da dinâmica entre ele e o Batman, algo que não fora feito até então, e versões remodeladas de Smallville, Metrópolis e Krypton.

O Mundo de Krypton, segundo John Byrne.
O Mundo de Krypton, segundo John Byrne.

As repercussões foram muito grandes. Byrne era um astro e a DC investiu em seu nome e na reformulação inédita de seu maior super-herói. Foram publicadas matérias de destaque na revista Time e no jornal The New York Times, ambas com artes do quadrinista. “Estou levando o Superman às suas origens. É um encontro entre o Homem de Aço de Siegel e Shuster com da animação dos irmãos Fleischer”, disse ele à época.

Engana-se quem acha que John Byrne escreveu e desenhou o Superman apenas pelos seis meses de duração da minissérie Homem de Aço. Na verdade, o artista permaneceu dois anos ininterruptos trabalhando na relançada revista Superman e em várias edições de Action Comics. Isso sem falar nas minisséries Mundo de Pequenópolis, Mundo de Krypton e Mundo de Metrópolis. As aventuras daquela época tornaram-se icônicas.

Entre as coisas mais importantes que Byrne acrescentou à mitologia do Superman estão:

  • Explicações científicas sobre os superpoderes do herói
  • Novos usos para a kryptonita (como ser fundamental na destruição de Krypton e afetar humanos)
  • Um Clark Kent mais humano, decidido e influenciado por ícones que destoam um pouco da simbologia do personagem, como David Addison (Bruce Willis em A Gata e o Rato) e Dirty Harry (Clint Eastwood) – aliás, o próprio Byrne referenciou Eastwood como uma de suas maiores influências para recriar o Superman
  • Reformulação de grandes supervilões e o estabelecimento de Lex Luthor como um homem de negócios, provavelmente a maior contribuição de Byrne
  • (Meu conceito favorito) Os pais de Clark estarem vivos
  • A mentalidade cosmopolita dos personagens que vivem em Metrópolis
A Metrópolis cosmopolita de John Byrne redefiniu a cidade do amanhã.
A Metrópolis cosmopolita de John Byrne redefiniu a cidade do amanhã.

Por outro lado, há momentos mais duros, como o Superman matar o General Zod e outros dois kryptonianos (mas de uma forma bem mais convincente que a do filme Homem de Aço, de 2013) e sacrificar personagens queridos da mitologia kryptoniana em favor de sua modernização. Foram eliminados o passado como Superboy, o cão Krypto e outros elementos.

Saibam mais sobre isso nos excelentes artigos que o amigo Rafael “Algures” Rodrigues fez para o site do Dínamo Estúdio (do nosso querido camarada Daniel HDR) em 2013. Para quem ficou apenas dois anos escrevendo o Superman, e numa época em que quase tudo do personagem já estava estabelecido, Byrne criou muita coisa importante e tem todo o mérito por isso.

Portanto, quais são os problemas com ele? Ou do Superman que ele fez? Por que ele disse para a Syfy há poucas semanas que se pudesse voltar no tempo, não teria aceitado o projeto de jeito nenhum?

Vamos responder em partes.

John Byrne em 2018. Créditos: Syfy.
John Byrne em 2018. Créditos: Syfy.

Problemas de John Byrne:

É um cara difícil de se trabalhar. Diversos artistas da indústria têm/tiveram problemas sérios com ele. É teimoso e não consegue pedir desculpas quando fala alguma besteira – e quando fala, é pesado. O passar dos anos fez muito bem para alguns profissionais do meio que também agiram desta forma, como Frank Miller. Mas Byrne prefere insistir no erro a fim de exibir algum tipo de superioridade sobre seus colegas e até sobre seus admiradores. Algumas de suas declarações mais recentes sobre transexuais deixaram o mundo dos quadrinhos de cabelo em pé:

Muitas pessoas são torturadas e motivadas pelo desejo de fazer sexo com crianças. Nossa sociedade franze a testa sobre isso e essas pessoas são consideradas doentes mentais. Nós não os aceitamos, nós não os respeitamos.

