[#Review] A despedida de Mark Waid em Avengers: No Surrender

Pense em um típico evento da Marvel nas últimas duas décadas. Pense na típica minissérie em seis ou oito partes. Em tie-ins por toda a linha de quadrinhos da editora tirando o foco dos autores de seus títulos para algum “grande” tema. Em uma campanha de marketing massificada e irritante. Pense em um mote polêmico feito para chamar a atenção da crítica especializada e leitores de notícias de portais de cultura pop. Pense em atrasos. Em edições extras. Pense nisso tudo… Agora esqueça tudo que você acabou de pensar, pois Avengers: No Surrender não tem nada disso!

Avengers: No Surrender é um arco em 15 (sim, quinze!) partes reunindo todos os times de Vingadores em atividade na Marvel atualmente – leia-se a equipe principal, a equipe unificada com mutantes e meta-humanos e os Vingadores da América (USA Avengers) liderados pelo dono da IMA, Roberto da Costa. Ao contrário da maioria das sagas Marvel, No Surrender se passa dentro do título principal dos Vingadores e não tem tie-ins.

O editorial, no entanto, suspendeu a publicação de Uncanny Avengers, USA Avengers e uniu essas equipes criativas (dos autores Jim Zub e Al Ewing) ao veterano Mark Waid em um único título dos Vingadores (a própria Avengers de Waid) semanal na empreitada. Desta forma, não houve impacto na linha de publicações da editora, e o time criativo pode dividir melhor tarefas de roteiro e arte e atender a prazos com relativa facilidade.

No Surrender começou a ser publicada em janeiro de 2018 e preencheu o vácuo entre o início da iniciativa Marvel Legacy e a chegada do novo autor do título, Jason Aaron, que estreou agora em maio no quadrinho dos maiores heróis da editora.

Na história, o planeta Terra é retirado do sistema solar para ser usado como um tabuleiro de jogos de batalha entre o Grão Mestre e um novo personagem, que também é um Ancião do Universo chamado de Challenger. Ele tem seu time de gladiadores, que é a ressuscitada Ordem Negra de Thanos, enquanto o Grão Mestre cria uma nova equipe com indivíduos mortais criados para este evento sob a alcunha de Legião Letal (nome já usado por grupos de vilões Marvel em outras ocasiões).

O jogo disputado entre os dois Anciões consiste em uma luta entre seus dois times para obter objetos chamados Pyramoids – estes são posicionados em diversos locais do planeta e causam cataclismas terríveis às suas proximidades, como terremotos, tempestades e todo tipo de desastre natural. Em meio a todo esse caos, vários heróis da Marvel são “congelados” em uma espécie de campo de estase e ficam inativos. A equipe que resta para proteger nosso planeta vê o “retorno” de uma membro fundadora da equipe que simplesmente surge do nada na forma da personagem Voyager. Com esta premissa temos o palco montado para várias linhas narrativas individuais que convergem: A disputa entre o Grão Mestre e Challenger, o aparecimento de Voyager e os Vingadores tentando impedir que o planeta seja completamente arrasado pelo jogo cósmico que se passa na Terra.

O roteiro colaborativo entre Waid, Zub e Ewing começa em alta velocidade. Em duas edições a Terra está fora de órbita, tudo está em frangalhos, a Ordem Negra e a Legião Letal entram em um combate acirrado, personagens chave são incapacitados ou feridos e o mistério de Voyager parece muito complicado. À medida em que a história avança (lá pela quinta ou sexta parte), os roteiristas cadenciam um pouco mais a ação e dão atenção às relações e reações de personagens chave a trama e sua aparente incapacidade de lidar com algo tão fora de sua escala de poder.

Vale destacar que a história não foca na tríade tradicional de personagens que tanto vemos em sagas dos Vingadores. Odinson nem aparece (em seu lugar temos a unânime Jane Foster); Homem de Ferro está lidando com seus próprios problemas em seu título mensal (escrito por Brian Michael Bendis); enquanto isso, o Capitão América é um mero coadjuvante frente a presença constante do líder da equipe principal de Vingadores: o Falcão. Com isso, o roteiro abre espaço para personagens como a Nova Vespa (Nadia Pym), Roberto da Costa, Vampira, Fera, Toni Ho, Mercúrio, Synapse, Magnum e um bem-vindo Relâmpago Vivo brilharem. Esse elenco principal que é bem diferente do habitual dá um ar de frescor a história e ao mesmo tempo a estratégia de elenco remonta a histórias antigas dos Vingadores principalmente a equipe da Costa Oeste escrita por Roy Thomas nas quais nem sempre os membros fundadores tinham tanto destaque. Somado a isso, o roteiro pega gancho de acontecimentos passados tanto em Guerra Civil II quanto em Império Secreto e resgatam algumas rusgas. O retorno do Hulk na forma de Bruce Banner é um dos pontos altos da história em uma sequência de ação e destruição de emocionar qualquer fã do golias esmeralda.

A arte em No Surrender é uma colaboração entre Pepe Larraz, Kim Jacinto e Paco Medina. No geral temos edições bastante consistentes, principalmente em se tratando de elencos grandes e escopo cósmico. A caracterização das lutas é inteligível e os destaques ficam para as edições desenhadas por Larraz, que tem uma pegada muito agressiva em seu traço e deixa as páginas duplas fazerem o que se espera em um quadrinho de heróis desta natureza.

O destaque negativo de No Surrender é que por se tratar de uma saga escrita para leitores que já estão acompanhando os títulos atuais dos Vingadores, fica às vezes difícil entender ou ter empatia por algum membro do elenco que não é tão conhecido. Além disso, No Surrender também não tem um tema filosófico ou algum dilema muito humano em sua premissa. O leitor não vai ler a saga e discutir por horas com amigos o roteiro do quadrinho. Trata-se de uma história de heróis à moda antiga, algo que pode ser considerado raso por leitores querendo alguma substância.

Avengers: No Surrender marca a despedia de três times criativos de títulos dos Vingadores. Ela também é a despedida de Mark Waid desta franquia e um ponto final nesta temporada morna no quadrinho dos maiores heróis da Marvel. Entretanto, pela honestidade do trabalho de todos os envolvidos e o formato que prioriza a história e não polêmicas periféricas, o arco pode facilmente se tornar uma ótima história esquecida dentro da mensal dos Vingadores.

Mas para leitores atentos e críticos que olham a fundo, fica evidente que este é o ponto alto da passagem destes autores por esta franquia. E mesmo com uma história que poderia facilmente ter sido feita em 1987, temos uma ótima fonte de divertimento para fãs de super heróis e um adeus muito digno de Waid, Zub e Ewing aos Vingadores.

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