Rio Negro: Folclore, Lovecraft e peixes estranhos em HQ nacional

Criada pelo ilustrador Ikarow, a HQ de horror Rio Negro traz elementos bastante tradicionais do nosso folclore, misturando Lovecraft – lendário escritor americano responsável pelos mitos de Cthulhu e Necronomicon – e criptozoologia em um gibi que, ao mesmo tempo em que toca em pontos tão familiares ao fã do horror, resulta em um amálgama bastante original.

Em Rio Negro, o leitor acompanha um casal durante uma expedição pelo Rio Amazonas em busca de um estranho e misterioso peixe cuja última aparição, quatro anos antes, havia deixado os cientistas curiosos. É neste ponto que Ikarow usa fatos reais, uma vez que este misterioso peixe realmente foi encontrado há alguns anos e nunca mais foi visto em lugar algum, e começa a conectar mitos lovecraftianos e folclore em torno desta fatídica expedição.

Arte da capa de Rio Negro 2, por Ikarow.

A primeira edição, das quatro inicialmente planejadas para concluir a minissérie, foi lançada em 2016 de maneira totalmente independente, e agora, o autor busca apoio no Catarse para viabilizar o segundo capítulo de seu Rio Negro.

Aproveitando a oportunidade, o Terra Zero bateu um papo com o artista sobre seu projeto. Confira:

Rio Negro é uma mistura de Lovecraft, mitos indígenas e um pouco de Discovery Channel. De onde surgiu a ideia de criar um híbrido tão inusitado e que, ao mesmo tempo, faz tanto sentido?

Eu sempre fui um fã de Lovecraft e já planejava fazer uma adaptação de um conto do autor um cenário brasileiro, mas, um dia, enquanto rascunhava a história, minha esposa, que é professora de crianças, comentou comigo sobre uma aula de folclore brasileiro. Em particular, ela descreveu a reação de desconforto das crianças quando ela leu o texto de um deus indígena, Jurupari, o Senhor dos Pesadelos, que leva a alma dos índios enquanto dormem e que aparece em sonhos tocando a música que sai dos buracos no seu corpo.

A partir daí, todo o trabalho voltou para a prancheta e comecei uma extensa pesquisa sobre a mitologia indígena e percebi que as entidades da cosmologia indígena tinham características muito comuns aos deuses criados por H.P Lovecraft. Ambas têm natureza claramente sobrenatural e muitas entidades indígenas governaram o mundo segundo seus próprios desígnios e motivações. São entidades incompreensíveis para a humanidade.

São energias que literalmente assumem outras formas quando visitam nosso planeta. Às vezes representam conceitos como elementos da natureza, música, doenças ou a própria fertilidade. São descritos como deuses, criaturas de tamanho poder e idade que faz com que os planetas sejam relativamente jovens em comparação a eles. A mitologia indígena é repleta dessas estranhas presenças, nascidas ou não em nosso mundo, cheias de formas de vida alienígenas. Basicamente o que Lovecraft descreveu em seu legado.

Horror cósmico amazônico, por Ikarow.

Alguns pontos da narrativa, como o tal “peixe misterioso” descoberto no Amazonas em 1997, são baseados em fatos reais. Você acha que esta pitada de realismo em meio à ficção, torna a história mais crível? Como foi a pesquisa deste material?

Acredito que a literatura de terror seja uma forma segura de explorar seus limites. Ao ler um livro ou assistir um filme de terror, você sente o medo, a adrenalina, a ansiedade e a angústia, mas se mantém calmo porque seu cérebro diz que você não corre perigo real e as aparições dantescas descritas no livro ou exibidas na tela, nunca serão uma ameaça pois trata-se apenas de um produto da fantasia.

No entanto, quando os elementos de uma história são inspirados em fatos reais, o autor aumenta a sensação de ameaça ao leitor, pois agora ele sabe que, apesar de estar seguro no conforto do seu lar e que aquilo que ele lê ser um produto da ficção, existe a   ideia de que aquilo realmente aconteceu com alguém. E dada as circunstâncias, poderia ter acontecido com outra pessoa também. Poderia ter acontecido comigo e a ameaça se torna real.