Como ser “transgênero” é diferente? Dadas todas as voltas e reviravoltas que ocorreram em nossa compreensão geral de como o cérebro e a mente funcionam – um trabalho que ainda está em andamento – quão difícil é imaginar um futuro em que será determinado sem dúvida que “transgênero” é, na verdade, uma doença mental?

Como nos sentiremos em relação a todas aquelas pessoas que, em vez de ajudá-las, encorajamos em um sistema de automutilação?

Mas a verdade é que ele sempre foi assim. Vejam esse comentário sobre o 11 de Setembro:

A única resposta aceitável, agora que estamos oficialmente em um novo mundo, é que o governo americano dê uma de Antigo Testamento nesses filhos da puta. Operação Espada Flamejante. Encontre-os e mate-os. E mate suas esposas, seus filhos, suas mães, seus pais, seus irmãos, irmãs, primos, tias, tios, açougueiros, padeiros e fabricantes de castiçais. Deem uma de Super-Israel, e deixe-os saber o que é estar “em guerra” com os Estados Unidos.

A fúria dos americanos e boa parcela do mundo Ocidental após os ataques de 11 de Setembro é compreensível. Contudo, quando uma pessoa influente fala desta forma, ela perpetua ódio para todos os que o admiram. Matar crianças e esposas? Que diabos é isso? E ele não parou por aí:

Tenho pensado nisso desde que as várias células lunáticas do IRA começaram a se declarar “em guerra” com a Grã-Bretanha, imaginando imediatamente o que aconteceria se o governo britânico dissesse “Ok, vamos pra guerra!” e enviado a RAF para transformar Dublin em uma cratera fumegante.

Para os fãs do Superman, há uma declaração bem polêmica sobre Christopher Reeve também:

Eu notei que as pessoas começaram a se referir a Christopher Reeve como um herói. Eu não quero tirar um pingo da coragem que ele deve ter precisado para não acordar gritando todos os dias, mas a dura verdade é que não havia nada de heroico no que aconteceu com ele ou como ele lidou com isso… Na verdade, ele sequer teve escolha em como lidar com isso. Poderíamos imaginar que ele passava cada hora de seus dias, quando não na frente das câmeras, implorando para os membros de sua família simplesmente matá-lo e acabar com isso – mas nenhum deles o fez. Ele não teve escolha, a não ser lidar com isso (*). Heroísmo, acredito eu, envolve escolha.

* Sem querer sugerir que isso é o que estava acontecendo, caso haja pessoas paralisadas do pescoço para cima lendo estas palavras…

A dor particular de Christopher Reeve é inimaginável para a esmagadora maioria de nós. É verdade. Seus fãs nunca farão ideia de quais foram seus pensamentos mais sombrios após o acidente que lhe deixou tetraplégico. No entanto, fazer este tipo de suposição de forma pública (e tão agressiva) não soa nada bem. Só reforça a imagem escrota que Byrne sempre vendeu de si mesmo.

Christopher Reeve e Tom Welling gravando a participação dele em Smallville.
Christopher Reeve e Tom Welling gravando a participação dele em Smallville.

Para completar, comentários sobre pedófilos:

É quase certo que pedófilos “nascem assim”. Mais uma vez, vamos ao condicionamento evolutivo: procurar os mais jovens, os mais fortes, os mais saudáveis, para fins de reprodução. Um modo seguro (ou tão certo quanto possível) de garantir a sobrevivência de seus genes. Pedofilia também traz uma grande ajuda de respostas aprendidas, no entanto. Em uma sociedade como a nossa, onde o sexo “normal” é considerado por muitos como imundo e repugnante, o sexo “anormal” é ainda mais. “Anormal”, neste caso, significando qualquer coisa – até mesmo uma simples atração física – que não seja “apropriada para a idade”, heterossexual e estritamente para procriação.

De preferência na posição papai e mamãe.

Assim, qualquer indivíduo confuso que se sinta atraído por garotas jovens provavelmente se sentirá atraído por meninas cada vez mais jovens, como parte de seu padrão de auto-aversão. Tanto tormento emocional – em vítimas e vitimizadores – certamente seria posto de lado se nossa sociedade fosse sexualmente liberada o suficiente para ser capaz de dizer: “Claro, não há problemas em ser atraído por jovens de onze anos de idade. Apenas não faça nada sobre isso!”

