[#Review] Jeremias – Pele é uma HQ obrigatória e certeira

Jeremias – Pele era obrigatório. Como diz o posfácio do rapper Emicida, a HQ não chegou atrasada, como muitos de nós chegamos quando o assunto é justiça social. Nem por isso ela não deveria ter ficado um pouquinho para depois – a realidade crua de Jerê é a de milhares de brasileiros de pele escura que pagam caro por serem diferentes dos hegemônicos.

Em Jeremias – Pele, Rafael Calça e Jefferson Costa colocam na história o que sentiram na pele (como não podia deixar de ser) a vida toda. Não apenas para passar uma mensagem contemporânea numa HQ que é uma pequena obra de arte no cada vez mais imenso universo das Graphic MSP, mas também para aprofundar um personagem secundário da Turma da Mônica. Jerê nunca teve um passado de verdade, e os criadores desta nova HQ aproveitaram-se disso para edificar uma história para o público jovem-adulto com mensagem e responsabilidade.

Capa de Jeremias - Pele por Jefferson Costa.
Capa de Jeremias – Pele por Jefferson Costa.

Apoderando-me de um termo utilizado pelos próprios quadrinistas no lançamento da HQ em São Paulo, a família de Jerê é um retrato da “família Doriana“, algo que há muito não ouvia. Mas é verdade. Jeremias tem uma família bem sucedida e estruturada, algo difícil principalmente para os negros no Brasil. Não, eles não são os únicos, mas estão em número grande demais. Portanto, com pai e mãe tão amáveis, ficou mais fácil para o herói desta aventura enfrentar o racismo, certo? Errado!

Na HQ, assim como acontece na vida real, nosso protagonista e seus pais passam por situações erroneamente cotidianas, como piadas racistas, comentários preconceituosos, batidas da polícia e outros elementos que tornaram-se deploravelmente folclóricos no Brasil. Estão ali comentários sobre o cabelo do menino, sua cor, as profissões que ele “deveria” ter etc. São momentos bem duros, ainda mais para uma criança, e os quadrinistas não economizaram na emoção e seriedade de tratar estes temas.

Em uma aventura que na verdade simboliza o reflexo da sociedade brasileira, ainda mais nos tempos atuais, em que a intolerância está tentando prevalecer novamente, Jeremias encontra seu verdadeiro eu. Enquanto acompanhamos sua busca e testemunhamos seu gigantismo diante dos pequenos de espírito, somos levados a refletir sobre tudo que fizemos – todos já fomos racistas em algum momento. E cada vez que o fazemos, ferimos um ser humano. Na pele. Não é hora de nos agigantarmos também perante o preconceito?


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Jeremias – Pele
Roteiro: Rafael Calça
Arte: Jefferson Costa
Páginas: 164
Publicação: Panini (Abril de 2018)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): R$ 31,90; (dura) R$ 41,90

Numa reinterpretação ousada, porém necessária, como enaltece Mauricio de Sousa, em seu prefácio, o roteirista Rafael Calça e o desenhista Jefferson Costa dão vida a uma história forte, dura, emocionante, na qual Jeremias lidará pela primeira vez com o preconceito por causa da cor da sua pele. A história é recheada de dor, superação, aprendizado e preparação para a vida.

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