[#Superman80Anos] Guerras Frias e a história dos Supermen Azul e Vermelho

[Nota: Este texto foi publicado originalmente em novembro de 2009. Seu objetivo era explicar de onde surgiu a ideia dos Supermen Azul e Vermelho, conceito que foi reciclado e utilizado por alguns durante a década de 1990. O Terra Zero o republica agora, com algumas correções, diversas alterações e informações adicionais, como parte do Superespecial Superman 80 Anos, que fará parte do site até dezembro deste ano. Acompanhem todos os artigos deste especial clicando aqui!]


Uma das várias previsões feitas por historiadores e analistas depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, foi a de que as relações entre ele e a Rússia seriam bem próximas, já que ele, como empresário, tem diversos negócios por lá, alguns envolvendo o próprio presidente russo, Vladimir Putin. Contudo, o que estamos vendo neste exato momento é uma tensão complicada entre eles após o ataque estadunidense em território sírio, o que também afetou a Rússia e suas tropas. O que estamos vivendo nos últimos dias é um clima de desagrado entre as duas nações que lembra, dadas as devidas proporções, o que aconteceu durante os anos de Guerra Fria.

Nos primeiros anos do longo conflito indireto e estratégico entre os Estados Unidos e a então União Soviética, uma proposta curiosa do editor Mort Weinsinger surgiu para o autor Leo Dorfman e Curt Swan, um desenhista já admirado pelos fãs do Superman: o Homem de Aço deveria acabar com todo o mal do mundo (e resolver mais alguns probleminhas no meio do caminho). Na época, os títulos do herói eram os mais vendidos da DC (com a revolução da Marvel acontecendo, a concorrência comercial tornou-se acirrada, mas o Superman geralmente ficava no topo dos gráficos de vendas mensais dos Estados Unidos, provando que sua popularidade custava a diminuir).

Capa de Superman #162 mostra os Supermen Azul e Vermelho em arte de Kurt Schaffenberger.
Capa de Superman #162 mostra os Supermen Azul e Vermelho em arte de Kurt Schaffenberger.

Historicamente, pensar nos Supermen Azul e Vermelho é como relembrar um dos piores períodos dos quadrinhos de super-heróis de todos os tempos. Mas não foi apenas nos anos 1990 que o Azulão foi dividido em duas entidades; este conto original dos Supermen Azul e Vermelho foi escrito e lançado um ano depois da famosa Crise dos Mísseis de Cuba, e mostrou-se um fruto claro da paranoia mundial daquele período, principalmente do medo incutido na população estadunidense de que uma guerra de proporções nucleares fosse acontecer a qualquer momento.

A história intitulada The Amazing Story of Superman-Red and Superman-Blue! foi publicada em julho de 1963 em Superman #162, saindo no Brasil cinco anos depois, pela Ebal, em Superman Bi (1ª Série) n° 19 sob o título de Os Gêmeos Titânicos. Porém, antes de falarmos dela diretamente, vamos comentar seu contexto.

A Crise dos Mísseis de Cuba se deu em outubro de 1962, quando um avião das forças militares dos EUA tirou fotos secretas de vários silos nucleares em Cuba, instalados lá pelos soviéticos como resposta às instalações estadunidenses na Turquia no ano anterior. Divulgadas para o mundo todo, as fotos geraram uma tensão diplomática que perigaram uma guerra nuclear, impedida apenas pela diplomacia de John F. Kennedy e Nikita Khrushchev. De qualquer forma, maiores detalhes podem ser lidos na página da Wikipédia e vistos também no filme 13 Dias que Abalaram o Mundo, estrelado por Kevin Costner. Foi basicamente com este cenário armado no ano anterior que em 1962, Dorfman e Swan criaram a história comentada aqui.

Pôster do filme 13 Dias que Abalaram o Mundo.
Pôster do filme 13 Dias que Abalaram o Mundo.

Nela, o Superman é convocado pelos residentes da cidade engarrafada de Kandor a ouvir o resultado de uma auditoria de seus trabalhos ainda sem conclusão. Os kandorianos cobraram do Superman as seguintes tarefas:

  • Fazer Kandor voltar à seu tamanho normal e não ser mais uma cidade engarrafada
  • Acabar com sua fraqueza perante a kryptonita
  • Destruir de vez todo o mal do planeta Terra

Pressionado pela dificuldade de cumprir todas as tarefas, mas muito determinado a executá-las, o Superman decide participar de um experimento com uma máquina energizadora movida a todos os tipos de kryptonita conhecidos. O objetivo é fazer com que sua inteligência aumente exponencialmente. O experimento funciona, aumentando tanto as capacidades do herói que, como efeito colateral, ele se divide em dois superseres: os Supermen Azul e Vermelho.