O Superman e por que ele não o faria:

Olhar para John Byrne e suas criações é como olhar para qualquer outro artista cuja personalidade é execrável e suas obras, marcantes. Se pensarmos em termos de Quarteto Fantástico, por exemplo, é como pensar em Richard Wagner (um escroque antissemita) e Cavalgada das Valquírias. É como pensar em Roman Polanski e O Pianista. São pessoas que não merecem nem nossa pena, mas que produziram, com sua genialidade, obras de excelência em seus campos de criação. Portanto, para apreciar certas obras, às vezes somos forçados a separar criador e criatura. Principalmente porque diversas vezes, muitos desses caras conseguiram dar vida à sua imaginação sem aplicar suas visões de mundo. Isso é o mais importante.

Infelizmente, Homem de Aço é uma minissérie que envelheceu mal. Boa parte do que Byrne fez ali é cheio de fórmulas e datado. A época não é desculpa pra isso; algumas histórias mais antigas do Superman ainda são clássicos. Por outro lado, histórias e conceitos apresentados nas revistas mensais dos heróis que ele tocou ainda são influentes. Ainda são queridas. Não é este o legado de um artista?

Uma das imagens mais clássicas do Superman de John Byrne.
Uma das imagens mais clássicas do Superman de John Byrne.

Contudo, não é assim que John Byrne pensa hoje. Conversando com o Syfy, ele revelou que se pudesse voltar no tempo, não aceitaria revitalizar o Superman quando a Crise acabou. Por quê?

Segundo ele, aquilo deu trabalho demais. Psicológico mesmo. Tanto a parte editorial da DC como os fãs mais tradicionais do Superman causaram uma pressão tão grande durante toda sua passagem pelo herói que aquilo se tornou um transtorno sem fim para ele. Um pelo qual ele jamais gostaria de ter passado.

Isso nos leva a crer que muitas das ideias creditadas a Byrne para aquele Superman talvez não tenham sido 100% dele. Na verdade, como abordei em meu estudo sobre o personagem no livro Fazendo O Homem Acreditar, muita coisa escrita nos quadrinhos de John Byrne foi mandate da DC para a época. Um desejo inexplicável de “humanizar” o Superman, algo que foi repetido nos Novos 52 e no filme Homem de Aço. O fato de ele se arrepender daquela época reforça isso.

No fundo, um comentário assim soa bem John Byrne. É o tipo de coisa que ele faz. O segredo é saber olhar além do criador e perceber as nuances da criatura. Como dissemos acima, pouco de sua visão de mundo foi aplicada em seu Superman – e o senso de maravilha que permeou o Homem de Aço por décadas através de conceitos como a Legião dos Super-Heróis, seu superpoder quase ilimitador, a cidade engarrafada de Kandor e até Krypto, o Supercão, logo voltaram aos quadrinhos. Portanto, do ponto de vista de abordagem, não passa de uma questão de gosto. De resto, cabe ao leitor escolher separar ou não criador e criatura.


PS: Curiosamente, na mesma entrevista ele fez comentários fantásticos sobre o Superman de Chris Reeve e como aquilo o convenceu de que Clark Kent era o disfarce perfeito:

Quando eu era criança, eu costumava dizer “Quando ele foi tão estúpido a ponto de dizer às pessoas que tinha uma identidade secreta? Por que ele faria isso? Ele está andando com o rosto à mostra. Não é como o Batman, que usa uma máscara e as pessoas vão pensar ‘alguém está lá embaixo'”. É assim que o Superman parece o tempo todo, certo?

(Mas) Há uma cena incrível no primeiro filme de Christopher Reeve em que Lois entrou no quarto para trocar de roupa, Clark está lá e percebe que tem que dizer a ela [que ele é o Superman], e tira os óculos, e fica com a postura ereta – e ele ficar uns 10cm mais alto! Em seguida ele coloca os óculos de volta antes que ela entre. Christopher Reeve me convenceu de que se você pentear o cabelo para o outro lado, usar óculos e ser desleixado, pode parecer com outra pessoa.

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