Em um mundo onde a ciência tem destruído os mitos por meio de evidências cientificas, a Amazônia brasileira ainda é o ambiente perfeito para se abrigar o horror.  Não é tão inóspito a vida, como os desertos ou as geleiras antárticas, e ainda assim, é território desconhecido, onde poucos poderiam sobreviver. É uma região do planeta cercada de lendas e de fenômenos sobrenaturais e ainda sem explicação. Onde a descrição de criaturas fantásticas que desafiam o limite da razão é aceita com naturalidade. É talvez o único lugar do planeta em que a realidade e ficção andam de mãos dadas. Onde inúmeros cientistas e desbravadores entraram no coração da floresta para nunca mais retornarem, se tornando assim parte das lendas da Amazônia. É um ambiente perfeito para se falar do horror.

Rio Negro é o seu primeiro trabalho em quadrinhos? Fale um pouco sobre sua relação com a nona arte.

Costumo dizer que sempre fui ilustrador. Antes mesmo de ser gente, já desenhava, e os quadrinhos sempre foram uma forma de canalizar essa paixão pela arte. Desde que conheci os primeiros quadrinhos percebi que eles eram uma forma de estimular minha imaginação e curiosidade. Foi pelo contato com os heróis da DC Comics, que me fizeram pesquisar sobre os mitos gregos. Foi a leitura do Monstro do Pântano que me fez conhecer Lovecraft. Sempre estarei em débito com os quadrinhos por terem aberto minha mente e me ensinado tanto. Portanto, fazer quadrinhos é apenas uma forma de retribuir e perpetuar esse saber.

A origem do homem, por Ikarow.

A primeira edição de Rio Negro foi toda produzida e editada em um tablet, com um resultado bastante surpreendente. Como foi este processo? O que mudou no processo de criação do segundo volume?

Acredito que Rio Negro seja o primeiro quadrinho totalmente feito no iPad. Os tablets se tornaram uma ferramenta comum na nossa rotina e muita gente desconhece o potencial para produção de arte digital oferecida por esses equipamentos.

Eu já vi muito artista dizendo ter vontade de produzir quadrinhos mas não sabe como começar. Ironicamente, reclamam disso digitando em seus tablets sem conhecer o poder gráfico desses equipamentos. Uma das propostas de Rio Negro é o de desmistificar o tablet e apresenta-lo como uma ferramenta essencial para quem produz ou quer produzir arte digital.

O processo de produção de quadrinho é simples. Primeiro as páginas são totalmente desenhadas em papel. Em seguida, digitalizadas, coloridas e finalizadas no tablet. A primeira edição de Rio Negro foi 100% realizada desta forma, mas ainda existem algumas dificuldades a serem superadas ainda como a transição de RGB (versão digital) para a impressão (CMYK) e ainda, a falta de aplicativos voltados para a produção dos balões de texto. No entanto, como lado positivo, é uma ferramenta que permite que você desenhe ou produza seu quadrinho em qualquer lugar.

A maior diferença da primeira edição para a segunda, além dos avanços da tecnologia que facilitaram a produção e qualidade das imagens, é que essa segunda parte teve seus balões e textos realizados fora do iPad, aprimorando a qualidade da leitura.

Além de Rio Negro você também publicou de maneira independente o quadrinho A Bruxa, baseado em outra lenda do nosso folclore, a Cuca. A HQ tem alguma relação com o universo de Rio Negro? Você pretende trazer outros personagens do nosso folclore para os quadrinhos no futuro?

As pessoas tendem a menosprezar a Cuca. Ela é uma das minhas personagens favoritas do folclore justamente porque ela pode estar em qualquer lugar. Ela é aquela que vemos andando nas estradas das cidades de interior. Ela habita nas matas, próxima às cidades. A bruxa vive em busca de crianças desobedientes e seu único objetivo é provar mais da carne macia de bebês.

Ao perguntar para qualquer um, o que a cuca faz, as pessoas respondem de imediato, “ela come criancinhas”. Já imaginou o ato de alguém devorar um bebê? Imagino que a bruxa, dada as feições reptilianas nem mesmo cozinha. Ela os devora vivos, enquanto choram sem esperança de resgate. A Cuca nasceu para ser temida e é isso que eu tento resgatar quando escrevo as suas histórias.

E sim, a Cuca vai se revelar um personagem importantíssimo em Rio Negro 3, assim como outros personagens do folclore, como o Mapinguari. Mboi Tui, Iara, o Boto e o Curupira, deverão participar. Alguns terão apenas em uma passagem, e outros são fundamentais para o desfecho da saga.


Rio Negro 2 – Lendas da Primeira Tribo terá inicialmente 88 páginas coloridas, com este número podendo aumentar dependendo da arrecadação, em couche fosco no formato 16×23 cm, com lançamento programado para o FIQ 2018. Para apoiar, acesse a página oficial do projeto no Catarse.

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