[#Superman80Anos] Bizarro: Quando Frankenstein Encontra o Superman

Criado pelo escritor Otto Binder e pelo artista George Papp para a edição de número 68 de Superboy, publicada nos EUA em outubro de 1958, a versão maléfica do jovem Clark Kent possuía todos os poderes do herói, além de uma aparência artificial e bizarra. No Brasil, esta aventura foi publicada pela Ebal em Superboy-Bi #30 de fevereiro de 1972. Inicialmente, Bizarro era apenas uma cópia acidental do Superboy criada durante a demonstração de um “raio duplicador”, mas esta versão adolescente e equivocada durou apenas uma edição, enquanto sua versão adulta, surgida nas tiras de jornal do Superman escritas por Alvin Schwartz mais ou menos na mesma época, acabou ganhando notoriedade e se tornou um dos principais antagonistas do Homem de Aço.

Dono de um aspecto grotesco e comportamento errático marcantes, a criatura foi aos poucos conquistando seu espaço nos quadrinhos do Superman e, pouco mais de um ano depois de seu debut nas páginas de Superboy, teve sua versão adulta transportada para as páginas da revista Action Comics por Otto Binder, mais especificamente para as páginas da edição de número 254, de julho de 1959, no auge da Era de Prata dos quadrinhos. Esta aventura saiu por aqui em Superman #90 de junho de 1963 pela Ebal. Com um tom mais inocente, calcado na ficção-científica, Bizarro ganhou um planeta pra chamar de seu, povoado por um raio duplicador roubado de Lex Luthor, edições especiais e minisséries próprias.

As primeiras aparições de Bizarro.

Com o tempo, o vilão se tornou um dos maiores antagonistas do Superman e logo após a Crise nas Infinitas Terras, quando John Byrne capitaneou a reformulação do Homem de Aço, voltou a ser uma cópia falha do herói quando Lex Luthor tentou cloná-lo. Luthor desconhecia a origem alienígena do Superman, e seu DNA kriptoniano interferiu no processo de clonagem, resultando no vilão que conhecemos hoje como Bizarro. Esta abordagem mais atual e científica do personagem é o que lhe aproxima de outro famoso monstro gerado pela ciência: a criatura de Frankenstein.

Criado para o romance Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, pela escritora Mary Shelley, então com apenas 19 anos de idade, o monstro, que, ao contrário do que se pensa, não tem nome, é o resultado das experiências de seu criador, Victor Frankenstein, na tentativa de criar vida em laboratório. O romance foi publicado originalmente em janeiro de 1818, sem o nome de Shelley na primeira edição, e é uma das obras mais influentes da história da literatura. Frankenstein deu origem a um novo gênero de horror e, principalmente, ao que conhecemos hoje como ficção científica.

Bizarro Pós-Crise em arte de John Byrne.

Segundo o autor Stephen King, em sua obra Dança Macabra, as histórias de terror são construídas a partir de três arquétipos básicos de seus monstros. São eles o vampiro, onde o horror vem de fora, um alienígena ou algo não humano; o lobisomem, onde o horror vem de dentro do próprio homem, como um psicopata ou assassino mascarado; e o monstro de Frankenstein, onde o horror é criado pelo homem, como os horrores científicos da era nuclear no cinema drive-in dos anos 1950, ou os zumbis criados por experiências que deram errado. E é aí que encontramos o paralelo entre Bizarro e a criatura de Frankenstein.

Assim como o monstro de Shelley, que não escolheu ser como era e apenas buscava a paz e um lugar na humanidade, Bizarro é, em muitas de suas versões, apenas uma criança superpoderosa e irracional lutando por instinto para se proteger e, infelizmente, causando muitos problemas durante o processo. O visual do vilão, muitas vezes com sua pele pálida, suas feições brutalizadas e seu cabelo desgrenhado, lembram muito a versão mais famosa do monstro de Frankenstein, interpretada por Boris Karloff na adaptação dirigia por James Whale em 1931.

O “Frankenstein” de Karloff.

Como curiosidade, vale a pena citar que em Superman #143 de janeiro de 1961, Bizarro encontrou Frankenstein na história Bizarro Meets Frankenstein, escrita por Robert Bernstein e ilustrada por Wayne Boring. Na HQ, Bizarro decide vir para a Terra após ver a propaganda do filme Frankenstein para provar para seu povo que ele é o maior monstro de todos. Uma vez que na Terra filmes de terror são ficção, o vilão acaba encontrando o ator que interpreta o monstro em um filme e decide, ele também, atuar em um filme de terror. Como ninguém se assusta com Bizarro, ele se enfurece e acaba detido pelo Homem de Aço. No Brasil, esta história foi publicada na edição de número 81 da revista Superman em setembro de 1962 pela extinta Ebal.

Os paralelos entre os dois personagens ficam mais interessantes, quando analisamos a criação do Bizarro durante a Era de Prata, um período em que os personagens se afastavam de suas origens mais urbanas e pé-no-chão e se aproximavam de origens muito mais voltadas para a ciência. Uma das principais características deste período, é justamente este aspecto de ficção-científica que as histórias em quadrinhos adquiriram, popularizando super-heróis científicos e espaciais e os títulos sci-fi de editoras como a EC Comics.

Bizarro conhece sua inspiração.

Com suas origens lá no romance de Mary Shelley, um dos conceitos mais explorados da ficção científica é o do arquétipo do Pinóquio. A criatura artificial, criada pela mão humana, que quer ser como seu criador. E aqui podemos colocar as máquinas que criam consciência, como o robô HAL 9000 de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrik, ou, mais recentemente os anfitriões do parque Westorld na série que é um remake do filme Westorld – Onde Ninguém Tem Alma, de Michael Crichton, escritor que também explorou as mazelas do complexo de Deus do homem em Jurassic Park.

O que todas estas histórias possuem em comum é o horror do autômato ao adquirir consciência e perceber que ele não pertence ao mundo que lhe deu origem. Este horror, quase sempre, assume proporções catastróficas, seja resultando na morte de pessoas que pagam para estuprar e matar robôs como diversão em parques futuristas, seja como computadores de bordo que se recusam a executar as tarefas para as quais foram programados ou na destruição de Metrópolis. Quem está errado nesta história? Afinal, quando Frankenstein procura seu criador, ele só queria uma companhia para não mais ser sozinho. E se estamos todos procurando alguém para não estarmos mais sós, o monstro ali provava ser mais humano do que a mão que o criou.

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