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Os Supermen gêmeos conseguem aumentar a cidade de Kandor usando combinações dos campos magnéticos da Terra, e libertando-a da prisão da garrafa, tornando-a um planeta à parte chamado Novo Krypton [Nota: este conceito foi recuperado em 2009 por Geoff Johns e James Robinson, que criaram a saga Novo Krypton sob um pretexto semelhante]. Sua próxima tarefa era eliminar o mal, e para isso eles tiveram a ideia de inventar um “raio anti-mal”, que poderia curar qualquer tendência criminosa dos seres vivos. Eles colocam o raio em satélites que alcançariam toda a Terra, curando não apenas vilões como Lex Luthor e o Sr. Mxyzptlk, mas também torna “pacíficos” (entenda-se: capitalistas e seguidores do modo de vida dos EUA) homens como Fidel Castro e Nikita Khrushchev.

Um reformado Luthor cria um soro capaz de curar todas as doenças conhecidas pelo ser humano, curando o câncer, fazendo os cegos voltarem a enxergar e muito mais. O soro é colocado nos maiores reservatórios naturais de água do mundo, para que todos possam ter acesso a ele

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Com quase todas as mazelas do mundo resolvidas, os dois Supermen finalmente têm tempo de lidarem com seus próprios problemas, e decidem arrumar uma solução para o triângulo Superman x Lois Lane x Lana Lang. Cada um prefere uma garota e, ao revelarem seus segredos a elas, é marcado um casamento duplo, que acaba se tornando triplo, já que Jimmy Olsen se casa com Lucy Lane, a irmã de Lois. Lana fica com o Superman Azul e o Vermelho casa-se com Lois. Este último, aliás, escolhe viver em Novo Krypton, sacrificando seus poderes, enquanto o Azul ficou na Terra, dando início a uma Superfamília.

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A utopia criada pelo mundo de Dorfman e Swan é fruto direto da imagem que a sociedade americana tinha do resto mundo: a de que todos, a não ser eles, precisavam de uma purificação. É isso que os Supermen fazem nesta história, que mesmo com os apelos infantis da época, não deixam de refletir aspectos sociais da Guerra Fria. Apesar dos nomes de Nikita e Fidel Castro não serem citados, suas caricaturas os colocando como dois “seres maus” estão nas páginas da HQ. Ou seja, se essa história fosse publicada hoje e representasse a realidade política dos Estados Unidos no momento, os “caras maus” para os estadunidenses em geral seriam Kim Jong-Un e Bashar al-Assad, por exemplo.

Porém, devido à política progressista da DC nos últimos anos, é difícil imaginar que seus quadrinhos ofereçam qualquer tipo de apoio às políticas interna e externa de Donald Trump. Caso essas medidas não fizessem parte da premissa editorial da empresa, uma história como essa não seria tão inimaginável nos dias de hoje.

Saindo do espectro do político e mirando exclusivamente na caracterização do Superman aqui, sua já conhecida imagem messiânica é bem retratada. Durante a narrativa ele se mostra onipotente e onipresente – algumas vezes até onisciente. A história de Dorfman e Swan extrai da sociedade a possibilidade de que ela própria possa fazer algo, a colocando na posição de pedir ajuda para um deus de capa esperando que ele resolva todos os problemas do mundo. No fundo, isso serve para concluir, dentre outras coisas, que no mundo real não há um homem de capa para resolver os problemas – todos devem fazer um pouquinho para que o todo melhore naturalmente.

Se esse argumento não for o suficiente, Novo Krypton é mostrado como um planeta utópico e pacifista, muito diferente de outras versões do planeta que vimos durante os 80 anos do Superman (inclusive no cinema e na TV). Ou seja, o deus de capa conseguiu acabar com o mal do mundo, mas a história não mostra é como seria a repercussão disso na sociedade.

Agora, não serão “raios de bondade” que farão Trump, Putin, Jong-Un ou qualquer um desses ser bom ou mau. É o papel da sociedade dar certos poderes a eles. Mas esse papo fica para outro dia.

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